Dalton Trevisan, o imortal | Fábio Campana

Dalton Trevisan, o imortal


Hoje é aniversário do Dalton Trevisan. O Vampiro de Curitiba completa 94 anos e prova que é o nosso único verdadeiro imortal. Fora da Academia. Publico três textos do Dalton em que ele exercita uma de suas melhores qualidades. A do escárnio. O primeiro é um deboche em que o Vampiro trata de si mesmo com os argumentos pífios usados pelos desafetos. O segundo trata de senhora airosa que se jacta de conhecimento do Vampiro em priscas eras. E o terceiro. Curto, conciso, definitivo, é dedicado a um escriba medíocre da província, também conhecido como pequeno canalha e outras qualificações impublicáveis por chulas. Leiam, São impagáveis. A ilustração é do Poty.

Ei, VAMPIRO, QUAL É A TUA?
Buscando se livrar da pecha de repetitivo, o contista agregou ao seu conhecido circo de horrores uma nova galeria de monstros morais. Perdido entre a tautologia e a plenitude, se pendura sobre o oco do próprio coração.

Eis o desfile grotesco dos filhos da noite desse vampiro de almas e lobisomem de espíritos: fornicários, sodomitas, pedófilos, sadistas, maníacos, ufa! Que mundo cão.

Invertendo o axioma de que é com bons sentimentos que se faz má literatura, ele escreve direito, mas pensa errado. Ora, não bastam maus pensamentos para cometer boas letras.
Tudo bem que a escritor nada do que é humano lhe seja estranho. Certo que lhe cabe propor algumas perguntas e cultivar dúvidas em vez de aplaudir falsas verdades. Daí pretender que você eu, hipócritas leitores, somos o quê? Sepulcros caiados de vermelhidão?
Quão o seu propósito de narrar tais e tantas abominações? Se nada é simplesmente preto ou branco, para o nosso autor só existe o cinza? E onde ficam todas as cores do arco-íris?
O simples inventário das loucuras, delícias, aflições e misérias humanas, essa a boa obra de quem, ao expô-las e assim abjurá-las, exerce a sua função de moralista relutante, lançando subreptício, aqui e ali, uma pequena semente de inquietação ou remição?

Lembra antes um cronista mudo, surdo e cego. Mudo aos encantos do mundo e da vida nossa de cada dia. Surdo ao canto dos passarinhos e ao vozeio inocente das criancinhas. Cego aos ipês floridos da Praça Tiradentes e a essa graciosa cidade que é, sim, um Jardim do Éden à beira do Rio Belém plantado.
A nós outros o escriba sugere um amador de opereta bufa pornô. Os seus personagens são primos tortos da barata de Kafka e do rinoceronte de Ionesco. Ou gêmeos xifópagos espirituais dos três irmãos Karamázovi.

Inútil acenar com a lição do apóstolo: se fez de maldito para os malditos, a fim de ganhar malditos? Fez-se de criança, virgem louca, travesti, velhinho aceso de luxúria senil para, com seus lírios negros do mal, chegar a redimir alguns?
Uma flecha envenenada, eis a palavra do contista. Não foi, como tanto ambiciona, o olho cego nem os pés do coxo.
O coração vicioso da garota anuncia fatal! a perfídia da mulher. Capitu traiu, tudo será permitido – nada mais é sagrado?
Não nos convence. Decerto esse não é o bom combate. Ao contrário, o autor perdeu a batalha, nem sequer travada. Acabou a carreira.
Ora, direis: um mestre do passado. Do passado, sim. Mestre, nunquinha. Ai dele, sem presente. E o futuro? Só cinzas.
E só. E mais nada.

CARA SENHORA
Se bem me lembro, encontrei-a num evento social – quarenta ou cinquenta anos atrás? Decerto a sua vida terá sido muito interessante; devo confessar, para vergonha minha, que dela nada sei. Não fui seu aluno, não conheço nenhum seu ex-aluno. Logo, não é ridícula e absurda a sua presunção de encarnar a minha pobre Capitu?
Ela é minha, eu a fiz pra mim. Filha pródiga dos devaneios do caçador solitário. Numa noite negra de insônia o relampo fulgurante da epifania.

Aqui aproveito para avisar o passista de miudinho nos bailões da terceira idade que não é ele o herói de “Sapato branco bico fino”. Nenhuma avozinha, dada a aventuras galantes, se julgue retratada em “O Quadrinho”. O travesti de programa desista de assumir que é “Lulu, a louca”. Tampouco ousem as virgens loucas gorjear os meus “Cantares de Sulamita”.
Assim lhe peço, cara Senhora, que se retire da pele de minha personagem. Desencarne, por favor, essa criatura que é antes uma nuvem de boquinha vermelha e liga roxa.
Posto que ela não é a Senhora, resta uma só certeza: Gustavo era Ema e Capitu sou eu.

HIENA PAPUDA
Hiena papuda necrófila
traveca de araponga louca da meia-noite

mente na vírgula mente no pingo do i
mente no bico fechado mente na carta aberta
chorrilho merdoso de intrigas e falsidades

caráter sem jaça de escorpião
filho adotivo espiritual de Caim

delator premiado informa dedura
a desonra, ó cagueta, é o teu butim
fora, traidor do amigo! rua, olheiro maldito!

no teu coração pesteado
rondam os lobos da inveja
na tua alma leprosa
uivam os chacais da infâmia

Judas que se vendeu por trinta lentilhas
uma corda uma figueira seca

se não for à figueira seca
a figueira e laço da corda
fatal irão logo logo até você


2 comentários

  1. André Albuquerque
    sexta-feira, 14 de junho de 2019 – 22:13 hs

    Nossos maiores e nonagenários contistas: Trevisan e Rubem Fonseca

  2. Luigi
    quarta-feira, 7 de agosto de 2019 – 18:05 hs

    Sim, Dalton conquistou seu espaço e é considerado um dos maiores escritores do país.
    A “hiena papuda” também. E meu comentário aqui nem é pra ficar comparando os dois, porque fazem literaturas bem diferentes uma da outra.
    Acho só meio imbeciloide ficar comprando uma briga e repetindo as mesmas palavras muitos anos depois do problema, colocando uma pessoa ao céu e a outra ao inferno, vendendo uma leitura das coisas para São Paulo e Rio (que a compram), uma leitura de panelinha que nada tem a acrescentar à literatura.
    Abraço!

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