Ódio religioso solapa a democracia | Fábio Campana

Ódio religioso solapa a democracia

artigo é de Marcos Valadão Ridolfi, o Nasi, e Hédio Silva Jr, na Folha de S. Paulo

Os últimos meses registram o agravamento de depredações e ataques a templos religiosos afro-brasileiros no Rio de Janeiro e em outros Estados; facínoras armados e agindo em grupo torturam psicológica e fisicamente sacerdotes e sacerdotisas, coagindo-os a destruir edificações, símbolos e objetos religiosos.

Em todos os ataques, os delinquentes ostentam camisetas com símbolos religiosos e vociferam frases de ódio religioso, evidenciando a motivação de seus atos.

As ações são meticulosamente registradas em vídeos, imediatamente postados e amplamente divulgados nas redes sociais, com o visível propósito de intimidar e acuar, promovendo terror social.

Já se registram centenas de casos de invasões e depredações de templos, havendo inclusive notícias de assassinatos de sacerdotes que se recusaram a destruir símbolos e objetos religiosos dos templos aos quais pertenciam.

Tais condutas são catalogadas pela lei penal como crime de terrorismo, cuja pena deve ser aplicada sem hesitação, como forma de desestimular a reprodução da barbárie.

De outra parte, é imperioso lembrar que a ação voluntária e planejada dos meliantes reverbera e concretiza o discurso de ódio religioso, fomentado diariamente por programas religiosos televisivos e radiofônicos, em flagrante desrespeito à legislação brasileira.

O discurso do ódio atribui à “macumbaria”, aos orixás/voduns/inquices e às entidades umbandistas a responsabilidade pela existência de todas as mazelas do planeta, incluindo a pobreza, desemprego, criminalidade, enfermidades físicas e mentais, drogas, desestruturação familiar, vícios, infortúnios, aquecimento global, vírus da zika, degelo no Ártico etc.

O resultado dessa narrativa é o apedrejamento de crianças nas ruas, a profanação de templos e símbolos religiosos, a violência sanguinária pura e simples contra fiéis das religiões afro-brasileiras, inclusive no interior de escolas públicas.

A violência simbólica, verbal, induz, incita e justifica a violência física, exercida em nome do misericordioso propósito de salvar almas.

É oportuno recordar que a história da humanidade é repleta de tragédias decorrentes do ódio religioso, a exemplo das guerras, terrorismo, genocídios, massacres, estupros em massa e outras atrocidades, razão pela qual tarda uma resposta efetiva por parte das instituições brasileiras, sob pena até de grave comprometimento da paz social.

Na atualidade, vale ressaltar, a maioria dos conflitos armados tem alguma motivação de natureza religiosa, racial ou cultural, fato este que levou a ONU a concluir que o fundamentalismo religioso representa uma das maiores ameaças à democracia e à paz mundial.

As Nações Unidas catalogam o sentimento religioso e a identidade religiosa como direito fundamental da pessoa humana, representando fator de existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória.
Daí porque ninguém tem direito de constranger, humilhar, difamar ou discriminar uma pessoa em razão de sua crença —ou descrença.

Num país como o nosso, com uma rica geografia de identidades culturais, étnicas e religiosas, cabe ao Estado o dever de tratar igualmente todas as convicções e religiões e assegurar que todas elas possam se expressar num ambiente de paz e coexistência, sem qualquer forma de discriminação ou intolerância.

O respeito recíproco, a coexistência e a convivência pacífica entre todas as convicções e crenças constituem um imperativo democrático, mas sobretudo um instrumento de afirmação da dignidade humana e proteção da paz social.

Decerto, esse desiderato ético e jurídico não será ignorado no julgamento que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região fará em 1º de fevereiro, em São Paulo, numa ação coletiva em que se busca assegurar direito de resposta contra os ataques criminosos e sistemáticos que há décadas constrangem, ofendem e violentam milhões de brasileiros que professam as religiões herdadas dos africanos.

Marcos Valadão Ridolfi, o Nasi, é cantor e compositor da banda Ira!; faz parte da família espiritual Oduduwa Templo dos Orixá.

Hédio Silva Jr, doutor em direito pela PUC-SP é advogado de causas das religiões afro-brasileiras no STF e ex-secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo (2005-2006).


6 comentários

  1. Uncle Joe 100
    segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 – 12:17 hs

    Os caras estão reclamando da violência contra os templos da sua fé e o que dizer daqueles que entram nas igrejas só para depredá-las, não merecem repulsa e indignação? O ódio religioso vem sempre de só de “delinquentes” ou “desequilibrados mentais”? Vem sim fomentado por pastores que alienam fieis tontos a ponto de se recusarem a aceitar aqueles que não são iguais a eles. Assim também fazem os terroristas do ISIS, o deus deles é o único e o verdadeiro, será que o deus destes delinquentes não é o mesmo do pessoal do ISIS? Com certeza é .

  2. Clarice maciel
    segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 – 16:57 hs

    Texto lúcido pelo que vem acontecendo com fiéis das religiões afro-brasileiras no país. Parabéns!

  3. Paulo Lucas
    segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 – 18:19 hs

    Esta cada vez mais difícil lidar com essa perseguição que é muito mais racial pois as religiões afros são religiões negras e ainda vejo muitos negros e descendentes se juntando e perseguindo também quem faz parte destas religiões.

  4. Andrea
    segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 – 20:56 hs

    É um absurdo que em pleno século XXI, na era da informação, as pessoas ainda pratiquem crimes de ódio em nome da fé. Mesmo que sejam incentivados por aqueles que deveriam lhes mostrar o caminho do bem, será que estes seres não são capazes de se questionar “como um Deus que é conhecido como misericordioso pode querer que eu em seu nome, ataque, prejudique alguém?” É preciso deixar de fazer o que o outro fala e fazer uma verdadeira reflexão do seu papel ante a sua fé. Para esses que não tem essa capacidade ou que preferem fingir não tê-la, que se faça a lei.

  5. Fabíola
    terça-feira, 9 de janeiro de 2018 – 8:08 hs

    O objetivo de todas as religiões é buscar Deus.
    Deus, é respeitar, é amar o próximo, que essa verdadeira essência se instale no coração dessas pessoas, independente da sua religião.

  6. Fernando
    terça-feira, 9 de janeiro de 2018 – 10:51 hs

    A fé so pode andar ao lado do respeito e do amor! É simples assim! Não é aceitar ou praticar a religião afro brasileira. É respeitar toda a diversidade e temos que falar sempre sobre esses assuntos.

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