'A velhice é uma doença' | Fábio Campana

‘A velhice é uma doença’

Ao invés de sabermos envelhecer, temos é que saber rejuvenescer

Nizan Guanaes, na Folha de S. Paulo

A frase do título, que parece cruel, não é minha. Eu a ouvi de renomados cientistas que palestravam na Universidade Stanford, na Califórnia. Eles dizem que a velhice não é um estado inquestionável ao qual devemos nos resignar. E que, ao invés de sabermos envelhecer, temos é que saber rejuvenescer.

Da mesma maneira com que se abria o peito para mexer no coração infartado numa operação perigosíssima e hoje se põem stents na maior simplicidade, em pouco tempo novos órgãos em 3D e intervenções genéticas reverterão o que antes era doença incurável.

A ciência vai cada vez mais reverter, deter ou retardar muita coisa que seria o fim. Viveremos muito mais e melhor. Dizem que nossos netos passarão dos 120. Na Idade Média, a idade média era menos de 30. “Balzaquiana”, termo machista e anacrônico, servia em décadas passadas para designar uma “senhora” de 30 anos!

Aquela história de que é preciso saber envelhecer já era. Temos que saber rejuvenescer —com menos medicina e mais prevenção, menos resignação e mais determinação. Sim, Abilio Diniz tem razão.

A melhor medicina hoje é a informação. Já existem curas novas na medicina do futuro e também na medicina do passado, como na ciência da velha Índia —a limpeza obsessiva do intestino que a medicina védica prega há milênios. Ou no antigo ditado romano “mente sã, corpo são”.

Claro que os benefícios não chegarão imediatamente à maioria das pessoas. Mas vive-se mais no século 21 graças a vacinações em massa, e Stanford diz que haverá vacinas para a velhice. E que, assim como é uma decisão morrer de fumar, de beber, de droga ou de manteiga, envelhecer será uma decisão por causa de avanços como os da nanomedicina, que com suas nanomáquinas, destrói a célula cancerígena; da Crispr, que é capaz de editar o código genético; do big data, aplicado à sequência genética e à imagem molecular; da inteligência artificial, diagnosticando câncer de mama com maior assertividade que a medicina comum.

E há ainda a competição geocientífica que acelera descobertas. O Ocidente, com suas universidades, startups e hospitais maravilhosos. A China, construindo uma cidade do tamanho de San Francisco só para a medicina, a China Medical City, que, quando pronta, será um centro hospitalar, científico, de congressos.

Mas não é só o avanço da ciência, é também o avanço da consciência. Hoje temos mais consciência da importância de dormir mais e melhor, da boa alimentação, do perigo devastador dos benzodiazepínicos para dormir (pior que droga). Fumar virou uma aberração. Esporte virou uma mania.

Tudo isso é uma bênção e também um problema. Como hospedar ainda mais gente numa Terra exaurida? Onde, como, com que dinheiro?

Definitivamente, não é “business as usual”. Por isso este artigo num caderno de economia. Estamos no meio de uma revolução sem precedentes e sem fronteiras.

A frase maravilhosa e terrível de Stanford (“envelhecer é uma doença”) deve ser entendida com olhos do futuro e ouvidos de ciência.

A medicina é o novo ouro. Hospitais cuidavam da doença e agora cuidarão cada vez mais da saúde, da prevenção e do rejuvenescimento.

Envelhecer não é uma arte, rejuvenescer é que é.Eu tirei álcool, tabaco, refrigerante e benzodiazepina da minha vida e agora luto para tirar glúten, lactose e um monte de lixo que julgávamos luxo.

A piada que ouço é: e restou o quê? Restou tempo, e um monte de maneiras novas de comer as mesmas coisas de outro jeito —com o tempero do futuro.


Nizan Guanaes
Empreendedor, fundador do Grupo ABC.


2 comentários

  1. Carlos Roberto de Oliveira
    terça-feira, 10 de setembro de 2019 – 10:35 hs

    Toda sugestão para uma vida melhor é elogiável. E vida melhor significa, creio, intemporabilidade. Cicero, filosofo romano, isto antes de Cristo, já deu sua contribuição quanto a se viver bem, independente da idade, pois todas as idades tem suas razões de ser. O importante é, realmente, SABER ENVELHECER. Simples assim.

  2. antonio carlos
    quinta-feira, 12 de setembro de 2019 – 16:27 hs

    kkk tem gente que quer viver eternamente, morre de medo de envelhecer. Hoje estou no time da dita Terceira Idade, como se isto facilitasse alguma coisa. Não pedi para ser classificado como “velho”, não sou velho e recuso-me a agir como velho, como um “pedinte” de favores, sou o mais independente possível mas hoje coisas que fazia em passado recente já não faço mais, o risco não vale a pena. Envelhecer é por em prática o que se aprendeu na vida e viver com isto

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