Eleitores à deriva | Fábio Campana

Eleitores à deriva

Editorial, Folha de S. Paulo

A disputa presidencial de 2014 mostrou um grau inédito de divisão no eleitorado do país, evidenciado pela estreita margem pela qual Dilma Rousseff (PT) superou Aécio Neves (PSDB).

Não será exagero, ainda, apontar que o pleito demarcou com razoável nitidez preferências partidárias e ideológicas dos votantes.

Em especial porque a candidata vitoriosa conduziu sua campanha, de modo tão agressivo como inconsequente, a demonizar adversários e quaisquer sugestões de reformas econômicas de teor liberal –que ela própria se viu obrigada a propor no segundo mandato que não concluiu.

É portanto particularmente esclarecedor verificar como essas duas fatias do eleitorado, dilmistas e aecistas de quase três anos atrás, contemplam agora suas opções para a corrida ao Planalto em 2018.

No primeiro grupo, menos da metade (46%) mantém a intenção de votar no PT quando o nome apresentado é o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo a mais nova pesquisa Datafolha.

O percentual cai a míseros 3% quando o candidato petista é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo —e a legenda, devastada pelo mensalão e pela Lava Jato, não dispõe de outras hipóteses palpáveis o bastante para serem consideradas na pesquisa.

No campo da centro-direita, a fragmentação é maior. Entre os que votaram em Aécio, hoje descartado dos cenários eleitorais plausíveis, não mais que 20% se inclinam por um tucano —e é o neófito João Doria, sucessor de Haddad, quem obtém a melhor marca.

No mesmo conjunto de entrevistados, o ultradireitista Jair Bolsonaro, do irrelevante PSC, consegue de 21% a 27% das intenções, a depender dos oponentes.

É evidente que, dada a distância do pleito, os números ainda dizem muito pouco sobre as chances de uns e outros. O que eles demonstram, com eloquência, é o impressionante esvaziamento dos principais partidos e a ausência, ao menos até aqui, de alternativas claras capazes de preencher as lacunas.

Marina Silva (Rede), derrotada nas duas últimas disputas, lidera nos cenários que excluem Lula, com até 27% entre todos os ouvidos. Declarações espontâneas de voto na ex-senadora, porém, não passam de 1% (Bolsonaro tem 8%).

O cacique petista mantém-se competitivo, com 30% das intenções gerais e liderança folgada no Norte e no Nordeste. Mas, sendo réu em cinco ações penais, a própria possibilidade de tornar-se candidato suscita dúvidas.

Ademais, os brasileiros que o rejeitam, 46% do total, compõem a parcela provavelmente mais decisiva de um eleitorado à deriva.


5 comentários

  1. Doutor Prolegômeno
    quarta-feira, 28 de junho de 2017 – 10:27 hs

    Desde quando os eleitores tiveram alguma importância no Brasil. Para os políticos são massa de manobra, gado a ser tangido, do pasto ao matadouro, por meio de marqueteiros que servem à qualquer candidato de qualquer partido, desde que regiamente pagos. Para a justiça são a base de sustentação de um sistema judicial de custos bilionários, que justificam os resultados em cinco minutos após o pleito, sendo um fim em si mesmo. Eleitor no Brasil não vale dez réis de mel coado. É uma palavra na boca de políticos, juristas e cientistas.

  2. PEDROCA DO SUDOESTE
    quarta-feira, 28 de junho de 2017 – 10:36 hs

    Como se observa, pela leitura das pesquisas, os PETISTAS, pode até ser um poste ,votam com certeza no PT. A direita está dividida,o que provavelmente demonstra como será um segundo turno. O dilema e problema, são os grandes grupos capilalistas nesse país, que irão apoiar os 02 lados mais fortes com certeza, as investigações em Lava Jato e tal demonstram isso, patrocinam todos , assim sempre ficam de boa. E,o povo que se dane, que se lasque, fica brigando entre si, enquanto eles se divertem no poder.

  3. Jorge Armado
    quarta-feira, 28 de junho de 2017 – 11:51 hs

    Bobagem da imprensa comuno-petista. Há o PSDB, o partido que inventou a honestidade no Brasil, com seu “Dream Team”: Serra, Alckmin, Aloysio Nunes, Aécio e o político mais brilhante de todos, o governador do Paraná, inventor do choque de gestão e executor da mais sensacional gestão pública da história da humanidade. Os políticos parananenses são um exemplo para o Brasil. É impossível não se orgulhar de Ricardo Barros, Cida Borgheti (& filha), Reinhold Stephanes (pai & filho), Alexandre Cury, Nelson Justus, Rafael Greca, Ademar Traiano, LC Romanelli, além é claro, do incomparável Beto Richa. O Paraná mostra ao Brasil, ao mundo , e ao sistema solar (e quiçá ao resto do universo) que existe política de qualidade, e que o melhor está por vir, sempre.

  4. JOHAN
    quarta-feira, 28 de junho de 2017 – 17:43 hs

    Caro FÁBIO, essa avaliação de nitidez preferências partidárias e ideológicas dos votantes.daqui para frente será conduzida por outros vetores de indignação, que podem ser classificados como os candidatos NÃO CORRUPTOS e os CORRUPTOS. Ficará mais fácil para o eleitor. Os candidatos terão que afirmar de qual grupo pertencem. Atenciosamente.

  5. eleitor desmemoriado
    quarta-feira, 28 de junho de 2017 – 19:12 hs

    Nunca nos esqueçamos de que o o eleitorado pestista nunca passou de 305, e pestista é como evangélico, só vota em pestista ou em quem o pastor mandar. Infelizmente corremos sérios riscos de ver o 51 no Poder de novamente. A falta de um candidato viável vai facilitar em muito o retorno ao passado e às práticas passadas, Mensalão, Petrolão e outras roubalheiras vão voltar ao nosso quotidiano.

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