Desconectados da realidade | Fábio Campana

Desconectados da realidade

Na economia, Jair Bolsonaro e o PT têm muito mais semelhanças do que os incautos imaginavam.

Editorial, Estadão

Os candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial, Jair Bolsonaro (PSL) e Lula da Silva, este representado na cédula pelo preposto Fernando Haddad (PT), parecem totalmente divorciados da dura realidade nacional. É compreensível que, em uma campanha eleitoral, temas espinhosos sejam evitados ou tratados de maneira superficial, para que não assustem o arisco eleitor. No entanto, o que se tem visto na reta final da disputa é uma preocupante alienação, como se a prioridade do País não fosse o saneamento das estranguladas contas públicas, sem o qual nenhuma das promessas de palanque, mesmo as mais modestas, poderá ser cumprida.

Do PT, é claro, nem se poderia esperar outra coisa. O programa de Lula da Silva, que interposta pessoa apresenta por aí com ares professorais, é um mal ajambrado repeteco da desastrosa política que culminou em dois anos de recessão, alta do desemprego, disparada da inflação e dos juros e retrocesso em quase todos os setores da economia.

A despeito de ter se comprometido a mudar no programa o que for necessário para angariar apoio fora dos tradicionais domínios petistas – sindicatos, movimentos sociais e todos os demais setores estatólatras –, não se pode imaginar que o PT de uma hora para outra tenha se convertido ao credo liberal. É preciso muito mais do que suprimir o vermelho na propaganda eleitoral para que se acredite na suposta disposição de Haddad de tirar dos planos oficiais petistas, por exemplo, a proposta de “reconfigurar” o “setor produtivo estatal” para “fortalecer setores industriais estratégicos”, ou então a ideia de fazer com que os bancos públicos assumam “papel importante no padrão de financiamento da reindustrialização”.

Mais prudente é acreditar nas promessas do programa que se coadunam com o conhecido ideário do PT, tais como “revogar a PEC do Teto dos Gastos”, para poder voltar a aumentar os gastos públicos irresponsavelmente – uma especialidade petista –, e promover a “reversão das reformas do golpista Temer”, em referência às medidas que o governo de Michel Temer aprovou para tentar interromper a brutal crise que o PT nos legou. Sobre a urgente reforma da Previdência, são dedicadas apenas reticentes intenções de acabar com “privilégios”.

Já o candidato Jair Bolsonaro, que passou quase a campanha inteira a fugir de perguntas mais específicas sobre seus planos para a economia, atribuindo ao economista Paulo Guedes, seu assessor na área, a responsabilidade de respondê-las, finalmente começou a dizer o que pensa a respeito de questões muito importantes para o futuro imediato. E o que se ouviu foi preocupante.

Sobre a Previdência, por exemplo, o líder nas pesquisas de intenção de voto e hoje favorito na eleição disse ao Jornal da Band que a reforma terá de ser feita “vagarosamente” – embora esteja claro para todos, a esta altura, que a mudança das aposentadorias já tardou demais.

Além disso, Bolsonaro recuou explicitamente de sua intenção de promover amplo programa de privatização, ao dizer que a Eletrobrás e o “miolo da Petrobrás” não serão vendidos. Sobre a Eletrobrás, o candidato recorreu a uma analogia avícola, dizendo que o dono de um galinheiro não pode vendê-lo porque, senão, ficará sem seu ovo cozido no café da manhã. Já em relação à Petrobrás, Bolsonaro indicou que considera absurda a margem de lucro da empresa na venda de combustíveis, o que indica disposição de interferir na política de preços – receita certa para o desastre, como aconteceu durante os governos lulopetistas.

Por fim, Bolsonaro disse que mandou seu assessor Paulo Guedes pensar em maneiras de “negociar com o mercado” os juros da dívida interna – o que, em outras palavras, significa calote. Não à toa, o mercado desabou depois dessas declarações, pois havia a expectativa de que Bolsonaro estivesse realmente convertido ao ideário liberal.

Ao contrário: na economia, nota-se cada vez mais que Bolsonaro e o PT têm muito mais semelhanças do que os incautos jamais imaginavam. Vai ficando claro que a grande derrotada desta eleição, infelizmente, é a razão.


3 comentários

  1. saulo
    sábado, 13 de outubro de 2018 – 22:05 hs

    Mesmo os EUA, possuem suas estatais, poucas, mas possuem, o que quer se evitar é que determinadas estatais caiam nas mãos dos chineses, sendo assim, vão virar estatais chinesas, ele está ficando ao lado dos americanos contra a China, é uma guerra que o Capitão já escolheu o seu lado! Ninguém entrega totalmente o que vai fazer no seu governo, só sei que o mercado prefere mil vezes Jair Bolsonaro ( até porque as bolsas tem subido e dólar caído com ele como favorito), do que o comunista do Andrade!

  2. domingo, 14 de outubro de 2018 – 8:37 hs

    … se é assim, infelizmente é a Nação. O Presidente teria que ter vários conselheiros economistas apartidários afim de corrigir esses rumos em que a economia nacional foi deixada. A Nação Brasileira espera que nossos novos governantes prestem muita atenção a esta relegada situação que já é uma calamidade.

  3. troll
    domingo, 14 de outubro de 2018 – 19:38 hs

    Este pessoal do jornalão paulistano fazem de conta de que não leem as notícias que vem lá de Wall Street, sabem que tem um caminhão de dinheiro para se despejar aqui já em dois de janeiro. O capitão só fracassa se quiser e não por falta de dinheiro. Dinheiro vai faltar sim se o acontecer uma hecatombe, uma vitória inacreditável do poste do 51, aí sim passaremos do fundo do poço onde hoje nos encontramos

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*