O perdão estratégico de Lula | Fábio Campana

O perdão estratégico de Lula

Convencido de que a disputa no campo judicial não lhe é favorável, o ex-presidente recorre aos velhos amigos dos partidos conservadores para sair do atoleiro

Juan Arias, El País

Há alguns dias, em Minas Gerais, Lula surpreendeu a opinião púbica ao confessar: “estou perdoando os golpistas deste país”. Ele se referia aos partidos que apoiaram a destituição da presidenta, Dilma Rousseff, e que o Partido dos Trabalhadores (PT) denunciou como sendo um “golpe parlamentar”.

Como ninguém poderia negar as qualidades de estrategista do ex-presidente, sua confissão e em praça pública, cercado por seguidores de seu partido, com Dilma ao seu lado, só pode significar algo que vai além de um gesto de perdão cristão.

A afirmação inesperada de Lula, de querer se aproximar dos golpistas, ocorre, com efeito, em um momento crítico da vida política do país, à véspera da eleição presidencialmais recheada de incógnitas em muitos anos e na qual o principal partido de esquerda, o PT de Lula, aposta tudo, com seu inquestionável líder perseguido pela justiça e que poderá ficar de fora da disputa presidencial, sem que surja no horizonte um candidato credível, capaz de substituí-lo com êxito.

Lula não é um político que se resigna com uma derrota, tampouco quando se vê com a água no pescoço; e é capaz, no último instante, de tirar da manga da camisa uma carta que ninguém esperaria. Neste caso, em que se vê mais acossado do que nunca, tudo que Lula não poderia fazer é permanecer isolado ou fora do jogo. Convencido de que a disputa no campo judicial não lhe é favorável e que terá de enfrentar ainda vários processos e novas condenações, Lula recorre aos velhos amigos dos partidos conservadores, com os quais já tinha governado, para que o auxiliem a sair do atoleiro e ajudem o PT a ressurgir nas urnas.

Acossado sobretudo por uma possível delação premiada altamente nociva por parte de Antonio Palocci, que foi o seu braço direito no Governo em seus anos de glória, Lula sabe que o PT não se salvará sozinho e que neste momento são os seus companheiros de infortúnio judicial, partidos e políticos corruptos, que estão hoje no poder, que podem tentar “conter a sangria” na ferida aberta pelos juízes na luta contra a corrupção, que ameaça todos os partidos mais importantes do país.

Quando decidiu perdoar aqueles que chama de golpistas, com as consequências que isso pode acarretar em termos de desorientação da população, Lula sabia que sem a força do PMDB e seus satélites, sem a força do Governo do golpista Temer, que conseguiu escapar com bastante dificuldade da tempestade de acusações que caiu sobre ele, salvo pelo Congresso, o PT seria hoje o mais prejudicado nas urnas, podendo se reduzir a um partido marginal.

E Lula também sabia, ao fazer o seu gesto de perdão aos “golpistas”, que também da outra parte, da parte de Temer e dos seus próximos, que têm em suas mãos o trunfo de ter interrompido a recessão e a crise econômica deixadas por Dilma, não despreza um abraço de reconciliação com o líder carismático que ainda conta com 35% das intenções de voto. É até possível governar sem Lula, mas não contra ele, que mostrou ser capaz, como Fênix, de sempre se reerguer de suas quedas.

Não se pode esquecer que esse pacto que Lula tenta construir ao tornar público o seu perdão aos golpistas já tinha dados os primeiros passos no hospital onde Dona Marisa, a mulher de Lula, agonizava. Esse perdão conheceu ali o seu primeiro degrau quando Lula e Temer se abraçaram diante da presença de metade do Governo golpista, ali presente. Foi ali que começou a ser desenhado o contorno de uma possível reconciliação do PT com a direita na tentativa de todos se salvarem juntos da Lava Jato.

Se esta análise política corresponde à realidade, resta apenas saber como reagirão os militantes do PT, que acreditaram no seu líder quando ele proclamou que a saída de Dilma resultara de um golpe. O que pensarão, hoje, do perdão de Lula a Temer, os movimentos sociais que lutaram para tentar manter Dilma, os inúmeros movimentos progressistas que se manifestaram contra o golpe e os milhões de brasileiros que choraram quando ela foi deposta. Será que compreenderão a estratégia política maquiavélica de Lula? Perdoarão o próprio Lula por essa ousadia? E Dilma? Será que ela também irá perdoar aqueles que a expulsaram do Planalto?

Talvez o que possa salvar o líder carismático Lula e sua estratégia de poder, no momento mais frágil de sua carreira política, seja a sua capacidade de ser ele mesmo e o seu contrário. Se hoje dá o seu perdão aos golpistas, amanhã, caso a deusa da política o imponha, também poderá retirá-lo. Lula é antes de tudo um político. E com uma particularidade da qual poucos políticos gozam: há uma sensação de que lhe perdoam tudo, fora e dentro do partido do qual ele é o começo e o fim.

Por que será?


6 comentários

  1. Do Interior....
    domingo, 5 de novembro de 2017 – 16:08 hs

    Não tem nada de perdão!.

    Ele quer mesmo é o apoio do sacrossanto Ranan Calhorda, de seu filho e de Requião, vulgo Comedor Mamona.

  2. Rr
    domingo, 5 de novembro de 2017 – 19:11 hs

    Esse verme não chega ao final de 2018,a população já está se saco cheio com esse ladrão.

  3. Juca
    domingo, 5 de novembro de 2017 – 20:06 hs

    O perdão deste histrião é falso e busca o apoio do cangaceiro Renan e o calhorda Requião.

  4. FUI !!!
    segunda-feira, 6 de novembro de 2017 – 6:52 hs

    A um perdedor safado vale tudo, vale agarrar até em palha boiando
    como um afogado faz.

  5. Eder Oliveira
    segunda-feira, 6 de novembro de 2017 – 12:51 hs

    LULA É A DIGNIDADE DA POLÍTICA
    Pedro Benedito Maciel Neto (Advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007).

    A Política é o essencial da vida humana, razão pela qual a dignidade da Política é a própria dignidade do ser humano e a palavra é instrumento de evitar a violência.
    Partindo dessa afirmação encontro a resposta à pergunta que fiz no artigo: “Por que Lula valida a fraude judicial? “.
    Lula deixou de ser ele próprio e passou a ser todos nós, ou pelo menos todos aqueles que desejam que a Política volte a ser o caminho de gestão do bem comum e não dos interesses individuais.
    Lula representa a dignidade da Política e a humanização da interação humana, representa a defesa da liberdade, a defesa da diversidade e da pluralidade.
    No mesmo artigo perguntei ao leitor: “o que pretende Lula oferecendo-se à imolação?”.
    Lula não está a validar a fraude, nem se oferece à imolação, ele, como Sisifo, vive uma alegria silenciosa da defesa da liberdade, da verdade e da democracia, pois tem consciência do seu destino e ele [o destino] lhe pertence, ele é dono de seus dias e de suas escolhas.
    Relembrando: os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o alto de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso.
    Os deuses tinham pensado, com as suas razões, que não existiria punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. Mas Sísifo, o herói absurdo segundo Camus, surpreende os deuses, tanto por suas paixões, como por seu tormento e desprezou os deuses, ignorou a sua finitude e as exercitou a paixão pela vida transformando seu suplício indescritível em significado, sentido, exemplo e esperança.
    Lula demonstra com alegria que o caminho é comungar com a sociedade (as caravanas representam isso).
    Lula está a levar o rochedo (democracia) para o alto da montanha e ele sabe que essa é a solução e o sentido, pois nessa ação está o reconhecimento do protagonismo do povo numa democracia que se pretende justa e generosa, uma democracia que negará sempre a democracia liberal (uma democracia dos proprietários).
    Lula que é perseguido pelos “deuses-vassalos”, tutores de interesses a serem revelados pelo Tempo, não está a validar a fraude judicial, mas está a dar sentido transcendente a tudo isso, há, pois sentido nas suas ações e no seu discurso.
    Lula também vê a pedra [democracia] desabar para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até o alto da montanha e ele vai levá-la para o alto e o fará tantas vezes quantas a sua finitude permita, pois esse é o sentido de sua vida e deve ser o sentido das nossas vidas, afinal a ação Política é o essencial da vida humana e a dignidade da Política, assim como a palavra, ou interação humana, é instrumento de evitar a violência.

  6. NÃO VOTE EM QUEM JÁ FOI
    terça-feira, 7 de novembro de 2017 – 10:05 hs

    O Eder Oliveira se assemelha àquele personagem do Jo Soares na televisão que permanece em coma durante 20 anos e depois acorda e não sabe nada do que aconteceu.

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