Ideologia acima de tudo | Fábio Campana

Ideologia acima de tudo

Mary Zaidan

Nada, absolutamente nada, parece seduzir mais o presidente Jair Bolsonaro do que a missão que ele julga divina de derrotar o “viés ideológico”, cuja frequência em seus discursos rivaliza com a de “Deus acima de tudo”. Não perde uma única oportunidade. Foi assim na posse – no Congresso Nacional e no Parlatório -, em Davos. Fala como se o tal viés fosse um cancro da esquerda, quando, na direita que ele representa e que se multiplica no mundo, os tumores ideológicos são tão ou mais graves.

Na Suíça, ao responder a questões do fundador e presidente do Fórum Mundial, Klaus Schwab, Bolsonaro garantiu que vai tirar o “viés ideológico” dos negócios brasileiros. Isso, um dia antes de a Arábia Saudita barrar a importação de frango de cinco frigoríficos nacionais, sem qualquer nota técnica que justificasse a medida. Especialistas em política externa consideram o embargo um aviso prévio à possibilidade – puramente ideológica – de o Brasil transferir sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, como fez Donald Trump, de quem Bolsonaro é fã de carteirinha.

Na mesma sessão de perguntas e respostas, Bolsonaro enfiou um “como era” no final da afirmativa de que o Brasil não quer uma América do Sul bolivariana, como se o país tivesse feito parte dos delírios chavistas. Algo que o PT até poderia sonhar, mas que jamais teve coragem de propor por saber que seria rechaçado de pronto.

A cantilena “libertar o país do socialismo”, dita na posse para agradar fieis xiitas, esbarra no fato de o Brasil jamais ter experimentado tal regime. Na mesma linha, “nossa bandeira jamais será vermelha” nada significa diante da fragilidade do petismo, que só poderia enrubescer o pavilhão nacional pela vergonha. Mas nem disso foi capaz.

Em outras frentes, o governo Bolsonaro luta contra o “marxismo cultural”, que seria responsável por destruir os valores tradicionais que fizeram a grandeza do mundo ocidental. O termo integra um conjunto de crenças que prospera na direita desde os anos 1990 em oposição à sociedade global, humanitária e multicultural. Legítimo, mas ideologia do mesmo jeito, com todos os vieses que qualquer ideologia carrega.

Nas questões comportamentais o tal viés mais parece piada. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, o expressa sem qualquer constrangimento. Ela quer “um Brasil sem aborto”, com soluções para lá de simples – “Gravidez é um problema que dura só nove meses”. Tem certeza de que “ninguém nasce gay” e que o país não será mudado pela politica (nem mesmo por seu patrão), mas pela igreja. Acha que a mulher “nasceu para ser mãe” e que tem de prevalecer a tradição: rosa para meninas, azul para meninos.

Na Educação tudo é ainda mais agudo. A ideologia que veio para derrubar o viés ideológico pode ir muito além da discussão da “escola sem partido”, cujo nome correto seria “escola de outro partido”. Estabelece a discriminação de gênero para derrotar a ideologia de gênero e pode lançar o pais na batalha da alfabetização, área que passou a ser coordenada por Carlos Nadalim, mais um discípulo de Olavo de Carvalho, que, dos Estados Unidos, assiste confortavelmente às guerrilhas que fomenta.

Nadalim, autor do Blog “Como educar seu filho”, um título nada modesto, desdenha dos fatores econômicos, sociais e culturais que dificultam o aprendizado e coloca toda a culpa no método. Por birra ideológica, poderá fazer o país gastar energia e tempo que não tem.

No ensino médio, a credibilidade do Enem está por um fio por mero viés ideológico. No último exame, Bolsonaro criticou uma questão que exemplificava um código de linguagem com um dialeto secreto de gays e travestis. Reagiu, criticou, xingou e disse que no seu governo isso ia acabar. Agora, o presidente do Inep, Marcus Vinicius Rodrigues, não só quer ver previamente as provas, como defende que elas sejam submetidas ao presidente da República. “O dono do Enem termina sendo o nosso presidente, que é o único que teve 60 milhões de votos e é quem pode responder, mudar, realinhar.” Pura cegueira ideológica.

Tudo isso tem um nome: fraude. E, se consumada, será em favor da ideologia de quem diz que quer acabar com o viés ideológico.

Mary Zaidan é jornalista. E-mail: zaidanmary@gmail.com Twitter: @maryzaidan


9 comentários

  1. Joel
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 9:35 hs

    Quem leva a ideologia à cabo são as esquerdas criminosas, o conservadorismo não é uma ideologia, é um comportamento, é ser anticomunista, aonde os militares de 64 falharam, cuja a falha consiste em NÃO terem levado a sério uma propaganda anticomunista que não permitisse nossas redações jornalísticas e nossas universidades terem sido tomadas pelos vermelhos, não teríamos de volta estes vermes nos governando, e aonde nossos generais erraram, Jair Bolsonaro pretende não errar! Os comunos socialistas não suportam a fé cristã, já começa por aí!

  2. Luiz Carlos Giublin Junior
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 10:24 hs

    Incrível. Ela fala em ideologia. Na verdade ela não entendeu nada. O país muda, o mundo muda e a mídia continua cega por suas convicções ideológicas que cheiram a naftalina e foram responsáveis pelos maiores desastres econômicos e sociais do mundo. Defendem uma ideologia que matou dezenas de milhões de pessoas no século passado, que destruiu a economia de países como URSS, Leste Europeu, Cuba e Venezuela. que acabou com a liberdade individual onde quer que se instalou. Que não produziu nada além de ditadura, perseguição e fome.
    Vou dizer a essa “jornalista” o que esta acontecendo no Brasil. O povo, aquele que você acha que representa e manipula, no silêncio e solidão da cabine eleitoral votou contra tudo que você endeusa e acha que todos(obrigatoriamente como todo esquerdista quer) devem entoar loas. Votou contra o aborto, contra a restrição a posse e o porte de armas, contra a nojenta ideologia de gênero, contra o feminismo que não passa de uma ditadura contra o ser humano do sexo masculino e heterossexual, contra a exigência do aceitar o homossexualismo como sendo natural (respeitar a opção é obrigação sempre, aceitar como natural é questão pessoal, pode-se respeitar sem aceitar e isso a esquerda não entende), pelo direito de ter uma religião seguir seus preceitos e ser respeitado, pelo direito de falar qualquer coisa como opinião pessoal e não ser crucificado em nome desse ridículo “politicamente correto”.
    E por fim, o povo deu um mandato para o Presidente fazer exatamente o que está fazendo. É claro que existe ideologia em tudo. Mas vc só aceita a ideologia que vc escolheu para respeitar. Como todo esquerdista não tem, no fundo, nenhum respeito pela democracia, direito a divergir e respeito aos direitos individuais.
    Minha cara o Brasil mudou. Tua ideologia acabou nesse momento. E é claro que o que Bolsonaro está fazendo é ideológico. Só um idiota ia achar que ele ia deixar tudo igual…Como vc gostaria.

  3. Do Mato
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 11:32 hs

    É o que todos fazem usam de ideologia para combater a ideologia alheia. é claro que a moça não entendeu nada, ela discorda de vcs. e para justificar sua ideologia vcs imputam ela como defensora de coisas que ela nem mencionou no artigo tudo para que suas ideologias prevaleçam

  4. BinLaden
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 12:06 hs

    PARABÉNS LUIZ CARLOS GIUBLIN JUNIOR PELA SUA BRILHANTE COLOCAÇÃO….Assino em baixo

  5. Aprigio Fonseca
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 12:36 hs

    Vamos então pedir ao Geublin Jr que nos ensine “viés ideológico” já que a Zaidan é incompetente para dizer sobre isso.

  6. QUESTIONADOR
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 12:42 hs

    -Parabéns ao leitor Luiz Carlos pela clareza de seu texto e explicar para os demais leitores o que se passa atualmente no Brasil…só não entende quem é defenda a ideologia marxista!!!!
    -Os leitores estão atentos…enquanto o Brasil não se livrar das ideologias nocivas à nossa sociedade e ao nosso modo de viver, estaremos fadados à repetir este mesmo erro. É necessário o movimento conservador e liberal tomas todos os meios vermelhos(ensino, comunicação e artes) para que as pessoas possam ter consciência crítica por elas mesmo e não com idéias pré-concebidos em engenharia social ou comportamental. Isto sim é democracia!!!

  7. antonio carlos
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 15:45 hs

    Impressionante como para muita gente ainda a ficha não caiu, nós não queremos mais o que tínhamos até dias atrás, queremos outro País, não necessariamente como o presidente desenhou, mas bem parecido, Não queremos mais questões como estas do Enem, também chamando de Exame Nacional do Ensino Marxista, o Brasil não precisa disto, precisa de gente que saia do ensino médio sabendo ler e escrever direito. E que entre no ensino superior sempre precisar passar por lavagem cerebral .

  8. Ein Sof
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 16:37 hs

    Bozonaro, o Forrest Gumo que virou presidente.
    E com um filho corrupto até não mais poder.

  9. Ein Sof
    segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 – 19:52 hs

    Sugiro aos retardados que acham que, por exemplo, aborto é ‘marxista’ a leitura de Marx.
    Ou outro absurdo, respeito aos gays ser ideologia marxista.
    Só um idiota falaria algo assim.
    Inacreditável quanta burrice falam sobre ele…

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*