Um ato nada banal | Fábio Campana

Um ato nada banal

Bernardo Mello Franco, Folha de S. Paulo

Segundo o juiz Sergio Moro, seria apenas um “ato banal”. Não foi bem isso, no entanto, o que se viu nesta quarta-feira em Curitiba. O depoimento de Lula durou quase cinco horas, mobilizou um exército de 1.700 policiais, interditou quarteirões inteiros e dividiu a capital paranaense em duas cidades.

De um lado, manifestantes de vermelho repetiam palavras de ordem em defesa do ex-presidente. Do outro, militantes em verde e amarelo gritavam o nome de Moro e agitavam um boneco inflável do petista com uniforme de presidiário. Parecia uma viagem no tempo de volta aos dias mais quentes da batalha do impeachment. Até a ex-presidente Dilma Rousseff reapareceu, desta vez para apoiar o padrinho político.

Enquanto Curitiba vivia a tensão do depoimento, Brasília assistia a cenas de bate-boca no Congresso. No plenário da Câmara, deputados do PT e do PSDB trocaram insultos. “Lave a boca para falar do presidente Lula!”, berrou o petista João Daniel. “Lave a sua!”, devolveu o tucano João Gualberto. “Mafioso”, “bandido”, “canalha” e “ladrão” foram outros termos gritados ao microfone.

A situação chegou ao ponto de um rottweiler da bancada da bala, o deputado-policial Alberto Fraga, pedir moderação aos colegas. “Daqui a alguns dias, vai vencer quem sair no tapa com o outro”, avisou.

Em Curitiba, Lula negou as acusações e se declarou vítima da “maior caçada jurídica” que um político brasileiro já sofreu. Moro disse não ter “desavença pessoal” com o petista e prometeu decidir com base na lei.

Não há quem acredite que o ex-presidente será absolvido em todos os processos da Lava Jato. A questão é saber se ele conseguirá evitar uma condenação em segunda instância, que o tiraria da eleição de 2018.

Embora Moro tenha dito que o encontro não seria “um confronto”, este foi o tom do fim da sessão. Juiz e réu trocaram acusações pelos ataques que têm recebido. O depoimento acabou, mas o embate vai continuar.


2 comentários

  1. Doutor Prolegômeno
    quinta-feira, 11 de maio de 2017 – 10:30 hs

    No sistema inquisitorial que vigora no processo penal bananeiro, tudo é banal. O juiz, a certa altura do processo, já está mais do que convencido da culpa ou não, e dirige todos os atos processuais no sentido dessa comprovação, apenas para coonestar seu convencimento. como diria meu velho pai, promotor de justiça das antigas no velho RJ. De resto, o juízo de piso no Brasil não passa de um juízo de instrução criminal, amealhando as provas. O juiz de piso, num sistema como este, nunca deveria julgar, porque já decidiu “in mente”. Deveria encaminhar o processo a um colegiado para julgar. O resto é balela.

  2. quinta-feira, 11 de maio de 2017 – 11:54 hs

    E a pergunta que não quer calar, quem vai pagar a conta deste bandido e seus cupinchas desocupados, toda essa mobilização policial nunca vista em Curitiba ou cidade alguma, e o povo as mínguas nas mãos dos bandidos, essa é mais uma prova que a bandidagem realmente manda no país.

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