Mobilização pela democracia | Fábio Campana

Mobilização pela democracia

Editorial, Estadão

A indefinição da campanha eleitoral dá margem a todo tipo de especulação sobre o próximo governo, mas uma coisa é certa: será desastroso para o País se o presidente eleito for um dos que hoje protagonizam a polarização raivosa entre esquerda e direita – e não só em razão das ideologias deletérias que os caracterizam, mas principalmente pelo fato de que fundamentalistas em geral não têm a menor disposição de entabular qualquer forma de diálogo no Congresso. E, sem decidido apoio no Congresso, presidente algum conduzirá o País pelo caminho das reformas e da austeridade.

Por se imaginarem dotados de qualidades messiânicas, acima de considerações políticas triviais, esses candidatos se julgam dispensados de se submeter ao convívio democrático com quem não integra sua camarilha. Ao contrário: em seus discursos, reservam às negociações parlamentares o mais absoluto desdém, para regozijo de parcela do eleitorado que, enfastiada da política tradicional, os segue como a divindades.

É claro que coisa boa disso não sai, e é por essa razão que, diante das pesquisas de intenção de voto que mostram a boa colocação de candidatos que tão bem representam essa truculência, começa felizmente a tomar corpo a ideia de que é preciso haver uma mobilização para que a boa prática democrática prevaleça sobre a ameaça de barbárie.

Um manifesto a ser lançado no final deste mês pretende ser a expressão de urgência que caracteriza este momento político nacional. Tendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como um de seus primeiros signatários, o texto, obtido antecipadamente pelo Estado, demanda uma “urgente unidade política nas eleições”, para constituir um “polo democrático e reformista”.

Na prática, a iniciativa visa a reduzir a quantidade de postulantes à Presidência considerados de centro, reforçando uma candidatura de consenso para vencer uma eleição que, no dizer do manifesto, será “a mais complexa e indecifrável” desde a redemocratização do País.

O texto é claro a respeito dos riscos que o País enfrenta. “À direita, se esboça o surgimento inédito de um movimento com claras inspirações antidemocráticas. À esquerda, uma visão anacrônica alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário”, afirma o manifesto. Em seguida, conclama o “polo democrático” a se unir para evitar que o futuro brasileiro “não seja espelhado em experiências desastrosas como a vivenciada pelo povo venezuelano”.

O alerta não é desmedido. A experiência venezuelana mostra a que ponto pode chegar um país que permite a destruição da democracia representativa e a construção, sobre seus escombros, do velho caudilhismo populista revestido do discurso de justiça social e de moralidade política. O esgarçamento das relações sociais e políticas promovido por essa liderança autocrática dividiu a sociedade venezuelana de maneira praticamente irreconciliável. Sabotando qualquer possibilidade de diálogo com a oposição e apostando exclusivamente nos delírios estatistas de seus ideólogos, o chavismo destruiu os fundamentos que sustentavam a economia. Como resultado, tem-se hoje um país em colapso.

Aqui, os candidatos que por ora mobilizam as atenções do eleitorado são aqueles que, seja à esquerda ou à direita, se declararam hostis às reformas necessárias para recuperar a capacidade do País de se desenvolver, depois de mais de uma década sob a doidivanas regência do PT. Ademais, mostraram-se refratários a aceitar o Congresso – com todos os seus defeitos – como o locus onde a democracia se efetiva, como se apenas a vontade do líder bastasse para conferir legitimidade às ações do governo.

Enquanto o centro democrático não se acertar, o discurso desses irresponsáveis continuará a prevalecer sob os holofotes da campanha, impondo-se por inércia. A depender da demora em obter a coesão de que fala o manifesto, pode ser tarde demais para reverter, nas urnas, o que hoje se afigura como inimaginável tragédia. Se as forças democráticas têm a intenção de preservar a política tradicional como fonte primária de governança, então que deixem de lado suas eventuais diferenças e tratem de viabilizar uma candidatura capaz de convencer os brasileiros de que não há salvação fora da democracia.


8 comentários

  1. OTIMISTA
    domingo, 20 de maio de 2018 – 9:31 hs

    É a primeira oportunidade para todos os brasileiros ficarmos sem
    um Presidente da República e o país ao “Deus dará”. Com certeza
    tudo vai melhorar. Para completar esta previsão seria muito bom se
    as cinzas do vulcão do Havaí enterrasse para sempre o Senado e
    Congresso Nacional !!!

  2. Parreiras Rodrigues
    domingo, 20 de maio de 2018 – 9:50 hs

    A continuar a prática marxista que manda dividir para governar, essa ai plantada por Lula, mais longe o futuro que o cara (e cada um de nós) lá de Crato, quer para o Brasil. E tudo parece caminhar para isso com um tal de Bolsonaro encabeçando pesquisas.

  3. Parreiras Rodrigues
    domingo, 20 de maio de 2018 – 10:02 hs

    Quase ninguém lê editoriais. Esse ai, do Estadão, deve ser recortado, arquivado, para ser esfregado na cara de quem se lamentar pela estupidez que fez em 7 de outubro vindouro. Já

  4. Parreiras Rodrigues
    domingo, 20 de maio de 2018 – 10:04 hs

    Quase ninguém lê editoriais. Esse ai, do Estadão, deve ser recortado, arquivado, para ser esfregado na cara de quem se lamentar pela estupidez que fez em 7 de outubro vindouro. Já guardei o meu exemplar e vou relê-lo em Portugal. Não estarei mais morando no Brazuela.

  5. Palpiteiro
    domingo, 20 de maio de 2018 – 13:05 hs

    O ódio, a intolerância, a prepotência e a arrogância de odos os lados e de algumas instituições do próprio Estado estão dividindo o país e cirando um ambiente propício à irresponsabilidade. Há os que estão acima da lei e os que se julgam acima da lei. Um caldo de bílis cívica engolfa o país. Estão desenterrando os mortos para a procissão macabra dos jacobinos e os ultramontanos para o féretro da democracia.

  6. HORA DA VERDADE
    domingo, 20 de maio de 2018 – 13:20 hs

    VOTO RAIVA já fez retrocessos imensos no Brasil. Foi um voto de RAIVA que elegeu a vassoura para fazer a limpeza ná época e JANIO QUADROS, deu com os burros na água porque não teve capacidade e temperamento para lidar com o Congresso. Renunciou. Depois veio Collor o Caçador de Marajás e, sem competência escolheu a temperamental Zélia Cardoso que congelou a poupança dos pobres (rico não aplica na poupança) e foi caçado. Depois veio Lula que separou os pobres da elite, na propaganda enganosa dos marqueteiros que criaram o Brasil da divisão entre NOS X ELES. Deu no que deu e a corrupção que era ARTESANAL ficou uma verdadeira LINHA DE MONTAGEM. Foi a década perdida e descrença da classe politica que começa a entrar na cadeia.
    Agora um novo DESASTRE se delineia com a eleição do Bolsonaro – um obscuro e truculento militar que confessa não entender nada de economia e nunca conseguiu em 7(sete) mandatos de deputado
    , qualquer entrosamento e capacidade de dialogo no parlamento. Elegeu-se com o voto “saudosista” da ditadura militar que ainda existe em camadas da população. Agora ele explora o VOTO RAIVA,

  7. HORA DA VERDADE
    domingo, 20 de maio de 2018 – 13:42 hs

    VOTO RAIVA já fez retrocessos imensos no Brasil. Foi um voto de RAIVA que elegeu a vassoura para fazer a limpeza de JANIO QUADROS. Deu com os burros na água porque não teve capacidade e temperamento para lidar com o Congresso. Renunciou e o esquerdismo criou o caos e motivo para os militares se apossarem do Poder. Redemocratizado a situação veio Collor – o Caçador de Marajás e, sem competência, escolheu a temperamental Zélia Cardoso que congelou a poupança dos pobres (rico não aplica na poupança) e foi caçado. Depois veio Lula com a promessa da ética na politica e separou os pobres da elite pela propaganda enganosa dos marqueteiros que criaram o Brasil da divisão entre NOS X ELES. Deu no que deu e a corrupção que era ARTESANAL ficou uma verdadeira LINHA DE MONTAGEM. Hoje a corrupção vem do Presidente aos Vereadores. Foi a década perdida e descrença da classe politica que começa a entrar na cadeia.
    Agora um novo DESASTRE se delineia com a eleição do Bolsonaro – um obscuro e truculento militar que confessa não entender nada de economia, que até fecharia o Congresso porque nunca conseguiu em 7(sete) mandatos de deputado (so aprovou 2 projetos) e não soube ter
    , qualquer entrosamento e capacidade de dialogo no parlamento. Bolsonaro sempre se elegeu-se com o voto “saudosista” da ditadura militar que ainda existe em camadas da população. Agora ele explora o VOTO RAIVA pelo sentimento de frustração do Povo com a classe politica, mas ele é e está politico a mais de 30 anos. Fala em fuzilar a bandidagem, mas será UM TIRO NO ESCURO e novamente haverá uma divisão da DIREITA contra a ESQUERDA.
    A saída da crise brasileira esta na BOA POLITICA e no DESARMAMENTO EMOCIONAL DA NAÇÃO.
    Certos estão os que subscrevem o documento pela MOBILIZAÇÃO DA DEMOCRACIA quando dizem “Enquanto o centro democrático não se acertar, o discurso desses irresponsáveis continuará a prevalecer sob os holofotes da campanha, impondo-se por inércia. A depender da demora em obter a coesão de que fala o manifesto, pode ser tarde demais para reverter, nas urnas, o que hoje se afigura como inimaginável tragédia. Se as forças democráticas têm a intenção de preservar a política tradicional como fonte primária de governança, então que deixem de lado suas eventuais diferenças e tratem de viabilizar uma candidatura capaz de convencer os brasileiros de que não há salvação fora da democracia”
    Apenas 4 candiados podem representar o CENTRO, que se unidos derrotam a esquerda caótica e a direita raivosa. São eles Alkimin, Amoedo, Flavio Rocha e Alvaro Dias ( alias uma janela de oportunidades para o Paraná); Fora disso é postergar a saída e entramos em nova confusão.

  8. Celso Rocha
    domingo, 20 de maio de 2018 – 21:53 hs

    O Centro político não existe!
    Se existisse teria o que de pior há no lado da esquerda e da direita, ou seja, aumentaria o mal caratismo, a mentira, a corrupção, a dissimulação, a falsidade e a hipocrisia!
    Na política tem que ter cara e tem que ter lado, ainda mais no politicamente confuso Brasil!

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*