Sob tensão e mistério, Guaidó arrisca retorno à Venezuela | Fábio Campana

Sob tensão e mistério, Guaidó arrisca retorno à Venezuela

do UOL

Há 11 dias fora da Venezuela e sob o risco de ser preso pelo governo chavista de Nicolás Maduro, o autoproclamado presidente interino do país, Juan Guaidó, pretende retornar hoje a Caracas — mas não informa como, nem a partir de onde. Seu retorno deve desencadear uma crise de proporções desconhecidas e abre uma série de incertezas.

– Se voltar à Venezuela, como promete, Guaidó pode ser preso pelo governo Maduro — que o acusa de tentar um golpe, com apoio dos EUA.

– Prender Guaidó despertará fúria internacional contra Maduro. Nos últimos dias, Guaidó passou por Brasil, Paraguai, Argentina e Equador e recebeu apoio dos respectivos presidentes. Trump, presidente dos EUA, já disse que “está do lado de Guaidó”.

– Mas uma ação dos EUA pode ser o gatilho de uma reação russa, que apoia Maduro, e de Cuba. A China, outro parceiro histórico do Chavismo, tem se mantido quieta.

– Se não for preso, porém, Guaidó vai impor a Maduro uma demonstração de força — e Maduro, de certo modo, vai expor seu isolamento.

Ministério: Onde está Guaidó?
Desde a tarde de ontem, quando Guaidó anunciou pelo Twitter que estava deixando uma base militar no Equador, seu paradeiro não é informado publicamente. Antes, ele passou por Bogotá, Brasília, Assunção, Buenos Aires e Quito. “Se eu fosse o Guaidó, não diria como estou voltando a Venezuela”, disse ao UOL um funcionário do autoproclamado governo Guaidó no Brasil.

Mesmo assim, ele e seus aliados convocaram manifestações em várias cidades do país para as 11h de hoje, no horário local (meio-dia no horário de Brasília).

As possibilidades ventiladas nos últimos dias para o retorno de Guaidó a Caracas vão desde sua chegada por avião a partir de Bogotá ou da Cidade do Panamá, até sua entrada por terra pela fronteira com a Colômbia ou com o Brasil.

Em janeiro, depois de o opositor se declarar presidente interino, a Justiça venezuelana proibiu Guaidó de deixar o país, além de bloquear seus bens e contas bancárias. Mas ele cruzou a fronteira da Colômbia, por meio de uma trilha, no fim de fevereiro, com a esperança (que se mostrou frustrada) de retornar ao país levando ajuda humanitária.

Na noite passada, em uma transmissão ao vivo feita em local não revelado, Guaidó afirmou que sua eventual prisão seria “um dos últimos erros” de Maduro e tratou a possível detenção como sequestro

O líder opositor também buscou retratar o governo chavista como fraco e ilegítimo. E se refere ao seu mandato como “constitucional” e respaldado pela comunidade internacional. Guaidó chegou a afirmar que “a transição é um fato” e promete convocar eleições em breve.

Xadrez Político
Apesar da confiança, não está claro qual será o próximo passo da oposição venezuelana após os protestos de amanhã, ou se Guaidó for preso — o que já aconteceu com pelo menos 600 opositores de Maduro. Em qualquer caso, o desafio será manter a mobilização em seu apoio dentro e fora do país, que esfriou depois do fracasso de pressionar Maduro com a tentativa de levar ajuda humanitária à Venezuela.

Pelo lado chavista, as próximas jogadas deste xadrez também não estão evidentes. Guaidó já teve sua presidência interina reconhecida por mais de 50 países, entre eles o Brasil, e sua prisão poderia intensificar a pressão externa pela queda de Maduro. Os EUA já bloquearam os ativos em solo americano da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana.

Maduro foi reeleito em uma disputa questionada pela comunidade internacional e pela oposição, mas tem conseguido se manter no poder com o respaldo de parte da população e das Forças Armadas — apesar de a Venezuela sofrer há anos com uma inflação galopante e falta de abastecimento de comida e medicamentos.

O chavista também conta com o apoio de potências como China e Rússia, cujo governo tem dado demonstrações públicas de incômodo com o que julga como uma ingerência americana na Venezuela.

Guaidó é presidente do Parlamento venezuelano e se declarou presidente em janeiro com base em uma interpretação da Constituição local. A legislação diz que, na falta do presidente, assume o chefe do legislativo. Mas Maduro insiste
que o presidente é ele.


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