Cunha: "Moro queria destruir a elite política. Conseguiu" | Fábio Campana

Cunha: “Moro queria destruir
a elite política. Conseguiu”

Preso há quase um ano, o homem que derrubou Dilma fala pela primeira vez. Ele denuncia um mercado clandestino de delações – e diz estar pronto para contar o que sabe à nova procuradora-geral da República.

Diego Escosteguy, Época

Trezentos e quarenta e cinco dias no cárcere não quebraram Eduardo Cunha. O homem que derrubou Dilma Rousseff, encerrando abruptamente 13 anos do PT no poder, pária para boa parte dos brasileiros, herói para alguns poucos, o homem que se consagrou como o mais vistoso preso da Lava Jato, esse homem que segue gerando memes e açulando paixões – eis um homem que se recusa a aceitar o destino que se lhe impôs, da política como passado e das grades como futuro. Cunha não aceita ser o que esperam dele: um presidiário obsequioso, a cumprir sem muxoxos sua sentença. “Sou um preso político”, disse, num encontro recente em Brasília, aquele cuja delação o presidente Michel Temer mais teme. Na primeira entrevista desde que foi preso, Cunha, cujo corpo, fala e espírito não traem um dia submetido ao xilindró, foi, bem, puro Cunha: articulado, incisivo, bélico. Falou da vida na prisão, da negociação frustrada de delação com o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e do que considera uma clara perseguição judicial contra ele. Acusou a existência de um mercado de delações premiadas, revelando detalhes substantivos. Pôs-se à disposição da sucessora de Janot para voltar a negociar sua delação, talvez sua única saída viável para escapar da cadeia – ele foi condenado em primeira instância e responde a processos por corrupção em Curitiba, Brasília e no Rio de Janeiro. A seguir, trechos da entrevista.

ÉPOCA – O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot não aceitou sua proposta de delação premiada. O senhor ainda está disposto a colaborar, caso a nova procuradora-geral, Raquel Dodge, aceite negociar?
Eduardo Cunha – Estou pronto para revelar tudo o que sei, com provas, datas, fatos, testemunhas, indicações de meios para corroborar o que posso dizer. Assinei um acordo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República, de negociação de colaboração, que ainda está válido. Estou disposto a conversar com a nova procuradora-geral. Tenho histórias quilométricas para contar, desde que haja boa-fé na negociação.

ÉPOCA – Não houve boa-fé na negociação com Janot?
Cunha – Claro que não. Nunca acreditei que minha delação daria certo com o Janot. Tanto que não deu.

ÉPOCA – Então, por que negociou com a equipe dele?
Cunha – Topei conversar para mostrar a todos que estou disposto a colaborar e a contar a verdade. Mas só uma criança acreditaria que Janot toparia uma delação comigo. E eu não sou uma criança. O Janot não queria a verdade; só queria me usar para derrubar o Michel Temer.

ÉPOCA – Como assim?
Cunha – Tenho muito a contar, mas não vou admitir o que não fiz. Não recebi qualquer pagamento do Joesley [Batista, dono da JBS] para manter silêncio sobre qualquer coisa. Em junho, quando fui depor à Polícia Federal sobre esse episódio, disse que tanto não mantinha silêncio algum que ninguém havia me chamado a colaborar, a quebrá-lo. Naquele momento, o Ministério Público e a Polícia Federal me procuraram para fazer colaboração. Autorizei meus advogados a negociar com o MP.

ÉPOCA – O que deu errado?
Cunha – Janot queria que eu colocasse mentiras na delação para derrubar o Michel Temer. Se vão derrubar ou não o Michel Temer, se ele fez algo de errado ou não, é uma outra história. Mas não vão me usar para confirmar algo que não fiz, para atender aos interesses políticos do Janot. Ele operou politicamente esse processo de delações.

ÉPOCA – O que há de político nas delações?
Cunha – O Janot, na verdade, queria um terceiro mandato. Mas seria difícil, tempo demais para um só. O candidato dele era o Nicolao Dino [vice de Janot], mas a resistência ao Dino no PMDB era forte. Se o Dino estivesse fora, a Raquel Dodge, desafeto do grupo dele, seria escolhida. É nesse contexto que aparece aquela delação absurda da JBS. O Janot viu a oportunidade de tirar o Michel Temer e conseguir fazer o sucessor dele na PGR.

ÉPOCA – O que há de absurdo na delação da JBS? Ou o senhor se refere aos benefícios concedidos aos delatores?
Cunha – O Joesley fez uma delação seletiva, para atender aos interesses dele e do Janot. Há omissões graves na delação dele. O Joesley poupou muito o PT. Escondeu que nos reunimos, eu e Joesley, quatro horas com o Lula, na véspera do impeachment. O Lula estava tentando me convencer a parar o impeachment. Isso é só um pequeno exemplo. Eu traria muitos fatos que tornariam inviável a delação da JBS. Tenho conhecimento de omissões graves. Essa é uma das razões pelas quais minha delação não poderia sair com o Janot. Ele, com esses objetivos políticos, acabou criando uma trapalhada institucional, que culminou no episódio do áudio da JBS. Jogou uma nuvem de suspeição no Supremo sem base alguma.

ÉPOCA – Mas o que houve de político na negociação da delação do senhor?
Cunha – A maior prova de que Janot operou politicamente é que ele queria que eu admitisse que vendi o silêncio ao Joesley para poder usar na denúncia contra o Michel Temer. Não posso admitir aquilo que não fiz. Como não posso admitir culpa do que eu não fiz, inclusive nas ações que correm no Paraná. Estava disposto a trazer fatos na colaboração que não têm nada a ver com o que está exposto nas ações penais. Eles não queriam.

ÉPOCA – Havia algum outro fato que os procuradores queriam que você admitisse? Que não foi uma admissão espontânea, como determina a lei?
Cunha – Janot queria que eu colocasse na proposta de delação que houve pagamentos para deputados votarem a favor do impeachment. Isso nunca aconteceu. Um absurdo. Se o próprio Joesley confessou o contrário na delação dele, dizendo que se comprometeu a pagar deputados para votar contra o impeachment, de onde sai esse tipo de coisa? Qual o sentido? Mas aí essa história maluca, olha que surpresa, aparece na delação do Lúcio [Funaro, doleiro próximo a Cunha]. É uma operação política, não jurídica. Eles tiram as conclusões deles e obrigam a gente a confirmar. Os caras não aceitam quando você diz a verdade. Queriam que eu corroborasse um relatório da PF que me acusa de coisas que não existem. Não é verdade. Então não vou. Não vou.

ÉPOCA – Janot estabeleceu uma disputa entre o senhor e Funaro. Só um fecharia delação, por terem conhecimento de fatos semelhantes envolvendo o PMDB da Câmara.
Cunha – O Janot tem ódio de mim. Mas o ódio dele pelo Michel Temer passou a ser maior do que a mim. Então, se eu conseguisse derrubar o Michel Temer, ele aceitava. Mas eu não aceitei mentir. E ele preferiu usar o Lúcio Funaro de cavalo.

ÉPOCA – Alguma outra razão para a delação não ter saído?
Cunha – O que eu tenho para falar ia arrebentar a delação da JBS e ia debilitar a da Odebrecht. E agora posso acabar com a do Lúcio Funaro.

ÉPOCA – O que o senhor tem a contar de tão grave?
Cunha – Infelizmente, não posso adiantar, entrar no mérito desses casos. Quebraria meu acordo com a PGR. Eu honro meus acordos.

ÉPOCA – Nem no caso de Funaro? O senhor já mencionou um fato que diz ser falso.
Cunha – Ainda não tive acesso à íntegra da delação do Lúcio Funaro. Mas, pelo que li na imprensa e pelo que já tive conhecimento, há muito contrabando e mentiras ali. A delação do Lúcio Funaro foi feita única e exclusivamente pelo que ele ouviu dizer de mim. O problema é que ele disse que ouviu de mim coisas que não aconteceram. Como um encontro dele com Michel Temer e comigo na Base Aérea em São Paulo. Ou esse episódio da véspera do impeachment, de compra de deputados, que o Janot colocou na boca do Lúcio Funaro. Tudo que ele falou do Michel Temer que disse ter ouvido falar de mim é mentira. Ele não tinha acesso ao Michel Temer ou aos deputados. Eu tinha.

ÉPOCA – O senhor está preso preventivamente há quase um ano. Já foi condenado em primeira instância e ainda enfrenta inquéritos e ações penais em Curitiba e em Brasília. Tem esperança de sair da cadeia um dia?
Cunha – Minha prisão foi absurda. Não me prenderam de acordo com a lei, para investigar ou porque estivesse embaraçando os processos. Prenderam para ter um troféu político. O outro troféu é o Lula. Um troféu para cada lado. O MP e o Moro queriam ter um troféu político dos dois lados. Como Janot já era meu inimigo, todos da Lava Jato estavam atrás de mim. Mas acredito que o Supremo vá julgar meu habeas corpus, parado desde junho, e, ao seguir o entendimento já firmado na Corte, concedê-lo.

ÉPOCA – As decisões de Moro sobre a necessidade das preventivas na Lava Jato têm sido mantidas nas instâncias superiores. Não é um sinal de que ele está certo?
Cunha – Nós temos um juiz que se acha salvador da pátria. Ele quis montar uma operação Mãos Limpas no Brasil – uma operação com objetivo político. Queria destruir o establishment, a elite política. E conseguiu.


20 comentários

  1. PitBull
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 11:52 hs

    ELITE, NATA, PODRIDÃO..

  2. Político
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 11:53 hs

    Corrigindo Cunha, que teve o mérito de evitar que o PT destruísse o país, transformando-o numa Venezuela piorada (se é que isso é possível, pior que a Venezuela!). “Queria destruir o establishment, a elite política” deve se: “Queria destruir o establishment, a elite LADRAVAZ”. Agora sim, está correto.

  3. Morfeu
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 11:58 hs

    É isso mesmo, Cunha: MORO É O MAIOR HERÓI QUE O POVO JÁ TEVE!! Conseguiu arrebentar a bunda dos chefes ladrões de todas as máfias políticas do Brasil!!!

  4. SOLANGE LOPÉS
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 11:59 hs

    Que pena do Cunha. É um anjo de candura, um paladino da ordem e da decencia. FDP.

  5. henry
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 14:14 hs

    ELITE?? QUE ELITE? NÃO SABIA QUE QUADRILHAS DE corruPTos ERAM CHAMADAS DE elite. ESTE LIXO, ESCROTO E POLÍTICO DE QUINTA CATEGORIA, TEM QUE LAVAR A BOCA COM SODA CÁUSTICA PRA FALAR DO EXCELENTÍSSIMO JUIZ Dr. SERGIO MORO.

  6. Sergio Silvestre
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 15:18 hs

    O Cunha é um preso diferente,está na cadeia para estar seguro e a mafia da justiça sabe disso se solto.pode escancarar o golpe e inflar a ira das pessoas,na verdade o Cunha é o presidente,governa da cadeia e está num tipo de prisão que mais parece um spa,não foi submetido a tortura psicológica para deletar,ele pagou um preço mas recebeu benesses como manter sua filha e esposa tanto ladras como ele soltas.Ele não tem nada a dizer do Moro e sim agradecer a esse juiz parcial,golpista,sacana que deu grande prejuízo a nação e um dia terá de pagar por isso.Vai Cúnha bandido,seu lugar é ao lado deles,mas até quando .

  7. Juca
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 19:41 hs

    SS Calça Frouxa, não escreva quando estiver noiado. Só saem besteiras de sua cabeça doente!

  8. Edson
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 20:44 hs

    Não podemos esquecer que no começo o Cunha era aliado de Lula e Dilma!

  9. troll
    sábado, 30 de setembro de 2017 – 20:55 hs

    Tem um cara ai em cima que está cheirando 1 km de pó por dia( e misturado com esterco de vaca).
    Menos rapaz ,menos…
    Você virou uma auto caricatura .

  10. sábado, 30 de setembro de 2017 – 22:03 hs

    Nossa!!! Elite política????? KKKKKKKKKKKKKk Esses corruptos se acham a própria nobreza!!! Que apodreça na cadeia, ladrão,bandido.

  11. PitBull
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 0:02 hs

    Silvestrinho, Moro golpista? Vai te enxergar cara.
    Prejuizo à nação foram os 12 anos de PTralhas…
    Treze milhões de desempregados não te dizem nada?
    Vai querer colocar na conta do Moro ?

  12. Observador Atento
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 9:18 hs

    Sergio Silvestre como você é cego à realidade e aos fatos. Um pobre coitado. O Juiz Sergio Moro deu um grande prejuízo à nação? Quanta falta de visão e conhecimento. Quanta ignorância. Certamente tem como seu ídolo aquele que acredita nas próprias mentiras, Lula, o encantador de burros.

  13. PEDROCA DO SUDOESTE
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 9:47 hs

    Elite política ???……Cambada ,isso sim….Tem moral pra falar isso ? Boca suja…..Vai devolver os milhões que roubou, safado……

  14. Parreiras Rodrigues
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 10:58 hs

    PelamordeDeus: parem de dar mamonas a Sérgio Silvestre.

  15. Rock
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 11:20 hs

    Elite politica coisa nenhuma a única missão desse Juiz seletivo era acabar com o PT., mas parece que não conseguiu por que em todas as pesquisas Lula lidera e acho que graças ao Moro que deixou isso muito avista na ansiedade de agradar os seus patrões extrapolou e o povo percebeu sua perseguição contra o PT. e esta dando a resposta.

  16. falido e ainda mal pago
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 13:24 hs

    Elite política = Nata da roubalheira, corrupção e incomPTência!

  17. Do interior
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 15:53 hs

    Rock, “o povo” petista né, porque a maioria da população está apoiando Moro.

  18. Rock
    domingo, 1 de outubro de 2017 – 18:34 hs

    Vamos ver quem tem a maioria é nas urnas o Do interior.

  19. CAÇADOR DE VERMES PETISTAS
    segunda-feira, 2 de outubro de 2017 – 8:39 hs

    KKKKKKKKKKKKKKK
    ELITE ou QUADRILHA????

    Bando de vagabundos.
    Moro esta com apoio popular promovendo uma limpa dessa corja de bandidos isso sim

  20. PEDRO CHEEMELLO
    segunda-feira, 2 de outubro de 2017 – 23:46 hs

    POR QUE? QUE TODOS OS ASSASSINOS.. BANDIDOS… LADRÕES…CORRUPTOS… SÃO “INJUSTAMENTE” PROCESSADOS E PRESOS….QUE PENINHA DELES…KKKK

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