Ameaças à democracia | Fábio Campana

Ameaças à democracia

Editorial, Estadão

O mais recente relatório da instituição americana Freedom House sobre o estado da democracia no mundo coloca o Brasil entre os dez países em que houve “importantes acontecimentos em 2018 que afetaram sua trajetória democrática”, demandando, assim, “um especial escrutínio” em 2019. “O candidato de direita Jair Bolsonaro capturou a Presidência com uma retórica baseada no desdém pelos princípios democráticos”, diz o texto, para justificar a atenção especial dada ao Brasil.

No estudo, intitulado Liberdade no Mundo – 2019, que classifica os países como “livres”, “parcialmente livres” e “não livres”, o Brasil aparece no grupo dos “livres”, mas com degradação dos direitos civis e políticos. O relatório comenta que a campanha eleitoral brasileira foi tomada de “desinformação e violência política” e que a retórica de Bolsonaro se assentou em “promessas agressivas de acabar com a corrupção e a criminalidade, o que teve ressonância em um eleitorado profundamente desalentado”.

O triunfo de Bolsonaro, segundo a Freedom House, enquadra-se num movimento de caráter global. “As vitórias eleitorais de movimentos antiliberais na Europa e nos Estados Unidos em anos recentes deram impulso a grupos semelhantes ao redor do mundo, como se observou na recente eleição de Jair Bolsonaro.” Essa onda está no centro das preocupações relatadas pela Freedom House, pois “esses movimentos danificam as democracias por dentro, por meio de sua atitude de menosprezo pelos direitos políticos e civis, e enfraquecem a causa da democracia ao redor do mundo”.

Assim, o estudo, ao salientar que 2018 foi o 13.º ano seguido de degradação das condições democráticas no mundo, nota que está em curso um “alarmante” declínio dessas condições, especialmente em razão da ascensão da direita populista. O símbolo dessa tendência no ano passado, diz o relatório, foi o governo do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, que “provocou a mais acentuada queda já experimentada por um país da União Europeia” no índice da Freedom House. A Hungria passou de país “livre” a país “parcialmente livre”. Orban foi um dos poucos chefes de Estado presentes à posse de Bolsonaro e recebe do presidente brasileiro especial deferência.

Como estratégia comum, diz o relatório, os expoentes desse movimento antiliberal atacam a imprensa e fomentam a polarização, mobilizando seus seguidores nas redes sociais contra o que chamam de “fake news”, isto é, qualquer notícia que os desabone.

A Freedom House adverte que o autoritarismo aparenta ter se tornado um empreendimento transnacional. A Rússia e o Irã são citados como exemplos de regimes que exercem seu poder contra dissidentes mesmo fora de suas fronteiras, promovendo inclusive sequestros e assassinatos.

Mas o relatório nota também que mesmo democracias sólidas vêm sofrendo degradação de suas instituições. “Uma crise de confiança nessas sociedades se intensificou, com muitos cidadãos expressando dúvidas sobre se a democracia ainda serve a seus interesses”, afirma o estudo.

A Freedom House explica que essa mudança foi causada por uma “nova fase da globalização”, que, ao mesmo tempo que “liberou uma enorme quantidade de riqueza ao redor do mundo”, acentuou a desigualdade em escala global. Assim, “trabalhadores pouco qualificados em democracias industrializadas ganharam relativamente muito pouco com essa expansão da riqueza, ao mesmo tempo que empregos antes bem remunerados foram perdidos graças a uma combinação de competição estrangeira e mudanças tecnológicas”.

Diante desse cenário, abriu-se o caminho para os extremistas, pois “o centro político foi incapaz de dar soluções para a disrupção que esse processo causou”. O discurso que vem cativando o eleitor frustrado é o que atribuiu às elites e à sua “velha política” – leia-se, a democracia representativa liberal – a “erosão do padrão de vida dos cidadãos e das tradições nacionais”.

Como disse o presidente da Freedom House, Michael Abramowitz, “raramente a necessidade de defender as regras da democracia foi tão urgente”.


11 comentários

  1. Eduardo Lucena
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 13:11 hs

    Não sei do que você entende mas não é de Brasil, de viver no Brasil, de criar filhos e manter família aqui. Nos últimos 30 anos este país se viu cercado de partidos e pensamentos de esquerda que se alternaram no poder e nos arrastaram para a lama literalmente. Roubaram o equivalente a alguns PIB neste período. Financiamos vários países enquanto nossos pobres morriam de fome e o governo mentia para o mundo falando que acabou com a pobreza. Agora esta aí a direita que colocamos conscientemente e acreditamos pelo que vemos que vai dar certo e isso é que está incomodando tanto os ladrões da esquerda.
    Querem fazer daqui outra VENEZUELA. A democrática Venezuela. Vocês são imundos e ficarão na história como Stalin, Mao, Fidel e tantos outros facínoras.

  2. Gladiador
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 13:40 hs

    Muito bla,bla,bla…comecem pelo Trump. Inspirou meio mundo e vai criar o colapso da esquerda em todo o planeta. Sabe porque? Porque a esquerda nao tem receita.

  3. Do Interior...
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 13:41 hs

    Bom mesmo é a democracia da Venezuela e Cuba, que se assemelha à do PT.

    Não queremos socialismo. Não queremos comunismo. Não queremos leis que beneficiem grupos sociais e que distorcem a família. Não queremos o aborto.

    Isso é o que venceu, democraticamente no voto. Se isso não é liberdade, então me diga o que é. Prefiro a ditadura do Brasil passado do que a “democracia” de hoje, principalmente da Venezuela.

  4. milton
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 13:56 hs

    Chora mais, tá lindo de ver!

  5. Mestre Yoda
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 14:20 hs

    KKK na visão de mais uma instituição estrangeira sobre o Brasil, para não colocarmos as liberdades democráticas em perigo deveríamos que continuar na senda do lulo-petismo, o socialismo do século XXI, atualmente em uso na Venezuela. Como estas instituições conhecem a realidade brasileira através de publicações e do testemunho de pessoas “insuspeitas”, tudo é verdade, corremo sérios riscos de virarmos uma ditadura. Um horror.

  6. Roberto Eduardo
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 15:21 hs

    QUANTA BOBAGEM! QUANDO INFANTILOIDES NADA TEM A FAZER DE ÚTIL, INVENTAM ESTES TIPOS DE “PESQUISAS” PARA TEREM O QUE FALAR! LAMENTÁVEL…….

  7. LIDI
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 16:09 hs

    O que está acontecendo com a grande mídia brasileira não tem explicação. Há pouco tempo eu tinha o Editorial do Estadão como o último reduto da sensatez. No entanto ao dar espaço para textos tais como a exdrúxula análise extraida de relatórios do tal Instituto Freedom House me faz sentir “desalentado” , para usar o termo incluso na própria matéria em comento.

  8. Rr
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 16:15 hs

    Grande mer…a essa tal demoniocracia,isso ai é pretesto pra roubar,nunca se roubou tanto nesse país,desde a tal redemocratização,foi só os “milicos” deixarem o governo,aliás para as pessôas honestas e trabalhadoras,o melhor governo que já tivemos,e começaram a assaltar o país.

  9. EU
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 16:31 hs

    Muito interessante.
    Quando a PTzada insistia em acabar com a liberdade de imprensa através de uma proposta que felizmente não passou, o Brasil vivia uma “plena” democracia aos olhos da grande mídia que recebia polpudas verbas de comunicação.
    Bastou o atual governo fechar as torneiras do dinheiro público que jorrava em direção aos grandes grupos da mídia que… oh céus… a democracia está ameaçada!
    Me parece que o que está ameaçada é a folha de pagamento do Estadão e de outros grupos de comunicação.
    De resto, as instituições que alicerçam a democracia (judiciário, congresso e executivo) continuam funcionado, apesar dos seus pesares.
    E que saibamos, nenhum jornalista ou repórter foi preso e torturado.
    Alguns foram demitidos, isto a gente sabe.

  10. PitBull
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 19:10 hs

    Democrático era o governo de LULARÁPIO e da presidANTA, com apoio total a Cuba, Venezuela, Irã, Nicarágua, Bolivia…etc…
    Tinha que ser o Estadão pra divulgar essa pataquada…

  11. Petrus
    terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 – 20:37 hs

    Comedores de merda metidos a fiscais do mundo!! Quem deu voto a esses comedores de merda?

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