A Seleção Brasileira e o STF, segundo Deonísio da Silva | Fábio Campana

A Seleção Brasileira e o STF,
segundo Deonísio da Silva

O escritor, professor, comunicador Deonísio da Silva escreveu um texto que deve ser lido por todos, pois dá uma ideia peerfeita do Brasil de hoje, esse que nos faz viver de olho nos tribunais. É o que segue:

Antigamente todos sabiam de cor a seleção brasileira. Agora poucos têm ideia de quem sejam os convocados, mas sabem o nome de cada juiz do STF.

Na linguagem de quando sabíamos de cor os nomes dos jogadores da seleção, o Brasil está em campo com Cármen Lúcia no gol, Alexandre de Moraes pela lateral direita, Dias Toffoli pela lateral esquerda. Os zagueiros são Luiz Fux pela direita e Ricardo Lewandowski pela esquerda, mas às vezes eles trocam de posição.

No meio de campo atuam três: Gilmar e os dois de Mello: Celso de Mello joga mais como volante, e Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello são meias-armadores. De vez em quando os dois são acusados de armar também alguma confusão.

No ataque, seguindo o sistema 4-3-3, temos Edson Fachin de centroavante, Roberto Barroso pela meia-esquerda e Rosa Webber na ponta-esquerda, mas esta última recua para ajudar a defesa em momento de perigo, como fazia Zagalo antes de dobrar o ele do sobrenome e o Cabo da Boa Esperança, o que fez de uma tacada só. Como se vê, não temos ponta-direita, a menos que adiantemos alguém do meio de campo

A popularidade dos ministros do Supremo e o desconhecimento de quem são os companheiros de Neymar indicam que algo não vai bem no Brasil, seja no futebol, seja no Judiciário. Quando os brasileiros sabiam de cor a seleção, não sabiam o nome de um único juiz do Supremo Tribunal Federal, mais conhecido por STF e por Supremo, simplesmente.

O único juiz que eles conheciam era Armando Marques, de quem declinavam o nome completo de tanto os locutores esportivos anunciarem que quem ia apitar o jogo era Sua Senhoria Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques. Muitos pensavam que Sua Senhoria eram dois dos tantos prenomes e nomes do juiz. E nem adiantava antes, como não adianta hoje, contrariar o povo e querer designar juiz por árbitro. Como xingar ladrão com uma proparoxítona?

Nossa língua prefere as paroxítonas. Não dizemos “cávalo”. Dizemos “caválo”, como se estivéssemos cansados e precisássemos, antes de assentar nossa decisão em ata, sentar no lombo do cavalo sem acentuá-lo.

Quando não há paroxítonas à mão, usamos oxítonas, como cafuné, jacaré, café. Mas só usamos proparoxítonas em caso de extrema necessidade, como cágado, por exemplo. Nada entendemos de quelônios. Somos pobres de vocabulário, mas somos limpinhos e preferimos a conversa clara, a única a garantir o trato justo.

Todavia de uns anos para cá os onze ministros do STF, sempre cheios de efes e erres e lotados de proparoxítonas para mandar algum político para o ergástulo, estão disputando todos os jogos de todas as séries. Alguns têm feito gols na banheira, em completo impedimento. Outros têm evitado gols à base de chutes nas leis e caneladas nos réus, nos advogados, na jurisprudência, na hermenêutica, nos agravos, nos embargos infringentes, nas vistas do processo, no regimento etc.

E não apareceu ainda nenhum Arnaldo César Coelho para dar cartão vermelho ou pelo menos amarelo para alguns deles, uma vez que a regra é clara. Nem tampouco um Carlos Eugênio Simon, que vive explicando que a regra é obscura.

Quem convocou o time do STF? Foram seis técnicos, pouco mais de um juiz por técnico, segundo a média. Dilma convocou quatro, e Lula, três. Sarney, Collor, FHC e Temer convocaram um cada um.

Precisamos voltar aos bons tempos, quando sabíamos de cor os nomes dos titulares e dos reservas da seleção brasileira e ignorávamos completamente quais eram os sábios jurisconsultos e procônsules do STF. Era santa aquela nossa ignorância.

Mas por que chegamos a tal situação? Tácito, historiador, orador e político da Roma Antiga resumiu em poucas palavras: “Corruptissima republica plurimae leges”, escreveu ele em Latim: “A república excessivamente corrupta precisa de muitas leis.”

O étimo de seu nome está nas palavras taciturno e tácito. Tácito é o que não precisa ser dito, é entendido sem que seja dito ou escrito, está implícito. E taciturno qualifica aquele que fala pouco ou está tomado pela tristeza.

Precisamos voltar a saber a seleção de cor e a ignorar quem são os ministros do STF. Daí as tristezas, que não pagam dívidas, vão embora. E volta a alegria, que é a prova dos noves.


3 comentários

  1. ALCIR LUIZ FREISLEBEN
    quarta-feira, 20 de setembro de 2017 – 11:58 hs

    Parabéns pelo belo artigo professor Deonísio.
    Estamos ficando acéfalos de referencias que nos transmitam confiança e, nesse momento de descredito o STF é a nossa única e derradeira esperança de colocarmos a casa em ordem.

  2. Maquiavel
    quarta-feira, 20 de setembro de 2017 – 12:07 hs

    Excelente texto. Primor de uso literário da linguagem chula dos jornais.

    Parabéns ao autor e ainda mais ao publicador.

  3. Parreiras Rodrigues
    quarta-feira, 20 de setembro de 2017 – 12:37 hs

    Dai, porque se pede o preenchimento de todos os cargos de todas as cortes, tribunais, inclusive os de contas dos estados, mediante concurs o público.

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*