Descaso mata. Mas não morre nunca | Fábio Campana

Descaso mata. Mas não morre nunca

artigo de Marli Gonçalves

O celeiro de jovens atletas, em contêineres, bem ao lado de cilindros de oxigênio, inflamáveis, explosivos, e onde nos papéis oficiais deveria ser só um estacionamento. O restaurante e os prédios administrativos bem abaixo no caminho da barragem que se rompeu, sem as sirenes que apenas agora soam descontrolados aos ouvidos de outras cidades, de outras barragens. As árvores, as pedras, que caem e que rolam, nem elas se aguentam de ver aos seus pés sempre tanta sujeira, tantas construções irregulares. Pessoas arrancadas de suas vidas em átimos, segundos, o tempo que piscamos.

Nós piscamos. Eles, os que se foram, fecham os olhos. Para sempre. Outros, os que fecharam os olhos durante muito tempo para esses erros bárbaros, para essas tragédias mais do que anunciadas, previstas, cantadas, soletradas, continuam. Sacando de seus bolsos, sabe-se lá se deixando cair algum dinheiro ganho enquanto dormitavam, lenços, onde choram compungidos. Consolam as vítimas, os sobreviventes, seus familiares, tentam explicar o inexplicável, abrem suas rigorosas investigações lentas, decretam luto oficial, bandeiras a meio mastro.

Foi assim em Mariana, foi assim em Santa Maria. Será assim, talvez, em Brumadinho, nas cidades vizinhas alarmadas agora a todo instante. Poderá ser assim em mais pontes e viadutos que se dissolvem, assim como o asfalto vagabundo com o qual seguidamente recapeiam ruas e estradas, crateras abertas, feridas em chagas que não se curam, bueiros e bocas abertas esperando as suas próximas vítimas.

O descaso com que tratam as cidades, os espaços onde vivemos, os espaços públicos e privados, as ruas por onde passamos, as estradas por onde andamos, é aterrador. São os fios pendurados que eletrocutam, deixados ali por uma empresa, pela outra que mexeu, por mais uma que precisou desligar ou ligar. São as responsabilidades jogadas de ombro a ombro, de mão em mão, de governo a governo, de uma esfera a outra.

Promessas ouvimos. Mas quem tem de fazê-las, definitivamente, somos nós. Aos deuses, para que nos protejam dos perigos que o descaso de anos nos têm sido seguidamente mostrados, e anos após anos. Câmaras municipais dormentes dão nomes dos mortos às ruas e avenidas que os mataram – afinal precisam ser homenageados, como dizem, para não serem jamais esquecidos. Aqui e ali fazem leis que nem eles cumprem; outras, apenas ridículas. Em qual vereador você votou nas últimas eleições municipais, lembra?

Assembleias legislativas? Ora, faça-me o favor. Olha a do Rio de Janeiro, quase toda atrás das grades, por desvios, corrupção, fantasmas bem vivos, laranjas espremidos, “rachadinhas” de salários. A de São Paulo aguarda investigações; claro, se acharem alguém lá dentro daqueles corredores vazios e inúteis para perguntar qualquer coisa. Eles, os deputados, certamente dirão que estão nas suas “bases”, lutando por suas regiões, pelas cidades que representam no Estado. Em qual deputado estadual votou na última eleição há poucos meses, lembra?

Aí ficamos nós, daqui de nossas vidas, chorando, varrendo a água para fora de nossas casas, recolhendo escombros e até culpando Deus por tantas desgraças, assistindo ao show diário de insanidade e briga pelo poder no Congresso Nacional, Câmara e Senado Federal. Lá longe. Lá no bonito Planalto Central.

Volte para cá. Volte seus pensamentos de novo ao seu ao redor. É nele que precisamos ficar atentos, fiscalizar, denunciar, fotografar, registrar todos os pedidos que fazemos quando ( e se é que ) conseguimos ser atendidos por algum canal oficial, e que são solenemente ignorados, até que um dia…a casa cai, a árvore se mata e mata, o buraco engole, o prédio pega fogo, a ponte cai, o rio transborda, o fio eletrocuta, a pedra rola do morro, a barragem rompe…

Ah, não esqueça de pagar o IPTU. Ele está vencendo esses dias. E o dinheiro que ele arrecada – pode ler no “carnê” – deveria servir para que não amargássemos tantas tragédias nas nossas portas. Há também muitos outros, além dos embutidos como linguiças em tudo o que compramos. Cadê o dinheiro que tava aqui? O gato comeu, o urubu pôs fogo, a lama levou.


3 comentários

  1. antonio carlos
    sábado, 9 de fevereiro de 2019 – 11:15 hs

    Pindorama é o país onde preferimos por tranca na porta depois que ela foi arrombada e, tal estado de coisas nunca vai mudar. Agora vamos tratar de achar os culpados, porque é preciso crucificar alguém, numa terra famosa pela impunidade

  2. Luciano Ayres
    sábado, 9 de fevereiro de 2019 – 16:21 hs

    Infelizmente, o descaso e a falta de responsabilidade matam, mas são considerados como acidentes e não como assassinato em massa como em Mariana, em Brumadinho é no crime do urubu.

  3. Veredicto
    sábado, 9 de fevereiro de 2019 – 17:47 hs

    Quando comecei a ler este artigo da Marli Gonçalves pensei estar lendo numa análise séria sobre o que ocorreu no alojamento dos garotos da base do Flamengo,mas de repente me vi diante de uma obra poética cheia de retóricas que na busca de atacar todo os problemas nacionais, aproveitando a deixa da tragédia do Flamengo, caiu no lugar comum e se perdeu com palavras rebuscadas cheias de emoção. Ao longo de 41 anos de jornalista profissional (ainda na ativa), afirmo que a imprensa tem a obrigação de cobrar das autoridades, em especial do Ministério público em conjunto com o Governo federal através dol Ministério do Esporte, a identificação dos responsáveis pela tragédia do Ninho do Urubu.Se não tinham autorização e nem alvará de funcionamento onde estava a Secretaria de Urbanismo do Rio de Janeiro que a tudo assistiu de braços cruzados? Alguém nesta secretaria deu autorização para um estacionamento virar dormitório de menores, ou se não autorizou por que deixou funcionar? Seria o tal de $ que entrou em ação?Se nas próximas 48 horas o Brasil não conhecer nenhuma providência rigorosa, esqueçam, pois a estas alturas os meninos estarão sepultados, seus pais receberão um cala boca e tudo ficará como se nada tivesse acontecido,. Imaginem o que faria as autoridades se este fato tivesse ocorrido num clube de menor expressão. Teríamos os famigerados membros dos Direitos Humanos pedindo “justiça” . Por que não aparecem agora?Está aí uma oportunidade de saírem na mídia que é o que eles querem. Ou será que estão calados por se tratar do Flamengo?

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