Adeus, Naninho | Fábio Campana

Adeus, Naninho

Morreu o Naninho. Abatido por um câncer agravado pela brutalidade de uma inócua investigação da Lava Jato, que nada provou contra ele, mas o levou à execração pública. Mais um absurdo destes tempos de horrores e traição. Lembra a lógica do delegado de policia personagem de Fernando Sabino, que matava para averiguações. Pois bem, feitas as averiguações, nada foi constatado contra o Naninho, mas o mal já estava feito, completado por escandalosa cobertura da imprensa nativa. O depoimento do advogado Luiz Fernando Pereira, por si só, desmoralizou todas as acusações.

Ao Carlos Nasser devo horas de deliciosa conversa sobre nossas observações da fauna provinciana. Não apenas a da política, mas a zoologia completa que habita o poder e suas cercanias. Rimos muito. Naninho era especialista em deboche. Arguto, certeiro, percebia rápido a fraqueza dos personagens. Qualidade que o afastou da súcia apedeuta nativa e o aproximou de algumas das maiores inteligências do país no período em que atuou no Rio, como Representante do Paraná ou como investidor na Bolsa de Valores. Foi amigo próximo de Paulo Francis, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, João Saldanha e Armando Nogueira.

Seu talento político noa bastidores foi convocado por governantes e políticos. Sua capacidade de análise e informação acumulada foram contratadas por empresas privadas. Foi responsável por empreendimentos bem sucedidos. Para citar apenas um. Foi figura central na engenharia de negócios que transferiu a Globo para a TV Paranaense, até então uma quase inexistente estação local que não tinha público para a sua medíocre programação. O empresário Francisco Cunha Pereira sempre reconheceu este feito de Nasser.

Naninho tinha muitos desafetos, como todos aqueles que fazem sucesso nesta área do planeta e logo despertam alguns dos sentimentos mais primitivos da nossa gente: inveja, ressentimento, mágoa. Alguns tinham até razão para tanto. Naninho não perdoava ignorância, não era ameno com os rivais, não tinha dó dos pobres de espírito.

No confronto, partia com tudo. Eu e todos seus amigos experimentamos. Em alguns momentos tivemos nossas dissenções. Mas, na boa, era muito generoso. Devo a ele gentilezas. E gostava de ver sua habilidade para influenciar pessoas. Um mestre da sedução na política e nos negócios. Quando necessário, duro na queda.

Hoje foi o seu enterro. Ninguém ou quase ninguém Poucas pessoas para se despedir de alguém que esteve no centro do espetáculo por mais de meio século. Para provar que o mineiro é solidário no câncer, o paranaense nem na morte.


8 comentários

  1. mario celso cunha
    segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 – 18:08 hs

    Perdemos um bom amigo. Sempre elegante, gostava de andar na moda e viver entre pessoas famosas. Foi amigo de poderosos da televisão . Fique com Deus Naninho

  2. Eliasz samuelsob
    segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 – 19:39 hs

    Fiquei impressionado com a frase.
    Mineiro é solidário com a vítima do câncer, paranaense nem na morte!

  3. marcos
    segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 – 19:49 hs

    O paranaense, principalmente o da capital, é um aguado, dessas coisas que não tem gosto de nada… Sem sal, sem sabor, sem cheiro.

  4. segunda-feira, 24 de dezembro de 2018 – 21:04 hs

    Grande Naninho …… em 1982 quando MDB e PP fizeram a fusão ai veio o PMDB fizeram a grande dobrada em Ivaiporã Orlando Pessutti 15.130 deputado estadual….Carlos Nasser deputado Federal…..José Richa Governador e Alvaro Dias Senador …….Pessuti fez 9 mil votos em Ivaiporã e Carlos Nasser fez 9 mil votos dobrada FIEL ….. bons tempos. …Naninho sempre amigo dos amigos era pessoa de confiança do então ex governador Jaime Canet Junior ,,,,VAI COM DEUS amigo ……..joao feio

  5. SERGIO SILVESTRE
    quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 – 7:26 hs

    Pois é,tem muita coisa nociva para com o Pais e para pessoas brilhantes,até parece que é o começo da destruição dos legados escritos e da nossa cultura em geral.Estão destruindo memorias e reputações,logo vão rasgar livros e nos tornaremos um Pais sem memoria com a atual forma de agir da justiça e dos vorazes políticos.

  6. quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 – 9:59 hs

    pois Sergio Silvestre, e a turminha do seu pt ajudando tacando fogo em museu.

  7. quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 – 10:11 hs

    Primeira Vez Que vou Concordar com o Amigo Sérgio Silvestre,..é Bem por Ai Mesmo,,Quem não Preserva á Memória dos Ilustres fica Sem História no Futuro……

  8. Ercilia Maria Nasser Viecili
    quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 – 17:43 hs

    Querido amigo Fábio Campana,
    Agradeço de coração o que escreveu sobre meu irmão Carlos Nasser.
    Tenha a certeza que você foi um grande amigo.

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