As mudanças de Bolsonaro | Fábio Campana

As mudanças de Bolsonaro

BBC Brasil,

Como o discurso de Bolsonaro mudou ao longo de 27 anos na Câmara?

“Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil! Começando com FHC! Não deixa ele de fora não!” O trecho é de uma entrevista de Jair Bolsonaro (PSC-RJ), então deputado pelo antigo Partido Progressista Reformador (PPR). A gravação foi ao ar na TV Bandeirantes do Rio, em 1999, e viralizou na internet este ano.
Quem assiste às declarações (aos 30min59s deste vídeo) hoje pode pensar que o deputado e pré-candidato a presidente sempre foi dado a falas polêmicas, identificadas com a direita.
Mas não é bem assim: a BBC Brasil analisou 1.540 discursos de Bolsonaro no plenário da Câmara, feitos ao longo dos 27 anos de mandato do militar reformado. Embora sempre tenha se identificado com a direita, o Bolsonaro do início da carreira era muito mais preocupado com a defesa dos interesses dos militares (sua base eleitoral de então) do que em polemizar com o PT e a esquerda.
Os discursos foram registrados ao longo dos anos pela taquigrafia da Câmara e obtidos pela reportagem da BBC Brasil com a ajuda do serviço de Dados Abertos da Casa.

Bolsonaro se elegeu deputado pela primeira vez nas eleições de 1990. Em seu primeiro mandato como deputado, de 1991 a 1994, palavras como “militar”, “forças armadas”, “benefícios”, “salários” e “pensões” apareceram 702 vezes, nos resumos e palavras-chave dos 279 discursos feitos por ele no Plenário da Câmara naquele período. Já no atual mandato, de 2015 até agora, o mesmo conjunto de 16 palavras só aparece 110 vezes, num conjunto de 143 discursos.

Ou seja: conforme ampliava o eleitorado graças à popularidade nas redes sociais, a discussão dos interesses da caserna foi perdendo importância nas falas do político carioca, embora este tema ainda esteja presente na agenda de Bolsonaro. Em maio, por exemplo, o deputado participou de uma sessão solene em homenagem à Esquadrilha da Fumaça.

Mas, enquanto não via a si mesmo como representante do espectro ideológico de direita, Bolsonaro chegou a ocupar a tribuna da Câmara para tecer elogios à deputada federal Luiza Erundina (hoje no PSOL), então no PSB e sempre reconhecida como um quadro de esquerda.

Um outro conjunto de 16 termos, com palavras como “direitos humanos”, “PT”, “tortura”, “Cuba”, “esquerda” e “gays” tiveram um pico no mandato passado (2011 a 2014). Aparecem 297 vezes nesse período, mas só foram citados 41 vezes no primeiro mandato de Bolsonaro (1991-1994).

A estratégia parece ter dado certo: o eleitorado de Bolsonaro extrapolou o círculo de militares e seus familiares. Em 2014, o deputado foi o mais votado na disputa pela Câmara, com 464 mil votos, segundo dados do Tribunal Superior Eeleitoral.

Um relatório de agosto da empresa de comunicação e pesquisa FSB posiciona Bolsonaro como o parlamentar mais influente nas redes sociais, entre todos os deputados e senadores brasileiros.

No atacado, a pauta militar aparece de longe como a mais importante nos discursos de Bolsonaro, historicamente. Contando só as palavras-chave, o termo “militar” é o mais citado, com 1054 menções. “Forças Armadas” aparece 300 vezes. Em comparação, o termo “Direitos Humanos” tem apenas apenas 139 aparições.

Contra FHC, junto com os petistas

Hoje em dia, Bolsonaro disputa com o ex-presidente Lula (PT) a liderança nas pesquisas de intenção de voto para a eleição de 2018. Mas em junho de 2002, o militar reformado estava num acordo “tático” com o PT contra José Serra (PSDB), então candidato dos tucanos à sucessão de Fernando Henrique Cardoso. O deputado do Rio já havia apoiado Lula na eleição anterior, em 1994, quando Lula perdeu a disputa para FHC.

“Quero louvar a posição do Lula na Comissão de Relações Exteriores (no dia anterior, Lula criticou o tratamento dado aos militares pela gestão FHC). Farei chegar ao conhecimento dos meus vinte mil militares, que forem internautas, da posição do presidenciável (…), para que cada um forme um juízo melhor de como votar. Obviamente, nós fechamos: nenhum militar vai votar em (José) Serra!”, disse Bolsonaro em junho de 2002.

Depois que Lula assumiu a Presidência, porém, Bolsonaro passou a fazer oposição ao ex-metalúrgico. O perfil de oposicionista se aprofundou mais ainda no 1º governo de Dilma Rousseff.

Num vídeo recente publicado em sua página do YouTube, Bolsonaro defende o seu direito de mudar de opinião. O deputado respondia a uma reportagem de “O Globo” sobre sua posição contra o plano Real. “Uma votação de 20 anos atrás. Logicamente, desses seis itens, alguns eu poderia hoje votar de forma diferente. Quem, 20 anos atrás, faria a mesma coisa hoje?”, diz ele.

A reportagem da BBC Brasil tentou contatar o deputado em seu celular e por meio um assessor, mas não houve resposta.

Em defesa da laqueadura e da vasectomia

Bem mais antiga e consistente é a posição de Bolsonaro em defesa de uma política de controle da natalidade, por exemplo – o militar reformado defendeu que o governo brasileiro realizasse uma ampla campanha de divulgação e de oferta de procedimentos como a laqueadura e a vasectomia.

Os termos “laqueadura”, “controle da natalidade” e “planejamento familiar” aparecem 55 vezes nos resumos, de 1991 até 2013.

“Pela sua coragem, quero agora louvar o excelentíssimo Sr. Presidente do Peru, Alberto Fujimori, que implantou em seu país, como forma de conter a explosão demográfica, a esterilização voluntária”, disse o deputado.
O discurso traz ainda críticas à Igreja Católica (“uma das grandes responsáveis pela miséria que graça em nosso meio”), e conclui dizendo que, sem controle populacional, “estaremos nos condenando a sobreviver como se a Terra fosse um grande e desordenado formigueiro”.

Fujimori presidiu o Peru entre 1990 e 2000. Foi alvo de críticas generalizadas depois de fechar o Congresso e o Tribunal Constitucional peruano com ajuda do Exército em 1992, com a ajuda das Forças Armadas. Grupos de direitos humanos também o acusam de ter esterilizado, sem consentimento, mais de 300 mil mulheres.

Bolsonaro aprovou, em 27 anos, dois projetos de lei: um que isenta do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) os bens de informática, e outro que autoriza o uso da “pílula do câncer”, baseada na fosfoetanolamina sintética, cuja eficácia contra a doença jamais foi provada cientificamente.

Também é o autor da emenda que garante o voto impresso para as eleições de 2018 – a aplicação da medida ainda é dúvida, pois o TSE alega não ter recursos para aplicá-la no pleito do próximo ano.


8 comentários

  1. Rr
    sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 – 13:43 hs

    O importante é que vai ser eleito no primeiro turno,e a escória vai pro aterro.

  2. Jorge Santos
    sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 – 14:16 hs

    Jair Bolsonaro usou de “força de expressão” muitas vezes para mostrar sua indignação ao longo de sua carreira política, assim como muitos de nós agiríamos se estivéssemos no lugar dele, como ser humano, que não tem sangue de barata, se permitiu a isso muitas vezes, mas o que conta é o senso patriótico, caráter e honestidade! A maioria dos brasileiros apoiou Lula, por este motivo ele chegou a presidência, até aqui não há crime algum ele ter se referido a Lula de forma respeitosa, hoje citar esses fatos mostra descontextualização da BBC, aliás, toda a matéria está descontextualizada, pois o mundo se moveu, quem se dizia honesto, hoje é desonesto!
    As esquerdas foram mostrando suas garras maléficas com o passar das administrações dos fingidos PT x PSDB, Bolsonaro endureceu o discurso com estes pelos roubo e descaso com o Brasil!

  3. Do Interior....
    sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 – 16:19 hs

    Bolsonaro é ruim…. Mas a esquerda é pior….

  4. Moisés Fróes
    sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 – 22:48 hs

    Roubou o Brasil, quebrou a Petrobras e todas as estatais? Então já está eleito. Sou eleitor dele e mais cinco da minha família.

  5. Moisés Fróes
    sexta-feira, 8 de dezembro de 2017 – 22:50 hs

    Fora Lula, chefão absoluto da gangue bandida. Curitiba o aguarda, não para uma simples visita, é para sempre.

  6. Veredito
    sábado, 9 de dezembro de 2017 – 9:02 hs

    Como já tivemos a esquerda no poder, o pseudosocialismo e até uma anarquia até hoje lamentada do Fernando Collor, e deu no que deu, agoira deveremos ter um governo rígido, moralista que possa fazer com que a sociedade olhe seus governantes com respeito, mesmo que não concorde com seus métodos mas com respeito. Respeito igual ao que devemos ter em nossa casa e na escola dos nossos filhos, hoje jogado no ralo pelos desgovernos que tivemos. VAMOS CONCORDAR QUE NOSSO PAÍS MERECE UMA COISA MELHOR DO QUE CIRO GOMES, ERNANDO HENRIQUE, LULA, MARINA, DILMA, DÓRIA, ALCKMIN OU AQUELE BOY DA REDE GLOBO.Em 2018 precisamos olhar para a frente e pensar no país que queremos para nossa família, para a família de nossos amigos.Jair Bolsonaro surge como uma luz no fim do túnel.

  7. QUESTIONADOR
    segunda-feira, 11 de dezembro de 2017 – 11:35 hs

    -Melhor Ja Ir se acostumando!!!

  8. domingo, 15 de julho de 2018 – 21:30 hs

    A salvação da Raça Verde-Amarelo passa pelo completo exterminio do comunismo. A extinção da miséria passa pelo controle da natalidade voluntário e Cristão combinado com as mais modernas técnicas de medicina genética.
    VIVA BOLSONARO!!!

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