O isolamento político de Bolsonaro | Fábio Campana

O isolamento político de Bolsonaro

Helena Chagas,
Há duas versões correntes para explicar a alta densidade de militares por metro quadrado do governo Bolsonaro, acentuada nesta terceira semana com a nomeação de mais militares para cargos de segundo e terceiro escalões e direção em estatais. Só nos últimos dias, foi indicado porta-voz o general Rego Barros, enquanto o ex-comandante da Marinha, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, foi designado para presidir o conselho de administração da Petrobras e o general Franklimberg Freitas retornou ao comando da Funai. Sem contar os sete ministros situados no coração do governo.

Uma dessas versões, a paranóica, dá conta de que o presidente estaria, com essa composição verde-oliva da administração, mandando recado às instituições e políticos que porventura vierem a querer apeá-lo do poder com um impeachment ou algo assemelhado antes do fim do mandato. Uma espécie de “não vem que não tem” baseado num suposto – e duvidoso – apoio incondicional das Forças Armadas em qualquer circunstância. Explicação meio duvidosa.

A outra versão, mais amena, tem base na obviedade: o capitão Bolsonaro chamou para governar com ele as pessoas em quem mais confia (inclusive as chaves do cofres) e que mais admira, e não é surpresa serem militares. Em sua maioria, são quadros bem preparados, quase todos na reserva, com incontestável afinidade ideológica com o chefe. Natural, portanto.

Nem tanto. Ainda que ambas as explicações sejam possíveis, e de modo algum excludentes, fica faltando uma peça no quebra-cabeças para justificar a opção preferencial pelos militares. Até porque Bolsonaro deixou a caserna há tempos, foi deputado por quase 28 anos e venceu uma eleição direta na condição civil. Teve tempo suficiente para procurar outra turma.

Aí é que está. Se procurou, não achou. Em seus anos civis, Bolsonaro perambulou por diversos partidos, não se integrou a qualquer projeto de poder, dedicou seus mandatos a defender interesses corporativos militares e ideias de direita radical, que o deixaram isolado no Parlamento. Vários ex-colegas de Câmara relatam mal ter trocado palavras com ele ao longo dos anos, recordando-se de um personagem sentado na parte de trás do plenário, o chamado “Vale dos Caídos”.

Chegou ao poder com 58 milhões de votos, mas sem projeto político, partido consistente ou liderança organizada, guindado pelo discurso de ser contra “tudo o que está aí”. Nunca foi líder de bancada nem presidente de comissão ou relator de projetos importantes. Excetuando-se o armamento da população e uns poucos itens já revelados, não se sabe exatamente do que ele é a favor.

No poder, frequenta solenidades militares, onde parece se sentir à vontade. Mas tem poucos compromissos e conversas políticas, como se ignorasse que é possível, sim, fazer política e negociar apoios sem cair no lodaçal do toma-lá-dá-cá mais rasteiro.

Do Vale dos Caídos ao Planalto, Bolsonaro continua em isolamento político, e isso explica a alta densidade de militares por metro quadrado de seu governo. Dificilmente, porém, vai conseguir governar assim.

(Foto: Pedro Ladeira/Folhapress/Reprodução)


6 comentários

  1. juarez
    quinta-feira, 17 de janeiro de 2019 – 14:57 hs

    Engana-se quem não quer ver que o grande projeto político do presidente é “desfazer tudo o que está aí”, e por uma única razão: nada presta! O País está falido. Ademais, quem acredita que “é possível fazer política sem cair no lodaçal”, não conhece mesmo a “classe política brasileira”.

  2. Rr
    quinta-feira, 17 de janeiro de 2019 – 15:46 hs

    Pra que se preocupar,é só fechar o congresso e convocar as FFAA.

  3. quinta-feira, 17 de janeiro de 2019 – 15:48 hs

    Pois é Dn. Helena Chagas, mas o dinheiro acabou e vai ter que ser meio na marra !

  4. QUESTIONADOR
    sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 – 12:29 hs

    -A verdade é que desde a República de 1985, o Brasil foi mal administrado, mal gerenciado, nunca teve projetos de longo prazo. Todos os governos preocuparam-se apenas consigo mesmos…fez governo apenas para apagar incêndios dos mais variados…a tal “política republicana” nunca existiu de fato…apenas toma lá da cá…jogo de interesses e muita mas muita corrupção!!!
    -Bolsonaro quebrou este paradigma e merece o benefício da dúvida se seu governo será bom ou ruim. Até agora precisa acertar certos detalhes para realmente engrenar neste “mecanismo” que quebrou o País!
    -A roda precisa primeiro parar de girar para inverter seu rumo….

  5. antonio carlos
    sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 – 14:36 hs

    O Bolsonaro tem tudo para fazer um bom governo, só não fará se não quiser. Está cercado de gente preparada e de muita gente açodada, tipo seus filhos. O prazo de 100 está correndo e acredito que é tempo suficiente para a pretendida reforma da Previdência começar a ser discutida. Aí passada esta “trégua” podemos abrir a caixa de ferramentas, ou pegamos as chaves de fenda pequeninas ou partimos de vez para os martelos

  6. antonio muniz
    sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 – 16:16 hs

    O único comentário que se pode comentar é o do “Questionador”!Me manda um convite no facebook!

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