Ciro versus Ciro | Fábio Campana

Ciro versus Ciro

A idade não serenou o pedetista, cujos rompantes dificultam a formação de alianças e alimentam a indisposição do mercado à sua campanha

Roberta Paduan, VEJA

Aberta a temporada de alianças partidárias, cada sigla busca seu par — e torce para não sobrar sozinha no altar. Para o PDT de Ciro Gomes, uma noiva vistosa seria o DEM, partido de centro, com uma bancada de 43 deputados no Congresso e potencial para abrir as portas à entrada de legendas do centrão, como PP e Solidariedade, com seus consequentes e preciosos minutos de TV. Diante disso — e na véspera de um jantar com caciques do DEM para falar precisamente da possibilidade de aliança —, o que fez Ciro? Insultou uma das lideranças do partido cobiçado, o vereador Fernando Holiday (é um “capitãozinho do mato”, segundo afirmou em entrevista à Rádio Jovem Pan, sugerindo que o político, mesmo sendo negro, não defende os interesses da população negra). Sem entrar no mérito da crítica a Holiday, é certo que xingar o irmão da noiva às vésperas de pedi-­la em casamento — e ainda abandonar intempestivamente um congresso de prefeitos porque não pôde falar durante o tempo que queria, como fez em Belo Horizonte na terça-­feira 19 — apenas reaviva as suspeitas de que Ciro segue sendo Ciro.

O destempero pode não levar ao naufrágio sua terceira candidatura presidencial, mas não ajuda a melhorar sua imagem junto a uns dos setores mais resistentes à sua candidatura, a elite empresarial. O chamado “mercado” se abespinha a cada declaração de Ciro sobre economia. Também na terça-­feira, Ciro afirmou que, se eleito, proporá que a reforma da Previdência seja feita por plebiscito — o que seria o fim da reforma, dada sua impopularidade. O pr­é-candidato, por sua vez, não perde uma oportunidade de, publicamente, desdenhar dos que o rejeitam (“rentistas e especuladores que não fabricam nem um pão nem geram emprego”). Prova de que a antipatia é mútua é a análise feita pelo Eurasia Group. Na classificação dos pré-­candidatos segundo o nível de risco que representam para a economia, a consultoria posicionou Ciro em último lugar, abaixo até mesmo do deputado Jair Bolsonaro, que vem fazendo um esforço danado para disfarçar suas convicções estatistas. “Ciro e o PT são os que têm o discurso mais hostil ao mercado”, diz Silvio Cascione, analista do Eurasia.

O pedetista tem afirmado que, caso ganhe, vai revogar contratos já assinados por empresas que arremataram blocos no pré-sal, desfazer a reforma trabalhista, acabar com o teto de gastos da União, romper os contratos de privatização da Eletrobras que venham a ser firmados e chegou a dizer que a gasolina estaria hoje abaixo dos 3 reais, se fosse o presidente. “O grande medo é que ele se torne uma Dilma 2”, resume o economista-­chefe de um banco que falou na condição de anonimato.

Com discurso belicoso em público, Ciro tem pedido à sua equipe que mantenha um tom mais ameno nos encontros a portas fechadas com os donos do dinheiro. “Seus assessores têm apresentado propostas que se baseiam no controle de gastos e na responsabilidade fiscal”, afirma o economista-­chefe de outra instituição financeira, que participou de uma apresentação da equipe de Ciro no Goldman Sachs. Mas a investida dos técnicos não tem conseguido aplacar o medo do setor. Disse um dos presentes à apresentação dos assessores do pedetista: “Eles se baseiam em feitos passados para projetar o que seria um governo futuro. Mas não contrariam as afirmações feitas publicamente pelo candidato”.

No que diz respeito ao passado, Ciro tem, sim, credenciais a apresentar ao mercado. Quando governador, não só promoveu ajuste fiscal nas contas do Ceará como recomprou a dívida do estado quinze anos antes do vencimento. Quando o Congresso aprovou, em 1997, socorro fiscal aos governos em apuros, o Ceará estava saudável e tinha apenas 114 milhões de reais em dívidas, um dos menores valores.

Sua incontinência verbal, porém, continua sendo um problema. A ala do DEM contrária a uma aproximação com o pedetista, por exemplo, rapidamente usou o episódio Holiday como pretexto para propagar críticas públicas ao presidenciável. O vice-líder do DEM na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante, referiu-se a Ciro como “prostituto de partido”, citando as sete legendas pelas quais ele passou — e esquecendo-se de que, se isso definisse nível de prostituição, o Congresso seria um imenso prostíbulo. A atitude de Ciro também alimentou a ala do DEM entusiasta de uma aliança com Geraldo Alckmin, bem na semana em que o tucano pôs em funcionamento os motores de seu novo núcleo político. A função primordial do ex-governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB-GO), que comanda o grupo, é levar o DEM para a órbita tucana e, assim, atrair outras legendas do centrão.

Recentemente, a equipe de Ciro teve acesso a uma pesquisa que mostra que 40% dos brasileiros nem sequer sabem quem ele é. E o último levantamento do Datafolha revelou que ele continua nos 10% de intenção de voto, abaixo de Marina Silva (Rede). Tudo somado, Ciro tem potencial para crescer. Mas está se equilibrando no discurso ambíguo para cativar os órfãos do ex-presidente Lula, de um lado, sem assustar os liberais do mercado, do outro. Equilibrar os polos já seria um desafio para um candidato com a cabeça fria. Para Ciro, o destemperado, é uma dificuldade adicional.


2 comentários

  1. FUI !!!
    sábado, 23 de junho de 2018 – 16:06 hs

    O Ciro Gomes pode até ter alguma experiencia, porem não tem
    perfil para ser Presidente. Aliás, hoje em dia não precisa ter nenhum
    predicado para ocupar estes cargos…

  2. domingo, 24 de junho de 2018 – 2:42 hs

    Autossabotagem.

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*