Batalha ideológica | Fábio Campana

Batalha ideológica

Não se irá longe se a luta política impedir o compromisso de todos com um ensino melhor.

Editorial, O Globo

O campo da educação, por tratar de conhecimento, aprendizado, ideias, é espaço aberto a debates políticos e ideológicos. Trata-se de uma característica intrínseca ao meio. E a questão para professores, diretores de estabelecimentos de ensino e gestores em geral é saber como manejar num universo que tende a estar em ebulição intelectual, e fazer com que dos choques de pensamento se produzam melhorias na qualidade do ensino.

Mas não é simples assim. Por isso, no Brasil, apesar da constante discussão sobre educação, mesmo até com um razoável consenso entre governos tucanos e petistas, os avanços no ensino médio, por exemplo, são sofríveis.

À margem de choques político-partidários na redemocratização, a partir da Constituição de 1988, sob Fernando Henrique Cardoso e Lula, houve avanços na busca pela universalização da matrícula no fundamental e na apuração da qualidade do ensino básico como um todo.

Com FH, avançou-se na universalização, começaram-se a criar mecanismos de avaliação cruciais para o monitoramento das políticas, o que se seguiu também com Lula, com exceção do primeiro mandato, em que a prioridade para o ensino superior foi um equívoco. Além do mais, a reforma fiscal feita pelos dois partidos, para criar fundos de financiamento do ensino fundamental e do básico como um todo (Fundef e Fundeb), foi um passo essencial. Entre os exames, o Enem, por exemplo, além de testar a evolução do ensino médio, é um passaporte para a universidade. Os testes permitem diagnósticos sobre para onde vamos, aonde queremos ir e se estamos indo bem. O projeto estratégico é de, em 2020, o ensino básico ter a avaliação média atual dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde se congregam as nações desenvolvidas. A avaliação é feita pelo teste internacional Pisa, de que estudantes brasileiros também participam.

E o resultado até agora é preocupante. Estabeleceram-se objetivos por períodos. E eles não têm sido atingidos à medida que se avança no fundamental e chega-se ao ensino médio. Neste, a crise é grave. Apesar do proselitismo que cresce nesta época pré-eleitoral, as vitórias e derrotas são compartilhadas por PSDB e PT.

Mas aprovou-se no Congresso uma reforma do ensino médio na direção correta, para que o estudante, ao sair do fundamental, já escolha uma área de interesse, incluindo o ensino profissionalizante. Espera-se reduzir as altas taxas de evasão. Além do mais, está em construção um currículo nacional, a fim de que haja um mínimo de equivalência entre o que é ensinado em todo o país, sem engessar professores e negar características regionais.

O debate político-ideológico, pela natureza da atividade educacional, jamais cessará. Pede-se é que haja um compromisso de todos com o que interessa: acabar com a baixa qualidade da educação.


4 comentários

  1. terça-feira, 3 de abril de 2018 – 8:50 hs

    ESCOLAS PÚBLICAS, SÃO TERRITÓRIOS IDEOLÓGICOS DE VÁRIOS PARTIDOS, UMA PENA MESMO!!!

  2. xiru de palmas
    terça-feira, 3 de abril de 2018 – 10:42 hs

    A educação é uma área (tal qual política, religião e futebol) onde todos, eu disse todos, dão suas opiniões e apontam culpados quando ela não atinge os patamares desejados.
    Em primeiro lugar os níveis de crescimento educacional são medidos por sistemas que sempre apresentam deficiências diagnósticas.
    Em segundo lugar a educação do Brasil é comparada com a de outros países.
    Esta comparação também carece de fidedignidade dado ao fato de se comparar, não apenas o processo educacional, mas um universo infinito de variáveis (que compõe a estrutura de cada país).
    Mas no Brasil eu tenho a convicção de que a nossa dificuldade está na classe docente.
    Vejam este retrospecto da vida de um educador:
    – 1958. A grande maioria dos professores do ensino fundamental eram leigos.
    Sua carga de trabalho com alunos (sala de aula) era de 20 horas semanais.
    Os professores tinham um tempo razoável para seus trabalhos extra-classe.
    \Não sei se o salário era bem compensador, mas não me lembro de nenhum
    professor, nesta época, falar que ganhava mal.
    O ensino era ótimo.
    – 1973. O salário do professor era próximo do salário mínimo (estou falando do professor de ensino fundamental),. então o governo sabiamente (ou perversamente) deu ao professor a faculdade de “dobrar” o seu padrão de trabalho, passando a ministrar 40 horas semanais de aula.
    Isto dobrou o mísero salário do professor
    Isto dobrou as horas de aula
    Isto roubou um tempo de trabalho extra-classe.
    Com certeza o professor deixou de melhorar a sua prática pedagógica por falta absoluta de tempo para isso.
    Só este fator já é determinante para se comparar a qualidade de ensino de épocas anteriores com as de hoje.
    Agora vamos para o nosso dia-a-dia.
    O professor alem de ministrar a sua aula tem que atender as diferenças sociais, as necessidades afetivas dos alunos, aguentar a falta de socialização (eu chamava antigamente de educação de casa), a concorrência com os meios cibernéticos (jogos, telefonia, redes sociais etc…)
    Não se pode mais contratar um professor que não tenha curso superior e especialização.
    Esta visão é muito boa.
    Mas após uma graduação e uma especialização não dá para dizer ao professor que ele irá receber R$ 1.200,00 por mes, e se for um professor dedicado (trabalhando 40 horas semanais) poderá ganhar até a fortuna de R$ 2.400,00 por mes.
    Se o magistério não tiver um nível salarial que possa ser suficiente para sustentar uma família com dignidade, tiver tempo hábil para suas tarefa extra-curriculares, e os pais dos alunos educarem realmente seus filhos, cada vez teremos ensino de menor qualidade.
    Vejam portanto que o agente mais prejudicado, e que realmente pode fazer a diferença, é o professor.

  3. Doutor Prolegômeno
    terça-feira, 3 de abril de 2018 – 11:10 hs

    A contribuição dos veículos dessa rede de comunicação para o caos social e para a desorganização da sociedade devia ser objeto de profunda reflexão.

  4. Ademir
    terça-feira, 23 de outubro de 2018 – 11:32 hs

    Realidade a doutrinação nas escolas, espaço para cooptar para partidos e doutrinação ao feminismo!

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