Um país não pode se desenvolver sem investimento em conhecimento | Fábio Campana

Um país não pode se desenvolver sem investimento em conhecimento

por Júlio Felix

É plenamente sabido e aceito que as nações que adotam políticas efetivas de ciência, tecnologia e inovação, costumam investir entre 2% e 4% do PIB nessas áreas. Não é o caso do Brasil, que jamais chegou perto de 2%, tendo ficado em torno de 1% ou um pouco mais, situação que vem regredindo. O Brasil vive hoje um momento de muita preocupação em toda a comunidade científica e tecnológica.

A pergunta recorrente é sobre como lidar com os contingenciamentos para a área, que neste ano sofre um corte de 44% no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Como explicar, por exemplo, o fechamento, por falta de recursos, da Fundação de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (Cientec) e da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec).

Hoje, não são empenhados esforços para melhorar as boas práticas de gestão nas organizações de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Ao contrário, elas vêm sendo fortemente tolhidas, em todos os aspectos. O descaso do Estado tira o sangue que supre esse paciente em situação quase terminal. Em vez de equacionar serenamente o grave problema, está-se aniquilando as possíveis soluções.

É preciso buscar saídas. O Brasil é um país em que o Estado é o maior comprador. E esse poder de compra do pode ajudar a alavancar a ciência e tecnologia.

Há exemplos muito recentes, como os do Ministério da Saúde, que usa o poder de compra para desenvolver medicamentos inovadores e tem apoiado a transferência de tecnologia para que criemos realmente no País a possibilidade de reduzir o custo para a saúde pública.

Somente por meio das Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDP), aprovadas em 2013, o Ministério economizou em torno de 60% na compra de medicamentos biológicos, que estão entre os mais caros e são usados para tratar doenças graves como artrite reumatoide e diversos tipos de câncer. Este é o uso benéfico da compra do Estado.

Sem minimizar o papel das universidades, os institutos e centros de pesquisa são particularmente importantes, especialmente nesse momento em que se apresentam novas formas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação – como a Internet das Coisas (IoT, da sigla em inglês), Indústria 4.0, Agricultura 4.0, Startups, Fab. Labs, Inovação Aberta, Pesquisa Cooperativa e outras.

Os institutos e centros de pesquisa nesse cenário desempenhariam um papel crucial entre as atividades de pesquisa científica nas universidades e as novas demandas do setor produtivo. No entanto, o estado falimentar em que se encontram não permite que esse papel seja exercido a contento, inclusive no que respeita à cooperação internacional, onde estamos perdendo boas chances de desenvolvimento de tecnologias que interessam estrategicamente ao País.

Outra saída para a área da ciência, tecnologia e inovação é utilizar recursos que não sejam do orçamento, que está sempre suscetível a cortes. Um exemplo são os fundos setoriais de CT&I, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Diante de um cenário instável, o único caminho para amenizar a situação é o uso dos fundos. Entretanto, eles também viraram uma peça orçamentária. Ou seja, uma peça de ficção. Assim, o problema está na falta de previsibilidade, não somente de indisponibilidade de recursos.

O sistema bancário, por sua vez não têm uma estratégia de atuar no contexto da pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação; os que o fazem atuam como agentes do BNDES, mas não com o dinamismo que a economia do País poderia esperar. É imprescindível no financiamento à PD&I que aos recursos públicos se somem os instrumentos privados de crédito, incluindo os fundos de riscos, com se depreende do cenário internacional

Está claro que o maior problema da ciência, tecnologia e inovação atualmente não está só na falta de recursos, mas na falta de compreensão da importância do setor por parte dos órgãos que deveriam apoiá-lo. Sem conhecimento, não há como desenvolver o País, em bases sustentáveis.

Júlio Felix é presidente do Tecpar – Instituto de Tecnologia do Paraná.


2 comentários

  1. terça-feira, 8 de agosto de 2017 – 8:38 hs

    Existe uma palavrinha mágica que define muito bem o que o Presidente da Tecpar
    Senhor Julio Felix aborda em seu artigo, diga – se de passagem com muita lucidez.O que realmente falta em nosso Pais é investir em EDUCAÇÃO.Sem educação não dá.Povo educado povo desenvolvido.

  2. Jaferrer
    terça-feira, 8 de agosto de 2017 – 18:31 hs

    Um país só se desenvolve e se torna respeitado, com autonomia em tecnologia e investimento maciço em educação. Nós vivemos no século XIX nos dois casos e não é por falta de cérebros.Professores e pesquisadores de ponta, temos aos montes, mas sem recursos para tocar simples laboratórios básicos. Falta sim cérebro para nossa classe política que insiste em considerar investimento em pesquisa, universidades e escolas, como despesa. Um Estado inchado, cuja classe política gasta o que não têm em privilégios, jamais entrará efetivamente no século XXI.

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