Jano e a democracia do Twitter | Fábio Campana

Jano e a democracia do Twitter

Elton Simões,
Jano deve estar confuso. No mínimo. Possivelmente até considerando demissão. Imaginou que seria uma honra emprestar seu nome para o primeiro mês do ano, não protestou. Afinal como deus romano de duas caras, uma olhando para frente e outra para trás, poderia facilmente conectar passado e futuro. É deus das entradas e saídas, ou dos princípios e começos.
Enganou-se. Não era fácil. Jano não havia ainda vivido em 2018. Neste final de ano, passado e futuro seriam tão obscuros que enxerga-los e entende-los são tarefas impossíveis até para deuses. O ano termina com Jano coçando a cabeça para fazer sentido disso tudo.
Sabe que ninguém planejou criar um sistema político que não representa os eleitores. Nem que houve alguma conspiração organização exclusivamente com o fim de destruir instituições e, mais importante, a crença nelas. Conspirações desta monta não são possíveis. Não somos organizados a este ponto. Mas o fato é que aqui chegamos.

Olhando para trás, da para ver o colapso de um sistema político que já não para em pé. Não houve golpe ou conspiração. Apenas a aplicação da lei da gravidade. Caiu aquilo que estava tão podre que, carcomido, entrou em colapso devido ao próprio peso.

2018 chega ao fim com a certeza de que o atual sistema de representação não nos representa. Conclusão dolorosa. Mas verdadeira. Mais verdadeira e dolorosa ainda quando, na impossibilidade da existência de vácuo de poder, o populismo passou a varrer o mundo como força incalculavelmente poderosa.

Em 2018, políticos perderam a função. Falharam em traduzir demandas dos eleitores em agendas políticas. Abriram espaço para o vale tudo das mídias social onde tudo o que parece não é, mas tudo o que não é, lá está.

Com isso fortaleceram-se os populistas. Governantes comunicam-se diretamente com a população sem a intermediação ou negociação política. Vale dizer o tudo ou o nada, desde que com menos de 2080 caracteres. É a democracia do Twitter. Coisa perigosa para um mundo que precisa, e muito, de decisões sensatas baseadas em reflexões profundas.

Mas Jano poderia, pelo menos, arrancar esperança do futuro. Afinal, também olha para a frente. Poderia. Se fosse possível. Mas poucos períodos foram tão incertos. Sabemos que o sistema político atual não é caso para reforma. Requer demolição. Só não apareceu arquiteto ou engenheiro que explique o que pode ser construído no lugar.

2018 nos deu muita razão para ser contra muita coisa. E quase nenhum motivo para ser a favor de qualquer coisa. 2019 chega como noite envolvida em neblina. Não adianta ligar a lanterna. Nem Jano consegue ver o que vem por aí.

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)


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