E a guerra continua | Fábio Campana

E a guerra continua

Mary Zaidan

O resultado não surpreendeu. Já era previsto, conhecido, cravado nos jornais pelo menos um dia antes de o TSE derrotar, por 4 a 3, o pedido de cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer, reeleita em 2014. Também não causou estranheza a guerra que a votação alimentou, por vezes beirando a baixaria. Um espetáculo maniqueísta que há tempos constrange, inibe e empobrece o debate político.

Tem sido assim desde que o país foi dividido entre “nós”, os bons, e “eles”, os maus, prática comum de líderes populistas que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aplicou com sucesso durante o seu reinado.

Para que um ganhe, o outro tem de perder. Empate, nem pensar. Não há solução intermediária.

Trata-se de uma lógica simples, de fácil compreensão, similar à torcida pelo time do coração, paralelo que Lula adorava fazer. Mas sabidamente perigosa por antagonizar ideias, pessoas, e de forma irreconciliável.

E, assim como cada brasileiro vira técnico de futebol quando o seu clube favorito entra na disputa, torna-se juiz quando a bola quica nos tribunais.

Por defender a cassação de Temer, que pós-delação de Joesley Batista passou a encarnar todo o mal que assombra o país, o ministro Herman Benjamin, relator do processo no TSE, virou herói. E os que não seguiram o seu voto, bandidos, cúmplices da corrupção.

Voto decisivo para salvar Temer e também o responsável por ressuscitar a ação de banimento na beira do arquivo, o presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes, era, há pouco mais de um ano, o incensado da vez. Agora é o demônio da mesma torcida.

O relator apresentou objetividade e consistência em seus argumentos – e aqui não há qualquer juízo de valor –, mas isso não tira os méritos da discordância, não dá direito de desconsiderar o contraditório, taxando-o a priori de imoral.

Embutido no jeito de pensar e agir das torcidas políticas e espalhando-se perigosamente para o público em geral, o antagonismo permanente induzido por Lula ganhou vida própria e não é mais controlável. Deixou de dar frutos só para o lado que o cultiva. Semeia confusão e nutre a discórdia até quando os discordantes estão unidos.

O processo do TSE escancara isso: defensores de Dilma e Temer andaram de mãos dadas para tentar impedir a cassação. Os poucos dilmistas restantes tamparam o nariz para seguir ao lado do “golpista” Temer. Os também minoritários apoiadores fiéis de Temer, que bateram panelas e gritaram “Fora Dilma”, comemoraram. Muitos deles sem se dar conta de que o resultado do TSE é o passaporte para que Dilma dispute cargo eletivo em 2018, direito excepcionalmente concedido no ato do impeachment que ela poderia ter perdido na sexta-feira.

Se o resultado do julgamento foi o perdão parcial de Dilma e o alívio temporário para Temer, o mesmo não se pode dizer sobre as aguerridas galeras. Elas vão continuar se engalfinhando, jogando fora energias que poderiam estar sendo acumuladas para construir alternativas para uma crise que parece sem fim.

Investigar, julgar e punir corruptos é apenas uma parte do processo de recuperação.

Arvoro-me a dizer que o aprofundamento do buraco — aberto há pouco mais de uma década e no qual o país insiste em continuar enfiado – também é consequência da pouca lida com o contraditório. Da impaciência com a discordância, do estabelecimento de verdades de ocasião que viram mentiras dependendo do lado de quem as contam.

Mas os danos são ainda piores quando intolerância se combina ao juízo prévio de culpa de fulano ou sicrano, cujo determinante é a preferência, o gosto ou o oportunismo político. Postura admissível e usual no embate do Parlamento, no bate-boca de botequim, no disse-me-disse das redes sociais. Impensável nos tribunais, criminosa com o público, terrível para o país.


9 comentários

  1. VISIONÁRIO
    domingo, 11 de junho de 2017 – 11:27 hs

    Estamos no fundo do poço e hoje a sensação que paira pelo país
    é que se nada der certo este ano, pelo menos o Natal está chegan-
    do. Que triste esperança…

  2. eleitor desmemoriado
    domingo, 11 de junho de 2017 – 11:38 hs

    Vivemos em uma terra e um tempo em que coxinhas e mortandelas se dão as mãos, gatos e cachorros vivem de bem quando até dias atrás queriam se matar. Mas a vida é assim mesmo, é melhor assim do que tentar uma coisa nova, quem sabe ela dá certo, aí vamos ter que conviver com o novo, com o desconhecido? Então é melhor que fique tudo como está. Como dizem por aí, ruim com ele pior sem ele. Odeio este dito.

  3. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 12:13 hs

    A Mary tocou em um ponto bem importante. O tal comportamento maniqueísta, de sempre achar que as únicas coisas que existem são vencedores e perdedores.
    Ou seja, o meu ganho tem sempre de ser a perda de alguém.
    E esta ideologia permeia toda a sociedade: esportes, política, economia, ambiente profissional. Passa-se a ideia de que viver, em todos os sentidos, é ganhar e fazer seus competidores perder. Que apenas o ‘sucesso’ importa. Se você é segundo lugar, você é perdedor, e digno de pena.
    Para quem tiver interesse, estou lendo uma obra muito interessante sobre exatamente este assunto, as consequências sociológicas, econômicas, etc., da tal psicologia da competição irracional que permeia todas as sociedades atualmente.
    Bastante revelador e interessante.
    O livro é este:
    ‘No Contest – The Case Against Competition’, cujo autor é Alfie Kohn.
    Pode ser comprado na Amazon:
    https://www.amazon.com/No-Contest-Case-Against-Competition/dp/0395631254

    Não existe tradução para o português. Livros como este e muitos outros simplesmente não são traduzidos. Não vendem. Porcaria vende, e então quase só temos traduções de porcarias publicadas no Brasil.

    Para pensar como a ideologia da competição está entranhada e como altera nosso pensamento, basta ver a popularidade dos reality shows e de programas de calouros (despidos de todo e qualquer talento, e que no máximo conseguem gritar perto do tom certo da música, em vez de cantar).

  4. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 12:18 hs

    E a tal ideologia da competição afeta até mesmo a publicação de livros.
    Em vários lugares vemos publicadas listas dos livros mais vendidos.
    Não se sabe se eles entram na lista dos livros mais vendidos por vender, ou se eles vendem por aparecer na lista dos livros mais vendidos.
    E quando você examina qualquer um deles, você assusta-se.
    Geralmente são títulos de uma vacuidade intelectual espantosa.
    Só para lembrar.

  5. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 12:50 hs

    Já que sugeri um livro, gostaria de sugerir uma trilha sonora.
    Neste momento estou ouvindo ‘Jorge Ben Jor – A Tábua de Esmeralda (1972)’.
    E na fila para ouvir depois dele estão:
    ‘Clube da Esquina (1972)’
    ‘Cartola – Cartola II (1976)’
    ‘Os Mutantes – Os Mutantes (1968)’
    Para sugerir algumas horas de música boa.

  6. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 13:49 hs

    E antes que me tachem de ‘elitista’, como fizeram comigo em outro site, só digo o seguinte:
    Não é mais interessante tentarmos apreciar,descobrir, que algumas coisas são melhores que outras, e que o mérito não é democrático?
    Em vez de ater-se ao mínimo denominador comum, que é o que fazem muitos políticos popularescos, programas de televisão que querem nos levar a crer que o mais vendido é o melhor (e depois de muita repetição, acaba sendo mesmo o que as pessoas acham melhor) , que tal tentarmos discernir (novamente) uma hierarquia que vai do ruim ao excelente?
    O que vejo em todos os lugares é uma relativização dos méritos de tudo.
    Não existe mais ‘ruim’ e ‘bom’. Tudo é bom, pois é ‘democrático’ agir assim.
    E se fosse aponta o dedo e fala: ‘É ruim, é péssimo’ ao falar de algo ruim e péssimo, logo vem uma pessoa equivocada a dizer: ‘Quem é você para criticar? Eles vendem milhões de discos (livros, etc), são ricos e ‘famosérrimos’. Você é um nada que tem inveja.’
    Está bem. Só digo:
    ‘Nec audiendi qui solent dicere, Vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit’.
    Traduzindo:
    ‘E essas pessoas não devem ser ouvidas por quem continua dizendo que a voz do povo é a voz de Deus, já que a devassidão da multidão sempre está muito próxima da loucura.’

  7. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 13:50 hs

    Onde escrevi ‘E se fosse aponta’
    leia-se ‘E se fosse apontar’

  8. Daniel Fernandes
    domingo, 11 de junho de 2017 – 14:05 hs

    E para quem acha que sou ‘elitista’ (seja lá o que for que isto signifique), só digo (usando o linguajar apropriado):
    ‘Não tamu junto!’

  9. Veredito
    domingo, 11 de junho de 2017 – 15:18 hs

    Ninguém gosta de perder. Os do lado delá ficam fulos quando derrotados até em jogos de videogame. É a Lei de Gerson, que só interessa levar vantagem em tudo. Se o time deles perdem foi culpa do árbitro, se vencem foi porque jogaram melhor do que o adversário. Outro dia assisti Grêmio e Fluminense, dois a zero para os gaúchos, e um jogador carioca disse: ” jogamos melhor que o adversário mas perdemos o jogo”. Quem foi melhor que venceu ou quem perdeu? Assim caminha a humanidade….

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