O partido da Lava Jato | Fábio Campana

O partido da Lava Jato

Metamorfose começou a se manifestar quando alguns procuradores que integram a operação começaram a falar em ‘saneamento’ da política.

Editorial, Estadão

Aos poucos, a Lava Jato, que caminha para seu quarto ano, vai deixando de ser uma operação contra um esquema de corrupção em estatais e organismos de governo para se transformar em partido político. Essa metamorfose começou a se manifestar quando alguns procuradores que integram a operação começaram a falar em “saneamento” da política como seu principal objetivo. Ou seja, ao se atribuírem uma tarefa que claramente extrapola o escopo de seu trabalho, imiscuindo-se em seara que, numa democracia, é exclusiva dos eleitores e de seus representantes no Legislativo, esses procuradores acabaram por se comportar como militantes de um partido – e, como tal, passaram a tratar todos os críticos de sua “plataforma” como adversários políticos.

Em recente entrevista ao Estado, o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, deixou clara, de vez, essa disposição. Segundo Dallagnol, a Lava Jato não revelou apenas a corrupção de um político ou de um grupo, “mas de grande parte da classe política”. Por essa razão, “o objetivo da operação é colocar essas pessoas poderosas debaixo da lei”. Mas, segundo o procurador, “há um problema: elas fazem as leis”. Ou seja, a julgar pelo que diz o coordenador da Lava Jato, a operação só será considerada bem-sucedida se varrer do Congresso “grande parte da classe política”, gente que, em sua visão, faz leis exclusivamente para se proteger da Justiça.

Para atingir esse objetivo, prossegue o procurador Dallagnol, não basta simplesmente levar aos tribunais os políticos que a Lava Jato considera corruptos, pois “apenas punições não resolvem”. É preciso, segundo ele, “avançar para reformas anticorrupção no sistema político, no sistema de Justiça e em outras áreas”, razão pela qual a Lava Jato, a título de se proteger dos atuais políticos, que seriam seus inimigos, considera essencial eleger representantes “que tenham um compromisso claro com a causa anticorrupção”.

O nome disso é política partidária. Em lugar de se preocupar com a obtenção de provas para sustentar as muitas acusações feitas contra políticos, alguns integrantes da Lava Jato parecem mais empenhados em construir a imagem de que a operação veio para salvar o Brasil e que ela se transformou em “patrimônio nacional”, conforme as palavras do procurador Dallagnol. Tornou-se assim, segundo essa visão, não apenas inatacável, mas também única intérprete autorizada dos anseios nacionais.

O problema é que a sociedade dificilmente concordará com isso. “É impossível prever o que acontecerá porque depende de um fator que ninguém controla: como a sociedade vai se comportar no futuro”, reconhece Dallagnol, admitindo que os eleitores eventualmente podem discordar da “plataforma política” da Lava Jato. Se os parlamentares eleitos pelo voto direto – legítimos representantes dos cidadãos – decidirem que algumas das leis e reformas propostas pelo partido da Lava Jato não servem para o País, isso não significa uma vitória da corrupção nem uma derrota da operação, e sim uma rejeição ao que poderia ser desde uma ideia qualquer até uma agressão ao Estado de Direito. Foi o que aconteceu quando o Congresso se recusou a aprovar o pacote de medidas anticorrupção proposto pelos procuradores da Lava Jato e que incluíam barbaridades como a aceitação de provas obtidas ilicitamente, restrições ao habeas corpus e fim dos prazos de prescrição.

A Lava Jato alcançou grande sucesso – e mudou a percepção de que tudo o que envolve gente poderosa acaba em pizza – quando se limitou a investigar a trama de relações promíscuas instalada na máquina do Estado desde que o PT chegou ao poder. De forma inteligente e sofisticada, a operação mostrou do que é capaz uma ação bem coordenada entre Polícia Federal e Ministério Público, obtendo evidências suficientes para condenar gente muito graúda a vários anos de prisão e o ressarcimento de bilhões de reais aos cofres públicos.

Limitando-se a punir quem deve ser punido, a Lava Jato presta inestimável serviço ao País. Quando se comportam como candidatos em campanha, seus integrantes se arriscam a perder credibilidade.


3 comentários

  1. Victorino
    terça-feira, 24 de outubro de 2017 – 8:18 hs

    Que engraçado. Enquanto a Lava-jato só queria “pegar o Lula”, todo mundo era a favor. Quando ela começou a extrapolar os tentáculos do PT e começou a investigar todas as maracutaias dos políticos mais respeitáveis, aí ela virou política. A Lava-jato investiga corrupção, seja ela cometida por quaisquer empresários ou quaisquer políticos. E, caro blog, essa tarefa não extrapola a função de ninguém. Combater a corrupção é um dever de cada cidadão de bem. É síndrome de brasileiro medíocre achar que só se tira “político ladrão” com o voto.

  2. Jair Pedro
    terça-feira, 24 de outubro de 2017 – 9:20 hs

    Se não os militares para sanear este país, talvez esteja aí a solução.
    Minha maior esperança ainda são os militares. Que assumam, baixem um AI 05, 06 ou seja lá que número for, feche o STF, o Congresso e deem 48 horas para esse bando de malacos corruptos se escafederam do nosso Brasil.

  3. RICARDO JOHANSEN
    terça-feira, 24 de outubro de 2017 – 10:54 hs

    Caro FÁBIO, essa manifestação dos membros da Operação Lava Jato é concreta. Quanto mais parlamentares e empresários de alto escalão envolvidos em corrupção mais difícil está em enquadrá-los na lei, simplesmente por falta de pessoas colaborando para a limpeza, com o mesmo foco. Por isso , entendemos que a sociedade deveria exigir o FIM DO FORO DOS PRIVILEGIADOS. Esse instituo pode ser resguardado apenas aos presidentes dos 03 poderes, federal, estadual e municipal. O restante da lambarizada tem os mesmos direitos e deveres como cidadão. Atenciosamente.

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