Democracia sem povo | Fábio Campana

Democracia sem povo

Governo não eleito, campeão mundial da impopularidade, aplica um programa de destruição de direitos sociais em nome de reformas econômicas de interesse do mercado

Liszt Vieira, O Globo

No Brasil e no mundo, a democracia parece ameaçada. O avanço da direita na Europa e nos EUA reduz o campo de atuação das forças democráticas.

Além do renascimento da direita, há questões de ordem estrutural que desafiam o regime democrático. Uma delas é o conflito entre a lentidão das decisões numa democracia e a velocidade no mundo da sociedade civil e do mercado.

Mais importante ainda é o conflito entre o horizonte de curto prazo da democracia, que renova seus representantes a cada quatro ou cinco anos, e problemas de longo prazo, como o meio ambiente, que exige uma visão estratégica muito além dos interesses eleitorais dos partidos. O que está em questão é um modelo econômico que destrói os recursos naturais e ameaça a sobrevivência da humanidade no planeta.

A esquerda e a direita muitas vezes se unem para apoiar projetos que degradam o meio ambiente. Diferenciam-se apenas quantos aos atores dessa degradação: a direita chama as empresas multinacionais, a esquerda prefere as empresas estatais. Em ambos os casos, o interesse público costuma estar ausente.

De um modo geral, enquanto a direita assume a perspectiva do mercado e desvaloriza o Estado, a esquerda faz o contrário. Mas há, pelo menos, três áreas em que ambas coincidem.

A primeira é a política energética. A direita e a esquerda valorizam o combustível fóssil e desprezam as energias alternativas não poluentes. Ambos veneram o pré-sal e consideram o meio ambiente um entrave ao desenvolvimento. Apoiam o modelo agroexportador (soja, minérios, carne, madeira) que não agrega valor e devasta as florestas e seus recursos. Ignoram os impactos ambientais do combustível fóssil que agravam o aquecimento global e provocam eventos climáticos extremos.

Enquanto isso, muitos países priorizam a pesquisa e o uso de energia solar, eólica e outras renováveis.

A segunda diz respeito ao patrimônio público. A direita defende a privatização do patrimônio público em favor de alguns ricos. A esquerda defende a privatização em favor de alguns pobres, em geral sem teto. Em ambos os casos, a sociedade fica excluída do acesso ao patrimônio público.

A terceira é a eterna questão da liberdade. A direita abandona seu discurso liberal e apoia regimes autoritários liberticidas sempre que seus interesses econômicos são ameaçados. Um bom exemplo é o apoio dos liberais às ditaduras militares na América Latina. A esquerda, por sua vez, apoia ditaduras autoritárias em nome da defesa de programas sociais e da repressão ao poder econômico.

Hoje, no Brasil, o retrocesso social e político corrói a democracia. Um governo não eleito, campeão mundial da impopularidade, aplica um programa de destruição de direitos sociais em nome de reformas econômicas de interesse do mercado. O sistema político faliu, se desgarrou da sociedade, se autoconcedeu privilégios, até mesmo impunidade, com a cumplicidade do STF.

Dois famosos economistas americanos, ganhadores do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, mostraram, na contramão do neoliberalismo dominante, que todo dinheiro nas mãos dos ricos vai para o mercado financeiro, e não para o investimento produtivo, porque a aplicação financeira rende mais.

E todo dinheiro nas mãos dos pobres vai para o consumo, o que incentiva a produção. Mas o Brasil, tradicionalmente, transfere renda do pobre para o rico pela estrutura tributária e também pelas “reformas” que penalizam os pobres e poupam os ricos.

A elite brasileira não respeita mais o princípio democrático de aceitar a decisão da maioria e respeitar as minorias. Lança mão de artifícios jurídicos e de corrupção para garantir seu poder e manter a odiosa desigualdade social do país. A rejeição da diversidade e da diferença transforma em inimigos os que lutam por sua identidade.

O Brasil é hoje o melhor exemplo da democracia sem povo, o que pode ser um oximoro, mas não é mais democracia. É bom lembrar um grande pensador liberal, Alexis de Tocqueville, que, preocupado com a tirania, disse certa vez que a anarquia não é o maior dos males que uma democracia deve temer, mas o menor.


3 comentários

  1. Uncle Joe
    domingo, 19 de novembro de 2017 – 16:07 hs

    Este cara só pode ser pestista, não porque condena o capitalismo e a direita, como se ambos fossem sinônimos mas porque não acredita que quem elegeu a presidenta não elegeu o presidento, então como é que o presidento assumiu o cargo da presidenta? Roubou-o? Pelo viés do cara sim, o presidento roubou o cargo da infeliz. Meu comentário se resume a isto e já basta.

  2. Sapoeletrico
    segunda-feira, 20 de novembro de 2017 – 3:10 hs

    Excelente texo do Liszt Vieira

    Acho que nosso povo se cansou de engolir a ideologia e a justiça da Esquerda, que defende bandidos e ditadores como o famigerado Nicolas Maduro, da Venezuela. Cansou-se de apoiar políticas podres como as de Cuba e outros países decadentes como Russia e Angola.

    A Esquerda, muitas vezes ateista, a exemplo dos petistas José Genoíno, apodrecendo na cadeia, em nada mais convence nosso povo, decididamente religioso, nem a mim!

    Não vim ao mundo para defender bandido, ideologias politicas decadentes.

    Ora, cansei!

    Liszt Vieira é um professor universitário, sociólogo e político brasileiro, ligado ao movimento ambientalista e à democratização da comunicação.

  3. romualdo carignano
    segunda-feira, 20 de novembro de 2017 – 8:28 hs

    Dizer que esse governo não foi eleito é chamar a população de ignorante. Foi vice da eleita presidenta e escolhido por Ela e seu
    partido. Quem elegeu a “presidenta” também votou no seu vice. Também é difícil ler esses artigos que culpam sempre as “elites” por tudo de mal que acontece. O Lula não era da “elite” mas toda a população está vendo o que Ele aprontou.

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*