Ideologia | Fábio Campana

Ideologia

Editorial, Estadão

Em seu discurso no plenário do Congresso, Jair Bolsonaro prometeu que “o Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas”. Não foi uma menção aleatória. Presente desde a campanha eleitoral, a tal batalha contra as ideologias agora ocupa parte substancial das preocupações do novo governo. As ideologias tornaram-se o grande inimigo a ser vencido.

Em primeiro lugar, chama a atenção o tratamento impreciso do termo ideologia. O presidente Jair Bolsonaro e seus adeptos usam a palavra ideologia para se referir a todo pensamento alheio que difere do seu. Ideologia seria toda ideia que eles acham equivocada. No parlatório do Palácio do Planalto, Bolsonaro prometeu, por exemplo, “acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais”. Também se referiu ao “grande desafio de enfrentar (…) a ideologização de nossas crianças”. Não se sabe bem a que se referia.

O emprego abusivo do termo ideologia remete à ideia de que o novo governo seria isento ideologicamente. Os adversários é que teriam ideologia, isto é, manifestariam uma visão enviesada e corrompida da realidade. O governo Bolsonaro atuaria noutra dimensão, não ideológica. No entanto, o que se vê no bolsonarismo, a despeito desse discurso de aparente neutralidade, é uma atuação acentuadamente ideológica. É claro que toda ação política está ancorada num determinado conjunto de ideias, valores, opiniões e crenças a respeito do Estado, da sociedade e das pessoas. São justamente essas características que o bolsonarismo evita definir quando se refere às suas qualidades. Mas quando a ideologia é a do adversário, ela é definida como socialismo, esquerdismo, etc., como se essas variedades da política fossem irremediavelmente incompatíveis com o exercício democrático. Esse viés demanda atenção e cuidados, uma vez que ele conduz, por definição, à prática autoritária.

E a tal “ideologia” do bolsonarismo acaba sendo o elemento definidor de tudo o que na administração da coisa pública acaba sendo nocivo. Na escolha de vários ministros, por exemplo, mais do que a experiência ou a capacidade técnica, o que importou foi o compartilhamento de ideias e opiniões – a tal “ideologia”.

Caso esdrúxulo ocorreu na Casa Civil. Sem apresentar nenhuma razão técnica, o ministro Onyx Lorenzoni exonerou todos os 320 funcionários com cargos comissionados de sua pasta. Disse que estava fazendo a “despetização” do governo, admitindo, portanto, que agia com critérios ideológicos. A “despetização” do governo é tão nefasta quanto a “petização”, pois a administração pública não deve se pautar por questões ideológicas, e sim por critérios de ordem técnica e ética.

A ideologia também serviu de critério prioritário em algumas manifestações do novo governo sobre política internacional. Por razões ideológicas, alguns países foram excluídos do convite para a cerimônia de posse do presidente Bolsonaro. Já em outros casos, a ideologia foi motivo de atitudes que claramente contrariam o interesse nacional, como o anúncio de uma possível mudança da embaixada brasileira em Israel.

Essa extremada ideologização do governo Bolsonaro contraria parte significativa das propostas feitas pelo próprio governo na área econômica, jurídica e administrativa. Se o presidente Jair Bolsonaro não atalhar o quanto antes essa atuação baseada em critérios ideológicos, muito rapidamente haverá conflito entre as áreas do governo. Por exemplo, as reformas econômicas demandam critérios técnicos em sua aprovação e implantação. Não há eficiência administrativa que resista à conferência de carteirinha partidária. Ou não se faz a abertura comercial do País se a principal preocupação na área internacional for atender a demandas de ordem religiosa de apoiadores do governo.

O governo Bolsonaro não precisa ter vergonha de ser de direita. Mas deve evitar a todo custo a radicalização. É esse o traço marcante que desvia o conservadorismo – e também o progressismo – para os caminhos tortuosos e sombrios do arbítrio e da supressão das liberdades. Lembre-se o presidente Jair Bolsonaro que, no dia de sua posse, assumiu o compromisso de “construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.


4 comentários

  1. domingo, 6 de janeiro de 2019 – 12:20 hs

    Vou me ater apenas no caso do Comissionados que Onyx Lorenzoni demitiu, se são Comissionados e foram Contratados pelos Governos PeTistas teriam sim que serem DEMITIDOS! Por que a estranheza? Muda-se o Governo e entram os Comissionados alinhados a ele, onde há erro aí! Ratinho tambem está fazendo isso Acertadamente! Fora Comissionados, Sanguessugas do nosso dinheiro!

  2. FUI !!!
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2019 – 7:06 hs

    Demitir todos os comissionados do governo anterior, sendo prin-
    cipalmente petistas está corretíssimo. Faz parte de um novo governo.
    E tem mais, precisa detetizar antes o ambiente que os caras
    ocuparam.

  3. Dosel Jr.
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2019 – 10:16 hs

    Weber e Fui!!!, vocês estão certos. Ninguém neste mundo de Deus pode conviver com alguém que quis destruí-lo só porque é seu adversário. Adversário é para ser vencido. Inimigo é para ser abatido.Bolsonaro venceu um adversário, mas se este adversário se mostrar inimigo e representar perigo, deve ser tirado de circulação; seja levá-lo à cadeia ou abatê-lo simplesmente. Afinal, se ele ( o inimigo) pudesse, faria o mesmo. Assim como não existe meia grávida, meio honesto, não existe meio inimigo. Aos amigos tudo, aos inimigos os favores da Lei. Lembro agora um lance de futebol dentro da área: o atacante vem com a bola dominada, o defensor como um toro aplica uma voadora no adversário mas não o acerta. O árbitro prontamente aplica o cartão vermelho e tira o agressor de campo. O técnico vai até o árbitro e diz:” mas não acertou”!!!. O árbitro responde: se acertasse o outro estava abatido. Deu para entender o exemplo? Nada de colher de chá para inimigo. Se deixar ele se levanta e bate de novo.E ponto final!!!!

  4. segunda-feira, 7 de janeiro de 2019 – 12:54 hs

    Eita dor de cotovelo, hahaha.

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