A delação do empreiteiro da Quadro Negro e suas incongruências | Fábio Campana

A delação do empreiteiro da Quadro Negro e suas incongruências

O dono da Construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, desde que se viu em maus lençóis pelas falcatruas que cometeu na construção de obras públicas, especialmente escolas, decidiu que iria negociar o que pudesse em delação premiada para escapar da prisão e outros prejuízos. Seguiu seu roteiro. Vestiu-se de vítima e localizou o inicio das relações abjetas entre ele e autoridades e agentes públicos, em Bituruna, cidade de Valdir Rossoni, chefe da Casa Civil, onde venceu licitações e construiu escolas.

A seguir, envolveu na mesma trama, como beneficiados, deputados que teriam recebido propina em troca do direcionamento de verbas da Assembleia repassadas ao executivo para obras de seu interesse. Aí envolveu o ex-diretor da Secretaria da Educação, Maurício Fanini, que seria o operador do esquema. E juntou na narrativa Valdir Rossoni, da época que presidia da Casa: Ademar Traiano presidente atual e outros. Para valorizar a denúncia, foi um pouco mais longe. Apontou o dedo para o deputado Tiago Amaral e para seu pai, Durval Amaral, presidente do Tribunal de Contas.

Mas isso era pouco. Para sensibilizar a Procuradoria que investiga o caso, passou para o outro lado da rua e incluiu membros do governo entre os delatados. Aumentou a dose e a importância dos acusados. Chegou a dizer que parte dos desvios de dinheiro descobertos pela Operação Quadro Negro serviriam para bancar as campanhas do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB). É o que consta na delação que ainda precisa ser conferida e homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O governador Beto Richa, que não conhece, nunca viu, nunca encontrou o empreiteiro, classificou, indignado, as declarações do delator como afirmações mentirosas de um criminoso que busca amenizar a sua pena.

Para entender o caso: O empreiteiro Eduardo Lopes de Souza é acusado de ter recebido dinheiro para construir escolas estaduais, cujas obras mal saíram do papel. As irregularidades são apuradas pela Operação Quadro Negro – o prejuízo ao cofre público é estimado em R$ 20 milhões. O governador nega as acusações.

A fraude

Segundo as investigações, a fraude contou com a ajuda do ex-diretor da Secretaria da Educação, Maurício Fanini, que se dizia amigo pessoal do governador. A equipe chefiada por ele era responsável por produzir relatórios sobre o andamento das obras contratadas junto à Valor.

Os técnicos preparavam documentos fraudados, indicando que as obras estavam em andamento avançado, quando na verdade seguiam a passos bem mais lentos.

Em um dos depoimentos da delação, Souza afirmou que Fanini mandava fazer as medições falsas porque não poderia faltar dinheiro para a campanha de Richa. Segundo o empresário, os dois esperavam levantar R$ 32 milhões para o governador, com os contratos que a Valor fechou com o poder público.

Para ganhar as licitações, Fanini orientou Souza a elaborar propostas com descontos agressivos. Depois, os dois acertariam os valores com aditivos contratuais, subindo o valor total das obras.

Em sete aditivos, a Valor recebeu cerca de R$ 6 milhões da Secretaria da Educação. Com essa tática, eles contavam que conseguiriam chegar aos R$ 32 milhões.

Souza contou aos investigadores que, entre abril e setembro de 2014, ele fazia os repasses diretamente a Fanini, na sala dele, no prédio da Superintendência de Educação. O empresário contou que entrava por uma porta lateral e Fanini dizia “banheiro”. Então, o dono da Valor ia até o vaso sanitário e pegava uma mochila, que enchia de dinheiro.

O empresário afirma que, em dado momento, perguntou a Fanini se o dinheiro realmente estava indo para a campanha de Richa. O ex-diretor teria dito que sim.

Dinheiro e vinho

Com a sequência das operações entre os dois, o volume de dinheiro começou a ficar muito alto. Conforme o relato de Souza, ele e Fanini começaram a se preocupar e pensaram em uma alternativa que consideraram mais segura.

Souza conta que passou a entregar o dinheiro com caixas de vinho. Ele diz que, das 12 garrafas, tirava 10 e preenchia o espaço aberto com o dinheiro. As duas garrafas que sobravam serviam para fazer barulho, quando alguém as pegasse. Com isso, não levantariam suspeitas.

Fanini e Richa

Para dar garantias ao empresário, Fanini sempre afirmava ser amigo pessoal de Beto Richa. Em novembro de 2014, o ex-diretor da Secretaria da Educação contou que viajaria com o governador. Ambos levariam as mulheres para passear no Caribe, no México, e em Miami, nos Estados Unidos. Fotos dessa viagem fazem parte de uma ação ligada às investigações da Operação Quadro Negro.

Conforme o depoimento, Fanini pediu US$ 20 mil para o empresário. Souza diz que procurou um doleiro, comprou US$ 40 mil e deu a metade para Fanini.

Mesada para Richa

No depoimento, Souza disse que começou a pagar uma mesada de R$ 100 mil para o governador. Em janeiro de 2015, Fanini o chamou para dizer que teve uma reunião com Richa e ficou acertado que precisariam levantar a quantia.

Segundo o delator, o ex-diretor da Secretaria afirmou que o dinheiro ajudaria a financiar a campanha de Beto Richa ao Senado, do irmão dele, Pepe Richa, para deputado federal, e do filho do governador, Marcelo Richa, para deputado estadual.

Souza afirma que concordou com a proposta e começou a fazer os repasses no mesmo mês da reunião. Os pagamentos seguiram, pelo menos, até junho de 2015, quando Fanini foi exonerado do cargo, pouco antes da descoberta das fraudes na Secretaria da Educação.


6 comentários

  1. antonio
    sexta-feira, 1 de setembro de 2017 – 14:01 hs

    Como se algum acusado, neste País, fosse afirmar que é culpado quando pego em alguma falcatrua. Sempre inocentes.

  2. Doutor Prolegômeno
    sexta-feira, 1 de setembro de 2017 – 14:30 hs

    Aprendi com gigantes do direito penal, como Luiz Alberto Machado e Ildefonso Marques, que a confissão era a rainha das provas. Hoje a confissão foi derrubada e a usurpadora delação é a nova rainha das provas.

  3. Gaúcho
    sexta-feira, 1 de setembro de 2017 – 14:32 hs

    Sempre os mesmos nomes são envolvidos na corrupção do governo Beto Richa, mas ninguém sabe de nada!!
    O mesmo ocorre quando colocam malaco no camburão e a resposta é; Não sei não senhor …!

  4. Jose Nascimento
    sexta-feira, 1 de setembro de 2017 – 14:35 hs

    Nessa corrida do PSDB, E Gleisy, pra ver quem chega primeiro ao brejo, acho que a Galega, leva vantagem por ser mulher.

  5. Toribio
    sexta-feira, 1 de setembro de 2017 – 15:24 hs

    Receber rolex de presente de quem voce nem conhece direito é comum?

  6. Luiz Belmiro
    sábado, 2 de setembro de 2017 – 15:14 hs

    Sempre a mesma história, quando a delação é contra meu adversário ela está acima de qualquer suspeita, quando é contra mim tudo não passa de mentira. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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