'Império das barrinhas de cereal' deu projeção a Rodrigo Rocha Loures | Fábio Campana

‘Império das barrinhas de cereal’ deu projeção a Rodrigo Rocha Loures

da Folha de S. Paulo

Quando chegou a São Paulo para prestar vestibular, na década de 1960, Rodrigo Rocha Loures, pai e homônimo do filho ex-deputado preso em Brasília, não conseguia dormir por causa do barulho. “Aquele barulho de trem, de bonde”, contou, numa palestra a estudantes.

Nascido em Curitiba, de tradicional família paranaense, seu destino era cuidar das fazendas dos Rocha Loures no norte do Paraná –pelo menos assim queria o pai.

Em vez disso, o jovem que sonhava em ser empreendedor cursou administração e foi um dos fundadores da Nutrimental, empresa de alimentação com faturamento de R$ 300 milhões, pioneira em barrinhas de cereal no Brasil.

O filho, atualmente detido no presídio da Papuda sob suspeita de receber propina da JBS, integrou um importante capítulo da história da empresa, que hoje vive um período de vacas magras –mas não por causa da prisão de Rodriguinho, afastado da diretoria desde 2002.

Ele foi o responsável, como gerente de marketing e novos mercados, por encampar a ideia da barrinha nos anos 1990, que virou o carro-chefe da empresa.

“É o Zé Alencarzinho do Paraná”, cunhou o presidente Lula sobre o então candidato a vice-governador do Paraná, na chapa de Osmar Dias (PDT), que perdeu a eleição. A comparação com o vice-presidente, o industrial José Alencar, parecia apropriada.

À época, a Nutrimental registrava recordes de faturamento. Fundada em 1968, ela foi uma das principais fornecedoras de merenda escolar no país. “Nós inventamos uma sopinha bem brasileira”, costuma dizer Rocha Loures, o pai, sobre o processamento de pó de feijão, cebola, alho e macarrão. A mistura, feita com tecnologia inédita, foi vendida em todo o Brasil por pouco mais de 20 anos.

Em 1991, suspeitas de superfaturamento suspenderam os contratos da empresa e de outras concorrentes com o governo federal. O TCU (Tribunal de Contas da União) relatou sobrepreço, pagamentos antecipados e aditivos em excesso. O governo deixou de pagar o que devia, e a maioria das empresas quebraram.

A barrinha foi a salvação da Nutrimental, inspirada em um “pé de moleque gringo”.

PÉ DE MOLEQUE

Quem levou a sugestão foi a antropóloga Mary Allegretti, que trabalhava com comunidades amazônicas e experimentou barrinhas de castanhas brasileiras nos EUA. Ela queria desenvolver produto semelhante numa empresa nacional, usando castanhas amazônicas e revertendo parte da renda aos produtores.

Allegretti não conhecia Rodriguinho. “Bati na porta e quem me atendeu foi o próprio”, conta à Folha. Recém-formado em Administração, ele tinha 24 anos. Foi “muito receptivo” à ideia, diz a antropóloga, e chegou a viajar ao Acre e Amapá para conhecer a produção de castanhas. “A equação era: a menor quantidade de castanha ao maior valor agregado possível”, contou o deputado, numa entrevista concedida em 2009. A ideia era preservar a floresta, sem extrair matéria-prima excessivamente.

A Nutrimental tinha tecnologia para isso: poucos anos antes, havia desenvolvido alimentação desidratada para o navegador Amyr Klink, que atravessou o Atlântico em um barco a remo.

Ao longo dos últimos 20 anos, a empresa se profissionalizou. Proibiu a ocupação de cargos executivos pelos sócios ou seus herdeiros, como forma de proteger a companhia, e instituiu um sistema de gestão horizontal, em que os funcionários participam das decisões. Pai e filho se afastaram da direção.

Demonstrando inclinação à política, o patriarca foi presidente da Federação das Indústrias do Paraná por oito anos e concorreu à Prefeitura de São José dos Pinhais, sede da Nutrimental, em 2012. Ficou em terceiro lugar.

“A empresa que só pensa no lucro é pobre. Não tem grandeza. A causa é que move as pessoas”, afirmou, em entrevista recente, Rocha Loures pai, que é considerado uma referência em sustentabilidade e inovação. Hoje, se dedica à defesa do filho.

Com a crise, a Nutrimental reduziu os investimentos a quase zero e cortou funcionários. O prejuízo nos últimos anos é de R$ 31 milhões.

Ainda é, porém, líder no mercado de barrinhas. Em 2016, parou de fornecer à administração pública brasileira –mercado que “não tem mais importância econômica para os negócios da empresa”, segundo a diretoria.

Na sua última campanha para deputado, em 2014, Rodriguinho esteve na Nutrimental. Circulou pela fábrica e distribuiu santinhos aos funcionários. Não se elegeu.


9 comentários

  1. Paulo Tadeu Macedo Neves
    domingo, 11 de junho de 2017 – 10:31 hs

    Realmente uma bela história de vida.
    Pena que não contou que a fortuna começou a crescer quando se juntou ao PT do Lula e Cia e começou a vender as barrinhas de cereais em todo o Brasil via Ministério da Educação.

  2. Olmir
    domingo, 11 de junho de 2017 – 11:04 hs

    É aguardar para ver a conclusão dessas histórias, mas a parece que segue na mesma trilha de outros nascidos em berço de ouro, no caso se enveredou para a política a parte ruim e ligada a crimes financeiros, a política suja e de corruptos aptos a enormidades de crimes para ter e se perpetuarem no poder, a exemplo mala de dinheiro e quotas semanais eternas, coisas pactuadas entre bandidos dos dois lados, os que lesam a patria e o país, e os que prejudicam seus sócios e entre esses acionistas empresas estatais e fundos de investimentos, coisas que políticos sérios, administradores responsáveis nunca deveriam pactuar e ou aceitar.
    Coisas de nascidos em berço de ouro, a exemplo de outros do país e particular a de famlia do estado´nascido em berço de our, de banqueiros, e outra parte vinda da política, se enveredaram para os crimes, das extorsões e estelionatos contra investidor, e ou seja usaram da oportunidade e má fé, perseguição, calunias e difamações, e mesmo atentados, e no exterior estocam recursos que de fato não lhes pertencem.

  3. Sergio R.
    domingo, 11 de junho de 2017 – 13:20 hs

    Já tem mais um capitulo para a biografia: Foi preso em 2017 correndo com uma mala repleta de dinheiro. Atualmente trocou a vida mansa, por um estágio na penitenciária da Papuda, onde aguarda que o dono da mala consiga soltá-lo, o que não parece difícil, já que todos os poderes apodreceram.

  4. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 13:36 hs

    Eu ia comentar, mas nem precisa.
    O texto já diz tudo.

  5. Jotinha
    domingo, 11 de junho de 2017 – 13:58 hs

    Pois é, empresário bem sucedido é besteira entrar para a política, a não ser que esqueça esse negócio de ganhar dinheiro; porque agente público já sabe que ali não é um meio de ficar rico, é um meio de prestar serviço à população, à sociedade; não adianata vir com essa conversar de fazer carreira, aposentar, até que pode, mas pra ficar rico é na situação privada, e não precisa roubar, basta ser sério, empreendedor, inteligente, de visão; aí o que acontece, enche os olhos, vai pra politica pra fazer um meio de vida e ficar rico, começa a meter a mão no dinheiro público, isso está errado; o agente público (aí envolve tanto os funcionários públicos como os politicos) tem de ter a certeza e a consciência que suas funções, seus cargos são criados para desenvolver o bem social, e pronto, não venham com outros objetivos, ou estão fadados ao fracasso; certamente não morrerão em paz, seja quais forem as conquistas.

  6. Parreiras Rodrigues
    domingo, 11 de junho de 2017 – 20:25 hs

    Exemplos de empresas que se deram mal com a entrada da família na política, temos dois salientes: Hermes Macedo, Banco Mercantil e Industrial do Paraná.

  7. Russel
    segunda-feira, 12 de junho de 2017 – 10:05 hs

    Estranho, muito estranho – ou não? Pelo menos seis vezes ao dia a Globo exibe nos seus noticiários a imagem do ex-chefe de Gabinete de Roberto Requião, seu padrinho político rodando uma mala de bordo em direção a um taxi. Dentro da mala haveria 500 mil reais e seria uma mesada para Temer durante 25 anos. A informação é de uma fonte da mais alta fidedignidade segundo o procurador Janot. É Ricardo Saud, o mão peluda dos irmãos Batista.
    O presidente fará 77 anos daqui a três meses. Um acordo de 25 anos expiraria quando ele estivesse com 102! Se de 30, 107. Até as pedras sabem que, se concluir o mandato, não manda mais nada, a exemplo de qualquer ex-presidente, a partir de 1º de janeiro de 2019. Como acreditar numa patuscada como essa? Mais: pensem na dificuldade para esconder R$ 500 mil a cada semana. Todos vimos o afobamento de Loures com a tal mala. Imaginem passar por isso quatro vezes por mês.

  8. JOHAN
    segunda-feira, 12 de junho de 2017 – 11:39 hs

    Caro FÁBIO, que vergonha para os membros da família ROCHA LOURES. Ter um ente querido como pombo correio, levador de dinheiro para o chefe, pois não era para ele ou a família. A que ponto chegou a queda de nível desse elemento ROCHA LOURES. Aparece sendo filmado apressado, correndinho com a mala na mão, preocupado com o corte de cabelo, que vergonha para os parceiros, colegas parlamentares corruptos.São os sinais da decadência dos parlamentares do país. COMO VOTAR EM 2018 NOS CANDIDATOS DAS QUADRILHAS PT, PMDB, PSDB, PP, PSD, PDT. Com que cara olhar para os filhos. Atenciosamente. .

  9. Jessica Claudia
    terça-feira, 13 de junho de 2017 – 13:11 hs

    Eu NÃO compro NUTRI !!

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