A caminho do brejo, de Cora Rónai | Fábio Campana

A caminho do brejo, de Cora Rónai

Cora Rónai, uma das mentes privilegiadas e lúcidas que restam neste país, publicou no O Globo de 13 de dezembro de 2016 esta crônica antológica, definitiva, atualíssima, sobre o Brasil de hoje. É muito bom voltar a ler o texto e, talvez, acrescentar os acontecimentos posteriores que ilustram nosso caminho para o brejo. Aí vai:

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos. Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.


6 comentários

  1. Ein Sof
    sábado, 26 de maio de 2018 – 12:42 hs

    Um país começa a ir para o brejo quando o povo que o habita é gente de baixo nível em todos os quesitos, Bem que ela poderia terminar assim.

  2. Ein Sof
    sábado, 26 de maio de 2018 – 12:52 hs

    E termino dizendo:
    Notamos o motivo de um país ir para o brejo quando vemos um jornalista expressar preocupação com o fato da greve dos caminhoneiros afetar os jogos da rodada da série A (seja lá o que isso seja)…..
    Acabei de ver isto acontecer na RPC…
    O país fodido, e o imbecil preocupado com os jogos da série A…

  3. sábado, 26 de maio de 2018 – 13:57 hs

    A pensadora disse tudo, não há o que tirar nem por, nos desnudou. Este será mais um ano em que vamos perder a chance de passar a limpo o Brasil.

  4. FUI !!!
    sábado, 26 de maio de 2018 – 14:55 hs

    Sem dúvida alguma é um texto muito atual apesar dos tempos.
    O Brasil colhe hoje esta bagunça e corrupção infernal não sòmente
    pela existencia dos corruptos em todos os níveis, mas pela absoluta
    inércia do povo brasileiro da qual infelizmente faço parte…
    Observados de longe pelos eleitores que mal se enxergam o pró-
    prio nariz deixou que a PTzada comandasse o esquema absurdo
    da roubalheira bem perto da gente. Nada foi feito porque a grande
    maioria dos brasileiros pensam apenas nos dias de hoje e quem sa-
    be para daqui a um mes. Quando o barco começou a afundar corre-
    ram à procura de salva vidas que nem existem mais…

  5. Parreiras Rodrigues
    sábado, 26 de maio de 2018 – 16:52 hs

    Um país começa a ir para o brejo quando o eleitor do pequeno município troca o seu voto para vereador, para prefeito, por um 20 lts de combustível, ou por receita de farmácia, conta de luz, de água. Quando o prefeito, o vereador, vende o seu apoio a deputado, a troco do emprego de parente, quando o deputado troca o seu apoio a governador por uma ambulância, um ônibus escolar e o governador apoia o presidente desde que ele prometa a liberação de emendas dos deputados seus representantes. O brejo é logo ali. Quando o presidente se mantem no cargo, fazendo aleluia com cargos e distribuição de emendas.

  6. falido e sem alcool
    sábado, 26 de maio de 2018 – 17:17 hs

    E a nobre periodista vinculada a rede esgôto de comunicação deveria acrescentar que um país se ferra a partir de uma imprensa gananciosa e que enriquece a partir das verbas públicas generosamente repassadas a toda poderosa Globo, principalmente nos governos do lulaladrão e da dilmAnta.

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