Coragem e decência | Fábio Campana

Coragem e decência

artigo de Fernando Henrique Cardoso, no Estadão

Quando eu era criança havia um ditado que insistia em que “ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. Eram tempos do Jeca Tatu, figura mítica que habitava os campos brasileiros. Ainda devem existir jecas-tatus por este mundão afora, mas sua imagem esmaeceu no imaginário brasileiro. Havia o drama dos pés descalços; mesmo no Rio, onde passei a meninice e não havia muita gente descalça, muitos usavam tamancos. O bicho-do-pé era uma preocupação dos que iam às fazendas. Depois veio a leva das “havaianas” e se tornou raro ver gente sem sapato. As saúvas devem continuar existindo…

Mais recentemente, antecedendo a Constituição de 1988 e mesmo depois dela, durante meu governo, as “marchas dos sem-terra” tornaram realidade política a carência de reformas no campo. Bem ou mal fomos distribuindo terras. Somando o que foi feito em meu governo ao que fez o primeiro governo petista, houve, sem alarde, uma “reforma agrária”, se considerarmos a redistribuição de terras. Ao lado disso, houve uma revolução agrícola, com ciência e tecnologia da Embrapa por trás, financiamento mais adequado e audácia empresarial.

Não havia SUS até que os governos pós-Constituição de 1988 o puseram em marcha. Adib Jatene, Cesar Albuquerque, José Serra e Barjas Negri são, dentre outros, nomes a serem lembrados nessa construção. Sem esquecer que foi o grupo dos “sanitaristas” da Constituinte, composto por médicos, geralmente de esquerda, que introduziu a noção de seguridade e inventou a colaboração público-privada no SUS.

É boa a prestação de serviços pelo SUS? Depende. Mas ele existe e atende, em tese, os 205 milhões de brasileiros.

Dou esses exemplos que mostram a capacidade que tivemos para enfrentar, mesmo que parcialmente, certos problemas que afligem o povo. Isso nos deve dar ânimo para continuar a acreditar no País.

Duas questões nos desafiam especialmente na atual conjuntura: o desemprego e a desconfiança nos governos. De permeio, o crime organizado e o ódio entre facções políticas, além da corrupção dos que usam colarinho branco. Acrescente-se que desta vez a “crise” dos governos (financeira e moral) foi criada internamente. Não há como jogá-la no colo do FMI ou dos “estrangeiros”. É tão nossa quanto a saúva ou o bicho-de-pé. Políticas equivocadas da dupla Lula-Dilma levaram a que depois do boom viesse a borrasca: os governos (não só o federal) estão exauridos, o PIB despencou mais de 8% entre 2015 e 2016, a desigualdade voltou a aumentar e o desemprego passou de 4% a 14% no mesmo período. Embora não faltassem razões jurídicas, foi o descontrole da economia que, no fundo, causou o impeachment, pois atingiu e irritou o povo e levou o Congresso a agir.

Foi para sair do impasse que o governo Temer obteve apoios: para retomar o crescimento da economia (tendo o projeto Ponte para o Futuro como roteiro). A despeito de tudo, até da crise moral, o governo vai atravessando o despenhadeiro. Retomou as condições para transformar de retórica em prática viável a exploração do pré-sal, com a reconstituição financeira e moral da Petrobrás. Está estabelecendo um plano adequado para as empresas energéticas, deu ímpeto à reforma educativa e assim por diante, sem se esquecer dos esforços para conter os gastos nos limites do Orçamento e das possibilidades de endividamento do Estado.

Não há razão para um partido como o PSDB repudiar o apoio que deu ao governo de transição, muito menos para, dentro ou fora do governo, deixar de votar a agenda reformista, que é a do próprio partido. No caso da Previdência, principalmente, as únicas questões cabíveis são: tal ou qual medida aumenta ou diminui os privilégios e, consequentemente, a desigualdade social no País? Nada justifica manter vantagens corporativas nem privilégios. O mesmo vale para uma futura reforma tributária ou para medidas fiscais, que podem doer no bolso de alguns, como é o caso do fim do diferimento de Imposto de Renda nos “fundos fechados”, mas que são justas e necessárias.

Ou nos convencemos de que por trás do desemprego, do ódio político e da violência criminosa está um grau inaceitável de desigualdade, agravado pela crise que nos levou à falta de horizonte, e lutamos contra esta situação, ou pouco caminharemos no futuro. Sem confiança no País, a começar em nós próprios, não há investimento nem crescimento que se sustentem. Essa é, portanto, uma questão coletiva, afeta ao País como um todo, e precisa ser tratada como um desafio para o Estado e para a Nação.

A questão central de um partido que nasceu como o PSDB, para se diferenciar da geleia geral que se formou na Constituinte, é a de se distinguir pela afirmação, não pela negação. Não será em função de posições que ocupa ou deixa de ocupar nos governos que se afirmará, mas das bandeiras que simboliza e das políticas que apoia para o Brasil. A hora é de coragem para mostrar como o partido vê o futuro e como colabora para formar uma sociedade melhor (apoiando medidas igualadoras e votando a favor das reformas). Não se trata de questão eleitoral, mas de compromisso com o povo e com o Brasil. A história de um partido não se escreve apenas com manifestos e programas, mas com gestos e com pessoas que simbolizem a mensagem que se quer transmitir. Se o preço para ganhar eleições for o de desfigurar as crenças – no que não creio -, melhor ficar com estas e semear para o futuro.

É em nome de sua identidade que o PSDB poderá desligar-se do governo que ajudou a formar, mas sem abdicar de suas propostas. É legítimo que um partido escolha dentre seus quadros quem, circunstancialmente, é mais adequado para ser seu candidato à Presidência e lute para alcançá-la. Sem “hegemonismos”, pois num país diverso como o Brasil todo partido precisa de aliados com quem compartilhar o poder e as crenças, o que não subentende a submissão cega nem a desmoralização das instituições republicanas.

Fernanda Henrique Cardoso, é sociológo e ex-presidente.


11 comentários

  1. Jacob
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 13:45 hs

    Para quem comprou o congresso para mudar a Constituição e permitir sua reeleição, conforme delação do Pedro Corrêa (PP), indicando que empresários pagaram propina a quem votou para mudar a CF em 1997, falar em DECÊNCIA é uma coisa bastante curiosa.
    Deve imaginar que todos somos trouxas.

  2. Rock
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 14:00 hs

    Esse cara é pior que a saúva e ainda tem audácia de dizer que os erros politicos são de Lula e de Dilma e que ele só participou dos acertos é um canalha que envergonha a todos os brasileiros pois qualquer um que tenha mais de 40 anos sabe o quanto foi ele culpado pelo desmonte desse Brasil que já devia ser um gigante entre os 5 maiores do mundo mas graça a deslumbrados e entreguistas como ele isso ainda não aconteceu. Agenda reformista ou entreguista crie vergonha na cara de vez FHC. Gagá .

  3. Sergio Silvestre
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 14:22 hs

    Se o Brasil tivesse um administrador de empresas teria demitido toda essa laia de homens supostos públicos e essa cambada de magistrados e procuradores por incompetência
    O que me admira essa cambada falar em constituição,ela nem serve para limpar o rabo,ninguem a respeita,veja o caso dos pedagios no Paraná,o atendimento no Sus,.seu salario minimo,só para ingles ver ora,

  4. Juventino Clemente
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 17:31 hs

    Valeu
    Eterno presidente

  5. Juventino Clemente
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 17:32 hs

    Sérgio Silvestre
    É um idiota
    Um perfeito idiota

  6. Palpiteiro
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 19:50 hs

    O rei da vaidade e o principal responsável pelos 13 anos de lulopetismo, por meio da reeleição que era sua obstinada ambição. Ponha o pijama antes que comece a babar na camisa.

  7. domingo, 3 de dezembro de 2017 – 20:10 hs

    Pois é… quem, já leu o “Pacto de Princeton” sabe que é e tem repulsa pelo seu Fernando Henrique…. é um lobo vestido de cordeiro….
    Bem, de fato havia o ditado “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil” Para quem não sabe saúva é uma espécie de formigas que comia todo tipo de planta principalmente capim e cereal.
    Agora precisamos criar novo ditado “Ou acabamos com os políticos corruptos ou eles acabam com a sociedade brasileira” e venderão o país

  8. EDILSON HUGO RANCIARO
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 20:13 hs

    Mais um hipócrita socialista, que fechou os olhos para os problemas do Brasil. Respaldou-se na moeda Real que ele não criou e sim uma equipe econômica. Um socialista que soube aproveitar das benesses da política.

  9. Jesiel
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 20:38 hs

    Infelizmente votei neste senhor, que mandou inclusive esquecer o que ele escreveu. E agora vem com este artigo, toma vergonha. Falar em privilégio, se enxerga. Mama a muitos anos nas tetas do estado. Saúva gorducha, que vendeu o Brasil e agora vem falar em governo reformista. A reforma que querem impor é apenas aos coitados dos trabalhadores. Pq não cobrar as dívidas astronomicas dos empresários, que aliás se apropriam de dinheiro que não lhes pertence, pois os tributos quem paga somos nós, empresário apenas repassa.

  10. HORA DA VERDADE
    domingo, 3 de dezembro de 2017 – 21:13 hs

    E Sr.Fábio Campanha, tá difícil de ver que imbecis como estes cobs, ohs e estres, ainda persistiam no seu lulopetismo de acharem que a herança maldita foi a do FHC e não da dupla petista que nos levou para o beleléu. seu cob va ler um pouco da historia do presidencialismo para saber que o fim da escravidão nos EUA, foi conseguido pelo Lincoln comprando os parlamentares ( para te facilitar assista o filme Lincoln) . Seu ock, dá pena de ver que um cara ainda seja contra a privatização. Não fosse o FHC vc nem teria celular e notebook onde vc escreve tanta besteira. Quanto ao estres até concordo com ele que no judiciário e MP tem a maior “caixa preta” desta nação. Alias na sexta-feira ultima o CNJ, exigiu dos TJ uma comprovação das despesas com mordomias dos penduricalhos porque o Judiciário não vai conseguir fechar suas contas e a RECEITA FEDERAL quer IR destas mordomias.

  11. CLOVIS PENA - OS DONOS.
    segunda-feira, 4 de dezembro de 2017 – 4:52 hs

    O psdb não tem líderes autênticos que empolguem e parece não ter um ideário. Nem sabe tirar proveito do seu papel como oposição. Mais aparenta uma sociedade anônima. Amarga a situação de coadjuvante do Temer. Não se resolve e muito menos é capaz de apresentar uma proposta séria para os brasileiros. Fica melhor como academia do que como uma alternativa política capaz de arrumar o Brasil. Fernando, por favor, fazer acerto com Aécio e dizer para Temer “conte com a gente” para acomodar as coisas, não é mostrar coragem. Nem decência !!!

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