A farsa acabou | Fábio Campana

A farsa acabou


O risco que corre o povo brasileiro é desacreditar de suas esperanças e cair nos braços de outro aventureiro ou psicopata

Rosiska Darcy de Oliveira

As máscaras caíram. La commedia è finita. A História, irônica como sempre, escolheu a Semana da Pátria para presentear os brasileiros com as imagens definitivas, irrefutáveis do fim de uma trama sórdida, urdida por uma gente abominável. Malas e malas de dinheiro sujo do ex-chefe da Secretaria de Governo de Temer, um depoimento frio e devastador contra Lula, uma gravação obscena e machista de um bandido armado com a poderosíssima arma que uma grande fortuna pode ser.

Que o Brasil tenha se tornado um acampamento de bandoleiros parece evidente. O que importa agora é que os Joesleys da vida estão encurralados, acabarão todos atrás das grades, onde já está Geddel, depois de uma boa e profilática limpeza de lava a jato. Essa é a melhor das notícias, o presente do Dia da Pátria.

Nos mesmos dias em que as fitas com o chorrilho de canalhices machistas de Joesley eram ouvidas no STF, em Curitiba Palocci contava ao juiz Sergio Moro o que muitos já sabíamos. Duzentos milhões de brasileiros ouviram do homem forte do governo Lula que o maior líder popular do Brasil, depositário não só das esperanças mas sobretudo do amor dos mais pobres, eloquente no discurso contra “eles”, os ricos, vivia a soldo “deles”, pedia milhões em propinas aos homens mais podres do Brasil. E recebia, fartamente. Dilma sabia das regras do jogo, jogando nas laterais. Eram “eles” que governavam o Brasil, embora os brasileiros acreditassem ter votado no Partido dos Trabalhadores.

O depoimento de Palocci, o Italiano das planilhas da Odebrecht, quebrou definitivamente os pés de barro do ídolo nacional que foi Lula, posto a nu na sua verdadeira condição de cúmplice do poder econômico mais corrupto. Sem apelação possível, ficaram demonstrados a periculosidade e o cinismo de uma organização criminosa que, sob o seu comando, governou o país por 16 anos.

É humilhante, sim, para o povo brasileiro, é uma traição terrível, uma decepção imensa para os milhões que o elegeram, mas é a verdade necessária que desconstrói os mitos e permite refundar a vida democrática.

Quando alguém é traído, no amor ou na amizade, o grande risco é perder a capacidade de amar. Na política, os melhores sentimentos podem deslizar para o desencanto. O risco que corre o povo brasileiro é, em um surto de depressão nacional, desacreditar de suas esperanças e cair nos braços de outro aventureiro ou psicopata, já que isso não falta na lista de pretendentes à sucessão de Lula no coração do povo. Um Lula ameaçado de passar as eleições de 2018 na cadeia.

Não me inscrevo entre os deprimidos. Indignada, sim, estou há décadas, com a obscena desigualdade deste país injusto, com a ditadura que ganhei de presente de 20 anos, com a progressiva usura dos sonhos de ver o Brasil tornar-se a grande nação que acreditei que ele fosse, com a evidencia da corrupção desvairada que, como um cupim, vai desfazendo o Estado brasileiro e contaminando a sociedade. Por tudo isso, creio que estamos vivendo um momento de travessia e de ruptura. Nada será como antes.

O ministro Luís Roberto Barroso, clarividente, aposta em uma revolução silenciosa em curso. “O velho já morreu, só falta remover os corpos. O novo vem vindo. Há uma imensa demanda por integridade, idealismo e patriotismo. Essa é a energia para mudar o curso da História”, escreveu em artigo recente.

Não é hora para depressão, ao contrário, é preciso celebrar essa revolução silenciosa e usar essa energia que a raiva e a frustração alimentam para fortalecer essas demandas que exprimem um querer coletivo.

A exigência de integridade é condição para governar, já que é obvia a relação de causa e efeito entre a pobreza e a corrupção, a ineficiência dos serviços e o assalto aos cofres públicos.

Idealismo, porque nunca tantos se preocuparam tão intensamente com o destino do país, opinando nas redes e nas ruas. E se há visões contrárias, o que é da natureza da democracia, são interpretações diferentes de um mesmo desejo de viver em um país mais justo. A lenda da juventude apática caiu por terra.

É preciso coragem para falar em patriotismo desde que o perigosíssimo Jair Bolsonaro usurpou a palavra para batizar seu partido fascistoide. No texto de Barroso essa palavra é reinvestida pelo que de fato é, o sentimento cálido de pertencimento, real, que todos conhecemos desde a infância e que nos leva a querer contribuir para tirar o país da tragédia em que mergulhamos.

A Semana da Pátria foi gloriosa. A farsa acabou. Caiu o pano. Desmascarados, nos bastidores, o salve-se quem puder.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora


6 comentários

  1. Político
    sábado, 9 de setembro de 2017 – 12:17 hs

    Concordo em quase tudo com Dona Rosiska. Discordo apenas na referência a Luís Roberto Barroso. Apesar de suas palavras, é um PTista que ajudou Dilma a brilhar em palácio e destruir o país.

  2. Soldano
    sábado, 9 de setembro de 2017 – 12:33 hs

    Bom texto, só discordo sobre o “perigosissimo Jair Bolsonaro”, enfim, não sei porque ter medo de um patriota querer resgatar o Brasil ao estado de “ordem” pois caso contrário estaremos mergulhando o nosso país em uma guerra cível declarada, pois a classe política socialista se aliou as Farc/PCC criando um estado narco-claptocrata-globalista aqui no Brasil, ( isso fora a islamização) longe dos holofotes da grande mídia brasileira mantendo parte da população totalmente desinformada, e graças as redes sociais o país está resgatando pouco a pouco a perda do sentimento patriótico e honestidade na administração pública! A velha solução PT/PSDB/PMDB ( fingindo oposição um ao outro) acabou, esses e os demais partidos associados destruíram o país, só não enxerga isso que não quer!

  3. Willian
    sábado, 9 de setembro de 2017 – 14:28 hs

    Rosiska Darcy de Oliveira, Jair Bolsonaro é “perigosíssimo” porque??? Pelo fato de ser honesto??? Lula falou que Pelotas exporta viados mas Bolsonaro é homofóbico, Lula chamou algumas mulheres de grelo duro mas Bolsonaro que é machista, Lula que apóia ditaduras mas Bolsonaro que é facista, Rosica, ou voc^precisa estudar mais ou você faz parte da quadrilha esquerdopata. BOLSONARO 2018!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Manuel Maeder
    domingo, 10 de setembro de 2017 – 5:48 hs

    apesar do tom bom mocista e politicamente correto de dona Rosiska na verdade ela deixa bem claro de onde vem com o “perigosissimo Bolsonaro”. Perigoso porque dona Rosiska? Ta certo nao è nenhum estadista, e muito do que fala soa primario, mas depois de Dilma creio a barra de referencia para julgar capacidade intelectual de presidentes no BR esta la embaixo nao è mesmo? Ja tivemos um “principe da sociologia”, em seguida um “tosco analfabeto” , o resultado esta ahi. Talvez seja hora de dar uma chance para um “medio” em tudo, mais direto, menos comprometido com “acordoes”, e principalmente nao contaminado por essa doença do politicamente correto.

  5. Parreiras Rodrigues
    domingo, 10 de setembro de 2017 – 10:33 hs

    Quando o barco afunda, o navegante agarra-se a qualquer coisa que se lhe apareça pela frente, uma tábua mesmo que recheada de cupins.
    Tremo de medo quando a “salvação” do país parece repousar nas mãos dum despreparado, dum corrupto também, dum destrambelhado que se diz representante do período mais negro e sanguinolento da História. E que responde pelo nome de Bolsonaro.

  6. Daniel Fernandes
    domingo, 10 de setembro de 2017 – 13:14 hs

    Não apoio o Bolsonaro, mas sinceramente, o que tivemos até hoje a não ser aventureiros e psicopatas?
    Falar que vai dar chance aos psicopatas e aventureiros só pode ser piada….
    Pois foi só o que tivemos até hoje…

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