Uma nova e preocupante evasão escolar | Fábio Campana

Uma nova e preocupante
evasão escolar

Mais da metade dos jovens brasileiros, de todas as classes sociais, perdeu o interesse pelos estudos e corre o risco de ficar fora do mercado de trabalho. Onde a nossa educação está falhando e qual o custo disso para o futuro do País?

Camila Brandalise, IstoÉ

A decisão de parar de estudar da auxiliar de limpeza Regina de Jesus Araújo, hoje com 24 anos, se deu por motivos econômicos. Há seis anos, quando ela morava com os pais, considerava ter uma estrutura de vida precária e preferiu se dedicar ao trabalho para conseguir se sustentar. Conciliar os estudos, na época, com 18 anos, não era viável. “Não tive incentivo nenhum para continuar na escola.” Hoje, mora sozinha e arca com as próprias contas. Para ter mais oportunidades profissionais, porém, percebeu que era preciso concluir a formação. E foi isso o que ela fez. Neste ano, cursa orgulhosa o primeiro ano do Ensino Médio em uma escola pública de São Paulo. “Quero ir para o ensino técnico. Gostaria de ser recepcionista porque gosto de trabalhar diretamente com as pessoas”, diz. É a tentativa de Regina para escapar de uma triste estatística, divulgada recentemente pelo Banco Mundial: 52% dos jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos perderam o interesse pela escola e, por isso, correm o risco de ficar fora do mercado de trabalho.

Parte dessa população simplesmente parou de estudar por necessidade financeira, como Regina havia feito, parte não consegue levar o colégio com o comprometimento que isso exige porque é obrigado a conciliar a atividade com trabalho informal e um terceiro grupo encontra-se atrasado em relação à série adequada à idade. Abandonar a escola para ajudar no sustento da família não é novidade. O que preocupa nos dados do relatório do Banco Mundial é que a falta de interesse pelos estudos avança para camadas sociais em que a necessidade de gerar renda não é a maior pressão. Um em cada três brasileiros de 19 anos está hoje fora da escola.

O documento aponta outro dado alarmante: a falta de participação dos jovens na construção da economia vinha diminuindo desde 2004, mas há quatro anos a tendência sofreu uma reversão. Isso ocorreu principalmente por causa do aumento de pessoas que não estão nem estudando nem trabalhando (os chamados “nem-nem”) e de jovens que estão desempregados ou em trabalhos informais. A justificativa imediata para o retrato tem a ver com o momento econômico atual do País, de crise financeira, desemprego e informalidade no trabalho. No entanto, há questões mais complexas por trás da situação. “A pergunta essencial que essa análise suscita para os formuladores de políticas é saber se, em condições econômicas menos favoráveis, é possível manter as conquistas anteriores em termos do engajamento juvenil. Esta é uma preocupação para um País cujo potencial de produtividade agora depende de forma tão crítica do engajamento de seus jovens”, diz o relatório.

A resposta, segundo consenso entre educadores, é a de que é possível manter os jovens em sua formação escolar independentemente da condição econômica da nação. Para isso, o sistema educacional precisa mudar. É necessário que o currículo se modernize o suficiente para despertar e manter o interesse dos jovens contemporâneos. “A escola que estamos oferecendo aos nossos adolescentes não dialoga com eles, não faz mais sentido”, afirma Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. “A escola do século XIX, com os alunos enfileirados e professor falando na frente, não funciona mais.”

Eixo estratégico

Há pelo País iniciativas que contemplam novos modelos. Sob a coordenação do Instituto Ayrton Senna, por exemplo, quinze escolas públicas de Santa Catarina adotaram mudanças importantes. “Estabelecemos um projeto de educação em tempo integral”, conta Ramos. Depois de um ano, a instituição comparou a taxa de abandono nesses colégios com as apresentadas por escolas do mesmo perfil socioeconômico. “O índice foi 50% menor”, informa o especialista.

A educação integral é uma das alternativas para envolver alunos, motivá-los a pesquisar e incitar a curiosidade, tornando o ensino atraente ao mesmo tempo em que desenvolve o potencial dos jovens. Nesse modelo há ainda uma ênfase no desenvolvimento das chamadas competências socioemocionais, que trabalham habilidades fora da cartilha tradicional de ensino, como resiliência, empatia e liderança.

“Não é preciso criar novas disciplinas, mas sim oferecermos outras maneiras de trabalhar em sala de aula”, afirma Ramos. Alterações mais profundas como essas são vistas em maior escala apenas em escolas particulares que se propõem a oferecer uma nova maneira de ensinar, com mais envolvimento dos alunos, atenção específica para dificuldades ou habilidades individuais e desenvolvimento de conhecimentos que vão além das disciplinas básicas. São instituições, porém, com mensalidades altas — as mais inovadoras chegam a custar R$ 8 mil por mês —, que obviamente não podem ser pagas pela maioria da população. Há, portanto, necessidade de revisão e implantação, por políticas governamentais, de iniciativas que contemplem as mudanças na rede pública. Isso inclui investimento em formação e valorização de professores. “Temos que focar em um projeto de País que coloque educação como eixo estratégico”, afirma Priscila Cruz, fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. “Ou fazemos isso ou o Brasil perderá o bonde da história de novo.”

Os prejuízos envolvem perdas individuais e também coletivas. Do ponto de vista pessoal, o documento do Banco Mundial mostra que os cidadãos de baixa escolaridade enfrentam falta de oportunidades e baixos salários. Os números revelam que quanto maior o índice de conclusão dos ciclos de ensino, maior o rendimento: até quatro anos na escola, o salário cresce 11,64% para cada ano estudado; de 14 a 18 anos de estudo, o salário cresce 35,65% por ano estudado. “Isso gera aumento no Produto Interno Bruto e melhor distribuição de renda”, explica Priscila. O Brasil todo sofre hoje com a queda da produtividade resultante da falta de conhecimento, informação e, muitas vezes, da incapacidade de formular raciocínios básicos. Sem uma população preparada para exigências de um mercado global de trabalho cada vez mais sofisticado, a tendência é o País seguir em ritmo de estagnação. O desafio é quebrar essa corrente.

“O desenvolvimento do Brasil é o desenvolvimento dos seus cidadãos”, afirma a representante do Todos pela Educação.


5 comentários

  1. Coxinha
    domingo, 22 de abril de 2018 – 22:38 hs

    Pensei que com o governo Temer isso iria melhorar.

  2. Marcio Denis Cardoso
    segunda-feira, 23 de abril de 2018 – 10:35 hs

    O grande problema, não são as instituições, e sim a degradação da educação, que ocorreu na ultima década, pode se mudar a metodologia, pode se mudar os professores, mas enquanto os alunos forem amparadas pelas leis de proteção a culpa sempre vai ser das instituições e dos professores que não souberam ensinar o filhos dos pais que não tem mais responsabilidades sobre eles. Esquecem que quem tem que realmente estudar são os alunos e não os professores e que tem que embutir os conteúdos na cabeça de seus alunos. Levaram anos para concertar os estragos que foram feitos. E o Temer fazia parte do mesmo governo que degradou esta educação.

  3. Antonio Alvaro Rosar
    segunda-feira, 23 de abril de 2018 – 10:38 hs

    A escola não atrai os jovens, pois as mesmas não acompanham a evolução.

  4. segunda-feira, 23 de abril de 2018 – 11:29 hs

    Matéria no mínimo útil para o momento que o Brasil vive,quando falamos em educação a primeira coisa a ser citada é valorização dos professores, concordo com a valorização, mas depende do desempenho deste profissional, o problema da educação brasileira na minha visão não é tanto financeira mas sim comportamental. A maneira que os profissionais atuam em sala de aula é o maior problema da educação brasileira, a falta de comprometimento das pessoas que comandam as escolas, a falta de comprometimento das pessoas que fazem parte dos conselhos escolares e que dão sustentabilidade as direções de escola, e assim por diante.
    Vou explicar os item anteriores: Nas escolas os professores não tem uma pessoa que acompanha seu trabalho para ver se ele está cumprido com a sua função que é ensinar os alunos.
    Os conselhos são escolhidos pela direção da escola somente pessoas de suas relações, dificilmente são escolhidas pelos pais ou comunidade. Na grande maioria as direções das escolas não apresentam propostas inovadoras, continuam com o método antigo e o ditado (Se os políticos não fazem nada porque eu vou fazer).
    A matéria demonstra que muitos alunos desistem muito sedo das escolas, o aluno não sente atração por aula mal dada, professor despreocupado com o aprendizado do aluno, em muitos casos professor que da maus exemplos e pensam que as crianças não sabem da vida do professo.
    Essa coisa não é o governo que deve fazer, mas sim quem esta em sala de aula e nas direções de escolas, os governos são substituídos, mas os professores permanecem só vamos ter melhoria na educação quando mudar o comportamento de quem ensina e de quem administra as escolas.

  5. terça-feira, 24 de abril de 2018 – 8:50 hs

    Excelente artigo, obrigado!

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*