Por que em Curitiba? | Fábio Campana

Por que em Curitiba?

David Coimbra para o Zero Hora,

A Lava-Jato só seria possível em Curitiba. Em São Paulo, ama-se muito o dinheiro para sediar uma operação desse tipo. No Rio, ama-se demais a malandragem. Em ambas as cidades, as investigações seriam interrompidas já no começo. Em São Paulo, pela força dura da grana. No Rio, pelo poder mole da delinquência afável.
Em Porto Alegre, a Lava-Jato também não vicejaria, porque a cidade, como nenhuma outra do país, vive atormentada pela ideologia. Porto Alegre é a capital do fundamentalismo. Qualquer fundamentalismo. Não há a suavização do pragmatismo paulista ou da tolerância carioca. Há uma estúpida nobreza de sentimentos que torna tudo rascante, tudo caso de confronto. O sujeito não é um idiota, mas age como um idiota porque acha que é o certo a fazer. O que, em geral, o transforma em um idiota. E emperra a cidade porque há oposição a tudo e, sempre, oposição incondicional. 

Em Curitiba, há uma elite cultural parecida com a porto-alegrense, de boa formação cultural. Só que, em Curitiba, essa elite cultural está a salvo da tacanhice ideológica. Há, também, boa qualidade de vida, como em São Paulo, sem o exagero da riqueza obscena. E certa dose de cosmopolitismo, como no Rio, sem o contágio da doce parceria na contravenção.

Por estar longe demais das capitais, Curitiba teve tempo e ambiente para se transformar na matriz de uma nova casta de funcionários públicos que se formou no país. Eles estão em praticamente todos os Estados, mas em Curitiba tiveram tranquilidade para se desenvolver e, por fim, agir. São jovens sérios, honestos, modestos e trabalhadores, que querem o bem do Brasil. São quase monótonos, de tão certinhos. Como é Curitiba.

Se você acompanhou o julgamento de Lula no TRF4 e viu algum outro, qualquer outro, do STF, terá a exata dimensão do que estou tentando dizer. Há dois tipos de entendimento de Justiça no Brasil. Um, antigo, barroco, lento, de origem lusitana, representado principalmente pela primeira turma do STF, aquela formada por Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Lewandowski e o decano Celso de Mello. Esses juízes se expressam de forma tortuosa, seu verbo é gótico, eles são grandiloquentes e empertigados. Eles defendem uma Justiça morosa, cartorial, carregada de possibilidades recursais, trâmites obscuros e impedimentos regimentais. Gilmar Mendes chama-a de “libertária”, quando, na verdade, é apenas leniente. É a Justiça tardia, que não se faz jamais. Ou seja: a Justiça injusta.

Já o TRF4 protagoniza uma Justiça de modelo anglo-saxão, prática, direta, que não se deixa burlar por pormenores regimentais. Esses juízes não admitem a esperteza jurídica. Se uma das partes tenta usar a letra da lei para embair a própria lei, eles logo apontam a má-fé. E a punem.

É essa a Justiça que a sociedade brasileira está exigindo. São servidores com esse estofo de que os cidadãos brasileiros precisam, no século 21. A lei não é imutável. A lei muda de acordo com a necessidade da sociedade. A velha forma de se fazer justiça no Brasil não atende mais aos anseios da sociedade. Na verdade, nunca atendeu. O Brasil quer ser cada vez mais parecido com a República de Curitiba. E será.


10 comentários

  1. Roger
    quinta-feira, 26 de abril de 2018 – 16:33 hs

    Pelo teor laudatório do texto, em parte merecido, o escriba não deve conhecer o E. Tribunal de Justiça do Estado do Paraná onde ainda graçam muitos magistrados “gradiloquentes e empertigados”.
    Na maior desfaçatez eles têm se apropriado de uma falsa nacionalidade da República de Curitiba e cometido seguidos desatinos. Olha, Fábio, ultrapassa a raia do ridículo.

  2. Sandra Mara Dias Cordelé o
    quinta-feira, 26 de abril de 2018 – 17:17 hs

    Gostaria de cumprimentar o jornalista David Coimbra, pelo seu relato. Brilhante, brilhante!

  3. Marco Aurélio
    quinta-feira, 26 de abril de 2018 – 17:44 hs

    um

  4. lucão
    quinta-feira, 26 de abril de 2018 – 18:34 hs

    É, mas, nós não queremos um Gilmar Mendes nesta República de Curitiba, nem como Magistrado e muito menos como Presidente …. tá bom !

  5. João da Silva Calado
    quinta-feira, 26 de abril de 2018 – 21:30 hs

    O Brasil necessita, urgentemente, de várias Curitibas, para passar a limpo o país!!!

  6. sexta-feira, 27 de abril de 2018 – 9:20 hs

    DR SÉRGIO MORO O SR FOI ENVIADO POR DEUS PARA SALVAR O BRASIL E O SEU SOFRIDO POVO;;;;;QUE SEJA ILUMINADO SEMPRE….AMÉM;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;

  7. Marco
    sexta-feira, 27 de abril de 2018 – 9:40 hs

    Em uma escuridão dominada pela corrupção em uma cidade chamada Curitiba acendeu luz de esperança para o Brasil todo aonde não tem partido e cor, as cores são naturais do Brasil, verde , amarela, azul e branco. e assim que tem que ser do incio, meio e fim.

  8. Juca
    sexta-feira, 27 de abril de 2018 – 11:39 hs

    E agora o PT vai ter o tratamento de choque q

    Novo desembargador do TRF-4 é formado também em Engenharia Elétrica
    O paulista Osni Cardoso Filho, atualmente na JF de Florianópolis (SC), assumirá a vaga do desembargador federal Amaury Chaves de Athayde.

    Espaço Vital <espacovital@espacovital.com.br

  9. Juca
    sexta-feira, 27 de abril de 2018 – 11:39 hs

    E agora o PT vai ter o tratamento de choque que merece:

    Novo desembargador do TRF-4 é formado também em Engenharia Elétrica
    O paulista Osni Cardoso Filho, atualmente na JF de Florianópolis (SC), assumirá a vaga do desembargador federal Amaury Chaves de Athayde.

    Espaço Vital <espacovital@espacovital.com.br

  10. ESTAMOS DE OLHO
    domingo, 29 de abril de 2018 – 11:08 hs

    E O VIDEO DO FALECIDO ALBORGUETTI EM QUE ELE
    ENALTECE O MORO,CERTOU EM CHEIO ,ASSISTAM
    O VIDEO NO YOUTUBE ESTE VIDEO E DE 2006 E
    ELE ACERTOU TUDO,SUAS PREVISOES ESTAO SE
    CONFIRMANDO SOBRE A FIGURA DO DESCONHECIDO
    A EPOCA DO JUIZ SERGIO MORO.

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