A delação que é um escândalo | Fábio Campana

A delação que é
um escândalo


A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos crimes relatados. As histórias que a cercam são de enorme gravidade, indicando, no mínimo, o pouco cuidado com que se tratou um material com enorme potencial explosivo para o País

Editorial, Estadão

O vazamento da delação de Joesley Batista na semana passada deixou uma vez mais o País profundamente consternado, ao envolver em ações criminosas graduados personagens da vida nacional, a começar pelo presidente da República, Michel Temer. Surpreende que denúncias tão graves tenham sido divulgadas – assumindo, assim, ares de veracidade – sem que nada do que delas consta, e tampouco as circunstâncias que envolvem os fatos, tenha sido averiguado previamente. Tal açodamento foi, no mínimo, irresponsável. Haja vista as consequências da divulgação nos campos político, econômico e financeiro.

A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos crimes relatados. As histórias que a cercam são de enorme gravidade, indicando, no mínimo, o pouco cuidado com que se tratou um material com enorme potencial explosivo para o País.

Em primeiro lugar, causa escândalo o fato de que a principal notícia vazada na noite de quarta-feira passada não foi confirmada e, mesmo assim, o Ministério Público Federal (MPF) não fez qualquer retificação. Foi afirmado que um áudio gravado por Joesley Batista provava que o presidente Michel Temer havia dado anuência à compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro. Ainda que a conversa apresentada seja bastante constrangedora para o presidente Michel Temer pelo simples fato de ter sido travada com alguém da laia do senhor Joesley Batista, das palavras ouvidas não se comprova a alegada anuência presidencial. Ou seja, aquilo que tanto rebuliço vem causando na vida política e econômica do País desde a semana passada não foi comprovado e, pelo jeito, não o será, pelo simples fato de não existir.

Como o Broadcast – serviço de notícias em tempo real da Agência Estado – revelou no sábado passado, a gravação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer no Palácio do Jaburu não foi periciada antes de ser usada no pedido de abertura de inquérito contra o presidente. Ou seja, nem mesmo essa medida de elementar prudência foi adotada pelo Ministério Público Federal. Em razão de a denúncia envolver altas personalidades, seria curial dar os passos processuais com extrema segurança, até mesmo para evitar eventual nulidade da ação e consequente impunidade dos eventuais culpados. Tudo indica, no entanto, que o principal objetivo do MPF era obter notoriedade, e não fazer cumprir a lei.

A fragilidade da delação de Joesley Batista não se esgota nesses pontos. De forma um tanto surpreendente, o MPF não apresentou denúncia contra o colaborador, como se a revelação dos supostos crimes cometidos pelo presidente da República e por outros nomes importantes da vida nacional fosse suficiente para remir a pena do criminoso confesso. Trata-se de evidente abuso, a merecer pronta investigação da Justiça. Se, como o MPF denuncia, os crimes foram tão graves e abrangem toda a política nacional, é um grave e escandaloso erro – para dizer o mínimo – conferir perdão a quem os perpetrou e lucrou abundantemente. Note-se que a lei proíbe que se dê imunidade aos líderes de organização criminosa. Não seria essa a função dos senhores Joesley e Wesley Batista nos acontecimentos em questão?

Além disso, até o momento não foi apresentada uma possível razão que justificasse o procedimento seguido pelo MPF e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em relação à delação de Joesley Batista. Como não estava ligado à Operação Lava Jato, o caso deveria ter sido distribuído por sorteio, e não encaminhado diretamente ao ministro Edson Fachin.

A delação de Joesley Batista ainda expõe o Ministério Público em dois pontos muito sensíveis. O delator contou que o procurador Ângelo Goulart Villela, mediante pagamento de R$ 50 mil mensais, era seu informante dentro do MP. Ora, tal fato leva a checar com lupa todos os passos do empresário nesse processo de colaboração. Além disso, um procurador da República, que atuava muito próximo a Rodrigo Janot, deixou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para trabalhar no escritório que negocia com a própria PGR os termos da leniência do Grupo JBS. Tudo isso sem cumprir qualquer quarentena.

Ansiosamente, o País espera que avance o combate à corrupção. Tal avanço deve ser feito, porém, de forma menos descuidada.

A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos crimes relatados. As histórias que a cercam são de enorme gravidade, indicando, no mínimo, o pouco cuidado com que se tratou um material com enorme potencial explosivo para o País

Editorial, Estadão

O vazamento da delação de Joesley Batista na semana passada deixou uma vez mais o País profundamente consternado, ao envolver em ações criminosas graduados personagens da vida nacional, a começar pelo presidente da República, Michel Temer. Surpreende que denúncias tão graves tenham sido divulgadas – assumindo, assim, ares de veracidade – sem que nada do que delas consta, e tampouco as circunstâncias que envolvem os fatos, tenha sido averiguado previamente. Tal açodamento foi, no mínimo, irresponsável. Haja vista as consequências da divulgação nos campos político, econômico e financeiro.

A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos crimes relatados. As histórias que a cercam são de enorme gravidade, indicando, no mínimo, o pouco cuidado com que se tratou um material com enorme potencial explosivo para o País.

Em primeiro lugar, causa escândalo o fato de que a principal notícia vazada na noite de quarta-feira passada não foi confirmada e, mesmo assim, o Ministério Público Federal (MPF) não fez qualquer retificação. Foi afirmado que um áudio gravado por Joesley Batista provava que o presidente Michel Temer havia dado anuência à compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro. Ainda que a conversa apresentada seja bastante constrangedora para o presidente Michel Temer pelo simples fato de ter sido travada com alguém da laia do senhor Joesley Batista, das palavras ouvidas não se comprova a alegada anuência presidencial. Ou seja, aquilo que tanto rebuliço vem causando na vida política e econômica do País desde a semana passada não foi comprovado e, pelo jeito, não o será, pelo simples fato de não existir.

Como o Broadcast – serviço de notícias em tempo real da Agência Estado – revelou no sábado passado, a gravação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer no Palácio do Jaburu não foi periciada antes de ser usada no pedido de abertura de inquérito contra o presidente. Ou seja, nem mesmo essa medida de elementar prudência foi adotada pelo Ministério Público Federal. Em razão de a denúncia envolver altas personalidades, seria curial dar os passos processuais com extrema segurança, até mesmo para evitar eventual nulidade da ação e consequente impunidade dos eventuais culpados. Tudo indica, no entanto, que o principal objetivo do MPF era obter notoriedade, e não fazer cumprir a lei.

A fragilidade da delação de Joesley Batista não se esgota nesses pontos. De forma um tanto surpreendente, o MPF não apresentou denúncia contra o colaborador, como se a revelação dos supostos crimes cometidos pelo presidente da República e por outros nomes importantes da vida nacional fosse suficiente para remir a pena do criminoso confesso. Trata-se de evidente abuso, a merecer pronta investigação da Justiça. Se, como o MPF denuncia, os crimes foram tão graves e abrangem toda a política nacional, é um grave e escandaloso erro – para dizer o mínimo – conferir perdão a quem os perpetrou e lucrou abundantemente. Note-se que a lei proíbe que se dê imunidade aos líderes de organização criminosa. Não seria essa a função dos senhores Joesley e Wesley Batista nos acontecimentos em questão?

Além disso, até o momento não foi apresentada uma possível razão que justificasse o procedimento seguido pelo MPF e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em relação à delação de Joesley Batista. Como não estava ligado à Operação Lava Jato, o caso deveria ter sido distribuído por sorteio, e não encaminhado diretamente ao ministro Edson Fachin.

A delação de Joesley Batista ainda expõe o Ministério Público em dois pontos muito sensíveis. O delator contou que o procurador Ângelo Goulart Villela, mediante pagamento de R$ 50 mil mensais, era seu informante dentro do MP. Ora, tal fato leva a checar com lupa todos os passos do empresário nesse processo de colaboração. Além disso, um procurador da República, que atuava muito próximo a Rodrigo Janot, deixou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para trabalhar no escritório que negocia com a própria PGR os termos da leniência do Grupo JBS. Tudo isso sem cumprir qualquer quarentena.

Ansiosamente, o País espera que avance o combate à corrupção. Tal avanço deve ser feito, porém, de forma menos descuidada.


7 comentários

  1. PIMENTA PURA
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 10:56 hs

    O Brasil vive hoje um verdadeiro tsunami de notícias de falsidade
    e roubalheiras que superou muito a hiperinflação na era Sarney.
    Naquela época o medo era de que a inflação galopante rondava
    a casa dos tres dígitos e hoje o medo é perder tudo e ficar pelado,
    literalmente, às custas das roubalheiras do governo. Inflação, que
    inflação !!??

  2. VISIONÁRIO
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 11:00 hs

    A megadelação do Batista faz com que a imensa maioria dos bra-
    sileiros pensem em trocar de país e pelo menos por alguns poucos
    meses possamos fugir deste pesadelo. Ninguem aguenta mais ouvir
    só notícias ruins. A saúde financeira do país indo pra lona, saúde
    dos brasileiros na lata do lixo e os políticos e empresários desones-
    tos roubando com a maior cara de pau. Ninguem merece…

  3. terça-feira, 23 de maio de 2017 – 11:17 hs

    Esse País precisa começar a mudar de verdade. Respeitar o Princípio da Isonomia. Ou ele foi EXTIRPADO do ordenamento jurídico e ninguém ficou sabendo? O Marcelo Odebrecht está preso a quantos anos? E ainda tem mais pena a cumprir. Essa delação que beneficiou esses dois bandidos criminosos precisa ser revista. Foi um tapa na cara do povo brasileiro que cumpre a lei, trabalha, paga os impostos mais INJUSTOS do planeta. Somos o País da GLUTONARIA TRIBUTÁRIA. Exatamente por conta desse SISTEMA CORRUPTO que tomou conta de todas as instituições do Brasil. Em todas as esferas. Além de dar a mensagem a outras empresas que se fizerem a mesma coisa não serão punidas. Esse crime desses 2 irmãos vem sendo cometido a décadas. Foi meticulosamente, ardilosamente e engenhosamente preparado ao longo do tempo por ‘MENTES CRIMINOSAS’. Agiram com extremo e total ‘DOLO E MÁ-FÉ’. E recebem um ‘PRÊMIO’ por isso? Pelo conjunto da obra? Podemos relacionar nos anais jurídicos e no anedotário tupiniquim dessas terras d’além mar. Somos o País da PROPINOLÂNDIA. Precisamos passar esse País a limpo. O instituto da delação premiada não pode ser um ‘HABEAS CORPUS PREVENTIVO’. Nem ‘SALVO CONDUTO’ para o cometimento de todo e qualquer crime contra a economia nacional e o erário público. E ir curtir o fruto de seus roubos e crimes em apartamento de luxo na 5ª avenida na Big Apple em NY. E ainda querem determinar quanto pagar no ‘ACORDO DE LENIÊNCIA’ que a empresa está pleiteando. é UM INTERMINÁVEL rosário de ilegalidades. Que cobrem dessa empresa nesse acordo, se aprovado, o MÁXIMO que a lei permitir. E que ela seja impedida por um determinado tempo de negociar ações na bolsa. Brasil o País onde o BANDIDO CRIMINOSO diz quanto quer pagar. Além de devolver todo dinheiro que pegaram do BNDES. Aí sim está o segredo de TANTO SUCESSO EMPRESARIAL. Ligação espúria e criminosa com agentes públicos (políticos) corruptos e venais. Prisão para todos!…” – Profº Celso Bonfim

  4. Franchico
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 11:29 hs

    No fundo, no fundo, esta delação apenas confirmou o que a maioria os brasileiros já sabia, +/- 99% dos políticos são corruptos, e quando se candidatam a uma eleição, já pensam nos ganhos que terão com estes atos. Não sejamos ingênuos nem hipócritas, esta é nossa realidade atual, que espero que daqui para frente mude totalmente.

  5. TADEU ROCHA
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 11:36 hs

    RESUMINDO …. LULA , DILMA, TEMER …..ETC…..NÓS QUE VAMOS PAGAR, E VAMOS FICAR QUIETO, ESSE PATRÃO DOS BRASILEIROS É ISSO QUE ELES APRONTAM.

  6. Flávio Luiz
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 11:49 hs

    Parabéns Celso Bonfim , também penso assim como acredito a maioria dos Brasileiros hoje estão pensando . Minha conta de energia luz vai vencer o 2º talão , estou pensando como vou pagar pelo menos 1 senão corta e estes FDP só falam em milhão.

  7. Observador
    terça-feira, 23 de maio de 2017 – 13:02 hs

    Diante das revelações de que um ex- Procurador da República, ligado a Rodrigo Janot, deixou uma carreira estável e bem remunerada, para negociar o “belíssimo” acordo de delação premiada dos irmãos Batista, causa, no mínimo, estranheza. Alguém vai investigar isso?

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