Salto no escuro | Fábio Campana

Salto no escuro

Ao contrário do que pregam certos políticos nativos, a superação das ideologias tradicionais é coisa do Primeiro Mundo. Ali o progresso força novos entendimentos das coisas da vida, outras necessidades e outros anseios e demandas.

Levianamente, vende-se a ideia de que o Brasil seria capaz de copiar o modelo com a mesma facilidade com que Neymar dribla seus marcadores. Acontece que sempre faltou, neste gramado, o aprendizado, o tirocínio – e a luta, o sofrimento e a glória. O povo não chegou ainda à consciência de seus próprios interesses e vota na esperança de benefícios imediatos com tanta naturalidade. Ou se entrega ao primeiro orador da truculência a prometer mais violência para combater a violência.

Em compensação, as chamadas elites – e, em geral, os habituais consumidores de proteínas animais – vivem o pavor de perder o que têm, conservados no vácuo da falta de espírito crítico e senso de humor.

É bom repetir. Não somos Terceiro Mundo por acaso. Temos, a respeito, largas culpas em cartório. Na hora em que se acende o delírio motivado pelo mundial de futebol, colhe-se o mais perfeito emblema da eterna escolha – esta sim, constante, fidelíssima – pela emoção em lugar da razão.

Escanteia-se a inteligência para que mandem apenas os sentimentos, enternecidos ou exaltados por bobagens. Nonadas, diria Guimarães Rosa.

A racionalidade só intervém na hora de fazer valer interesses imediatistas, de tirar vantagem pessoal, nada que se aproxima no coletivo. O país, compactamente, está sempre pronto a escalar na ilusão. E a acreditar que a caça às bruxas da corrupção seja suficiente para nos tirar do atraso.

Donde se deduz que há condições muito propícias para as piores aventuras, sustentadas pelos recalques da pequena burguesia emergente. Talvez o Brasil de 2006 seja um caldo de cultura excelente para um gênero de salto no escuro nunca dantes navegado em nossas latitudes. Com o voto do povo.


6 comentários

  1. Ein Sof
    sábado, 12 de maio de 2018 – 18:34 hs

    “Talvez o Brasil de 2006 seja um caldo de cultura excelente para um gênero de salto no escuro nunca dantes navegado em nossas latitudes. Com o voto do povo.”

    2006?

  2. Ein Sof
    sábado, 12 de maio de 2018 – 18:35 hs

    Impossível descrever com mais perfeição o atual estado de coisas.
    Campana, é isso aí!
    Assino com firma reconhecida!

  3. sábado, 12 de maio de 2018 – 20:33 hs

    Nao e um líder ou um PAresidente do Brasil,que vai resolver os nossos problemas. Mas analisei,os possíveis canditados a QPresidencia! Alvaro Dias ,disse hoje que, nos anos que atua na política,com cargos eletivos,nao tem um Processo conta ele!!, Sabemos que o poder economico e poderoso!! Mas para quem conhece,os Pais de Alvaro,os irmãos as famílias Dias Fernandes, acredita nisto,pois eles sempre foram uma Familia exemplar em Maringa? Meu voto e para ele com toda certeza!!

  4. domingo, 13 de maio de 2018 – 10:22 hs

    … e meu, também, Sr. Jeca…

  5. Palpiteiro
    domingo, 13 de maio de 2018 – 12:26 hs

    O Brasil vive no tempo mental do século XIX. Foi aprisionado lá pelas ideais socialistas, difundidas pelo um clero católico mais atrasado do mundo, por politicos botocudos e por uma elite mediocre e cartorialista, que nunca competiu com regras de mercado. O Brasil é um país fracassado que precisa superar seu complexo de inferioridade crônico e sua preguiça colossal.

  6. Já que tocou no assunto
    domingo, 13 de maio de 2018 – 22:44 hs

    Ótima crônica Fábio !
    Ter um país que os mais ricos são cartorários ? Em lugares mais civilizados que o nosso não existe tanta burrocracia. Aqui estamos dando valor demais a papéis na tentativa de suprir a falta de ética.

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