Camila, a opção socialista | Fábio Campana

Camila, a opção socialista


Camila Lanes é a candidata a prefeita de Curitiba mais identificada com a esquerda socialista, para diferenciá-la dos partidos e correntes sociais-democráticos que ainda tem como principal referência o PT. Ela começou sua atuação política no movimento estudantil. Foi presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e participou das ocupações de escolas, em 2015, em protesto contra a reforma do ensino médio.

Com apenas 24 anos, ela disputa sua segunda eleição, pelo PCdoB, depois de ser candidata a deputada federal em 2018. E não teme a polarização entre esquerda e direita, que tomou conta do País, fazendo ressurgir até o “fantasma” do comunismo no debate político. Propõe um programa de governo que coloque a prefeitura a serviço da proteção social nesta crise econômica agravada pela Pandemia de covid-19.

Camila Lanes expõe suas ideias e propostas de forma clara, articulada, como se pode ver na entrevista que deu ao Bem Paraná, quando explica porque tem como uma das bandeiras de campanha, atrair as pessoas comuns para o processo político. E diz que um dos principais desafios do próximo prefeito é garantir que as pequenas e microempresas não fechem as portas por causa da redução da atividade econômica motivada pela pandemia do Covid-19. Leia a entrevista completa reproduzida no Leia Mais.

Bem Paraná – Se hoje fosse 1º de janeiro, qual seria sua primeira medida como prefeita?

Camila Lanes – Minha primeira medida seria, caso eleita, garantir que nós não tenhamos uma segunda onda de contágio de Covid-19. Nós estamos acompanhando todo o Brasil, os estados lutando para chegar à bandeira azul, de queda dos casos. O nosso estado segue na bandeira amarela. O nosso município vive uma constante retirada e retomada do comércio e do aumento e da baixa das bandeiras. Então a primeira medida seria reforçar nossas equipes de saúde para garantir o atendimento amplo, a testagem das pessoas e o controle do contágio para que a gente não enfrente uma segunda onda e tenha que parar de novo a cidade, e causar toda uma crise econômica, social e educacional por conta da pandemia.

BP – Bolsonaro fez mais de 70% dos votos na última eleição em Curitiba. E com a polarização, até o “fantasma” do comunismo voltou à pauta da política no País. Como uma candidatura do Partido Comunista do Brasil se encaixa nesse cenário?
Camila – Se encaixa trazendo e retomando um debate da política. Hoje, em especial após a eleição do Bolsonaro, a disputa entre esquerda e direita se resume a duas grandes figuras que representam dois projetos totalmente opostos. Mas na verdade, o que nos difere do governo Bolsonaro, ou dos partidos de direita, não é somente uma inimizade ou a discordância de um projeto ou de uma pessoa. No primeiro debate em que eu participei me foi perguntado o que eu achava do debate. Eu declarei que fiquei muito feliz porque não foi aquela velha conversa entre direita e esquerda, mas sim, a gente conseguiu pontuar a diferença dos projetos apresentados. A ousadia do PC do B em lançar uma jovem mulher é de justamente trazer isso. Que é possível debatermos sim política seja com uma pessoa de uma ala mais conservadora, seja mais progressista, mas que o que deve ser debatido não são frases de efeito, bandeiras determinadas. Acima de tudo a gente tem que debater um projeto de cidade, de governo, planos de atuação para enfrentamento dos retrocessos que temos visto.

BP – O que trouxe da sua trajetória do movimento estudantil para a política?
Camila – Primeiro a participação popular na política. O movimento estudantil me ensinou o quanto precisamos atrair e trazer pessoas comuns para a política. Precisamos dessasociar a participação na política de pessoas que têm um histórico, financiamento. Para a política ser comum precisamos de pessoas comuns na política. E o segundo é a defesa da educação pública. Eu vim desse movimento estudantil secundarista. Pude viajar por todas as capitais do País. Pude representar o Brasil em outros países em encontros internacionais sobre educação e juventude. E hoje trago como principal proposta tornar Curitiba um modelo em educação no País. Porque nossa cidade é modelo em tantas outras coisas, menos em educação. E nós entendemos que a educação é uma saída real para muitos problemas que temos em nossa cidade. E o movimento estudantil me ensinou que a gente ocupe o espaço, que esteja presente, se faça participando. Não é à toa que hoje a gente vê o crescimento exponencial tanto de mulheres e jovens no processo eleitoral, em especial jovens e mulheres pretas. E isso é claramente uma demonstração de que as pessoas comuns querem fazer parte da política. E a defesa da educação. Acredito que a educação é uma grande porta para trazer a Curitiba reconhecimento aqui na cidade e fora dela.

Bem Paraná – Como vê a questão da voltas às aulas com a pandemia?
Camila Lanes – No meio da pandemia, muitos estudantes das escolas particulares, seus pais decidiram retirar eles dessas instituições por conta da crise financeira e todo o impacto que a pandemia trouxe, tanto para as classes mais baixas quanto das classes média e alta. Nós já temos um problema em Curitiba. Nós temos 9 mil crianças sem vagas nas creches públicas. Isso significa que em 2021 esses mesmos estudantes que tinham vagas nas creches privadas potencialmente vão querer acessar as vagas nas creches públicas. A gente precisa expandir o número de salas, garantir a contratação de mais profissionais, e que a estrutura física das creches e das escolas municipais tenham condições de receber o retorno. Eu acho que atualmente nós não temos. Não é possível que em meio à uma pandemia a gente ache normal retornar às salas de aula. Porque quem é da área de educação ou mesmo da saúde sabe que o retorno da aula tem um impacto real na cidade, porque tudo volta à funcionar. Todo um organismo que fica em volta dessas instituições, da comunidade, volta a funcionar. Isso significa que a gente teria maciçamente muito mais pessoas nas ruas. Nós somos contra o retorno das aulas este ano porque entendemos que é impossível garantir que as crianças, principalmente as mais pequenas, garantir que elas fiquem em distanciamento, que elas não vão querer se abraçar, não vão querer brincar. A gente precisa ter controle sanitário, uma limpeza real, isso só vai garantir quando a gente tiver até mesmo condições orçamentárias. Nossa proposta é criar um plano emergencial de retorno às aulas. Planejando o retorno, entendendo quais são as áreas mais afetadas pelo contágio. Entendendo, inclusive qual a rotina daquele estudante. Garantindo que essa criança não vai levar o Covid para dentro casa ou para dentro da sala de aula. Esse debate, inclusive, das aulas remotas nos trouxe a necessidade de enfatizar a importância da universalização do acesso à internet. Porque não adianta, simplesmente, colocar uma aula remota se não garantir que todos os estudantes tenham acesso igual ao ensino, e que os professores tenham formação para fornecer esse tipo de educação. O retorno das aulas é o retorno da cidade, então nós precisamos planejar muito bem.

BP – Como vê a maneira com que a atual gestão lidou com a pandemia?
Camila – Um fechamento muito precoce. A gente viu que em março, lá atrás, nossa cidade já começou a parar aos poucos. O primeiro setor afetado foi o turismo e a cultura, que são setores que necessitam em especial, de público, de contato. De lá para cá o atual prefeito não teve a sensibilidade para ouvir a Secretaria da Saúde. Nós temos uma secretária da Saúde que fez algumas recomendações que para mim foram acertadas. A não abertura do comércio, academias, shoppings, parques, para evitar que as pessoas fizessem aglomerações por parte de encontros sociais. E essa contrapartida do Rafael (Greca) de abrir as academias, depois shopping e parques acaba confundindo os curitibanos. Infelizmente, por mais que não tenhamos números estratosféricos de mortes, apesar de 1 mil mortes é um número muito trágico. Poderia ter sido evitado.

BP – Qual o desafio do próximo prefeito nesse cenário?
Camila Lanes – Garantir que a economia não trave, que o pequeno e microempreendedor não chegue à falência. Garantir que a educação não seja o principal cenário de aglomeração e contágio. Eu me preocupo com a forma que as aulas podem voltar e podem ser aí sim ser o responsável por uma segunda onda de contágio pelo impacto que a educação tem na cidade. E acima de tudo, garantir a saúde. Todos nós entendemos que o Covid mudou, inclusive o planejamento de saúde de pessoas que estavam há meses esperando por cirurgia, por procedimentos, e não tiveram condições de que esses serviços fossem prestados pelas restrições da pandemia. A saúde é de fato uma das questões estruturantes que precisam ser garantidas. Renda, emprego e educação e saúde.

Bem Paraná – Seu programa de governo fala em desprivatização dos serviços públicos. Quais serviços seriam desprivatizados e de que forma?
Camila Lanes – Hoje Curitiba tem a terceirização de serviços de saúde e as concessões com instituições privadas no ensino básico. Nós queremos primeiro entender porque essas concessões foram feitas e porque hoje existe dinheiro público sendo destinado para instituições privadas. Não entendo que isso precise ser eliminado, mas é algo que precisa ser estudado e entendido. Nós temos 9,1 mil crianças fora das creches, porque o dinheiro que está indo para instituições privadas não foi destinado para a construção de novas creches, para a reforma de creches que necessitam de melhoramentos, para a contratação de novos profissionais. E a saúde na mesma via. A gente tem hoje uma UPA privatizada que é a da CIC. A gente sabe, tem pesquisas que os moradores locais se identificaram melhor porque o atendimento melhorou. Só que a gente precisa entender que a prefeitura não pode se banalizar das suas obrigações. E garantir saúde e educação no nível municipal é obrigação da prefeitura e não de instituições privadas. Nós podemos, sim, garantir parcerias com o setor privado, mas a prefeitura não pode, simplesmente, jogar a responsabilidade no setor privado e acha que eles vão desenvolver um plano que o prefeito prometeu na sua última eleição. Além disso, nós temos também obras que estão há anos acontecendo e a gente precisa entender como a prefeitura pode fazer de fato com que essas obras saiam do papel ou sejam concluídas o mais rápido possível.

BP – Qual a sua opinião sobre o subsídio da prefeitura às empresas de ônibus, a título de compensar a perda de passageiros por causa da pandemia?
Camila Lanes – Acho que esse argumento que a prefeitura dá é muito ruim, porque nos últimos dez anos o número de usuários vem caindo cada vez mais. Hoje nós temos 300 mil usuários, no começo da década era quase 1 milhão. A prefeitura, ao invés de utilizar esses R$ 200 milhões para, por exemplo, comprar passagens para aquele curitibano em vulnerabilidade social que não tem condições de pagar R$ 4,50 para pegar um ônibus, a tarifa mais cara do País, decidiu doar esse dinheiro para as empresas privadas. Existe um debate sobre o contrato de concessão das empresas. Da extinção da tarifa técnica que faz de Curitiba a cidade que cobra mais caro, nem o metrô de São Paulo é tão caro. A gente quer garantir o passe livre para os estudantes, desburocratizando e ampliando. Queremos implementar um novo modelo de estações, porque o atual modelo do tubo é muito caro, custa R$ 2 milhões para ser feito e instalado, ele também não serve mais como modelo porque foi feito para o embarque rápido e não para você ficar 20, 25 minutos esperando o ônibus passar. Reimplementar uma tarifa domingueira. A gente quer ver porque isso foi retirado. E garantir os horários programados dos ônibus.

BP – Causou muita polêmica o voto da bancada do PCdo B na Câmara que garantiu a anistia de dívidas das igrejas. O que tem dizer sobre isso?
Camila Lanes – Esse projeto não é de hoje. Nós somos um partido que tem em especial no seu histórico a defesa da liberdade religiosa. E nós entendemos que essa votação não atinge apenas as maiores igrejas. Atinge a todas as matrizes de instituições religiosas. Eu confesso que o impacto dessa notícia foi muito maior do que esperávamos. Mas eu tenho certeza que a decisão tomada no Congresso não foi tomada por impulso. Eu conheço muito bem o partido, pude acompanhar o Comitê Central. E sei que cada decisão é estudada e debatida. Eu, inclusive, coloquei total apoio da decisão. Acredito que em alguns meses vamos saber o real impacto dessa decisão.


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