A crise e as reformas | Fábio Campana

A crise e as reformas

É ilusão pensar que a solução para a crise passa por deixar de lado a análise das reformas, substituídas pela discussão de alternativas institucionais pouco ortodoxas

Editorial, Estadão

Ainda que a revelação do áudio da conversa de Joesley Batista com Michel Temer no Palácio do Jaburu não tenha trazido prova da anuência presidencial à suposta compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro, é certo que o vazamento da delação do empresário da JBS colocou uma vez mais o País em clima de profunda crise política e moral. Com os acontecimentos dos últimos dias, os defensores da purificação nacional pela via da devastação da política dão mais um passo em sua empreitada de extinguir qualquer resquício de confiança no sistema político.

Diante desse quadro preocupante, onde vicejam irresponsabilidade e oportunismo, não poucos vaticinam que as reformas previdenciária e trabalhista, levadas a cabo com tanto custo até agora pelo governo federal, se inviabilizaram. Já não haveria qualquer ambiente político-institucional para sua aprovação. Seria perda de tempo – apregoam – insistir nas reformas com essa crise política instaurada.

Tal raciocínio contém um grave engano. A saída da crise só virá com as reformas. É ilusão pensar que a solução para a crise passa por deixar de lado a análise das reformas, substituídas pela discussão de alternativas institucionais pouco ortodoxas, construídas quase sempre a partir de interesses pessoais, que pouco respeitam os trâmites constitucionais.

A superação da crise virá pelo trabalho responsável, com a atuação firme, serena e dentro dos estritos limites das atribuições institucionais de cada um dos Poderes. A maior contribuição, por exemplo, que o Supremo Tribunal Federal (STF) pode dar nesse momento é investigar, com a máxima diligência possível, o que lhe cabe investigar. E julgar, com igual presteza, os processos que lá estão há três anos.

O mesmo ocorre com os demais agentes e órgãos públicos. A força-tarefa da Lava Jato contribui para a superação da crise na medida em que faz avançar seu trabalho investigativo e persecutório na esfera penal, sem desandar para o jogo político, que não lhe compete. O presidente Michel Temer ajuda o País a sair da crise ao esclarecer de forma cabal o que se faz necessário esclarecer e, principalmente, ao manter bem firme o timão do governo. Há um País a ser governado, com sérias questões pesando sobre a vida nacional. Não custa lembrar que atualmente existem mais de 14 milhões de brasileiros desempregados. Há muito, portanto, o que fazer e a ninguém assiste o direito de obrigar o País a entrar em compasso de espera.

Nesse sentido, o Congresso Nacional tem uma responsabilidade especial pela superação da crise, já que está em suas mãos aprovar as tão necessárias reformas para que o País possa retornar aos trilhos do desenvolvimento econômico e social. Achar que a crise poderá ser superada com a suspensão dos trabalhos do Congresso é um perigoso equívoco, de alto custo econômico, social e institucional.

A reconstrução do País destroçado pela irresponsabilidade de Lula e Dilma não pode parar. E haveria uma criminosa paralisação caso os parlamentares deixassem de lado o trabalho que lhes cabe – a análise das reformas – à espera de uma solução utópica, nascida não se sabe de onde, que amainasse milagrosamente os ânimos exaltados da Nação.

Pedir a continuidade do trabalho pela aprovação das reformas previdenciária e trabalhista não significa fechar os olhos à crise. Ao contrário, olhar de frente a crise econômica, social, política e moral que assola o País conduz necessariamente à conclusão de que as instituições não podem parar de trabalhar. Afinal, o que temos pela frente não é uma crise teórica, que possa ser superada apenas com o decorrer do tempo ou com discussões acaloradas. Sua solução demanda desprendimento pessoal e trabalho.

Aos que consideram o Congresso e o governo frágeis – ilegítimos, diriam – para aprovar as reformas, vale lembrar que sua legitimidade se baseia na Constituição, e isso é mais que suficiente. Ao mesmo tempo, as reformas são o sustento do governo e também desse Congresso. É a única ponte que o País tem para atravessar esses tempos revoltos. Abandonar as reformas seria condenar o País ao desgoverno, no desvario de achar que a anarquia possa trazer alguma estabilidade. Não é disso que o País precisa.


6 comentários

  1. ieto
    segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 10:42 hs

    Quero cumprimentá-lo pelo texto expresso. Concordo em gênero, número e grau!
    As reformas são imprescindíveis.

  2. segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 10:53 hs

    “A grande diferença entre a ESQUERDA e a DIREITA no Brasil é que quando alguém da direita comete um crime nós exigimos punição. Prisão. Indisponibilização de bens. Cassação . Inelegibilidade. E vocês da esquerda? Nós não defendemos criminosos, seja de direita ou esquerda. PT ou PC do B. PMDB ou PSDB. Lula ou Dilma. Temer ou Aécio. Não interessa! São todos iguais. Tudo farinha estragada do mesmo saco roto e esfarrapado. Com RARÍSSIMAS EXCEÇÕES. A Bíblia diz ‘que não se deve por vinho bom em odres velhos’. O vinho é o nosso voto na próxima eleição. E os odres velhos são esses políticos corruptos profissionais de sempre. Não vote mais nos mesmos. Aprenda que a renovação faz bem para a democracia e para o Estado Democrático de Direito no País. Chega de tanta roubalheira. E também acho que não deveriam facilitar tanto assim para nenhum empresário corrupto. Seja da Odebrecht ou da JBS (FRIBOI). São tão corruptos e ladrões, até mais do que esses Agentes Públicos que eles corromperam. Prisão para eles também. A Delação Premiada não pode e não deve se transformar numa espécie de ‘HABEAS CORPUS PREVENTIVO’. Um salvo conduto para se praticar ilicitudes e sair impune delas. Isso também tem que mudar!…” – Profº Celso Bonfim

  3. Cínico
    segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 12:24 hs

    Assim não dá ! Lula, Dilma, PT são só esses os vilões ? PMDB, Temer e Cia são a solução ? A matéria podia ter o subtítulo ‘defendendo temer’

  4. Daniel Fernandes
    segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 12:38 hs

    Reforma da Previdência, sim.
    Mas esta reforma trabalhista que está aí, não dá.
    A única coisa com a qual concordo nesta reforma é a não obrigatoriedade das contribuições sindicais.
    O resto é apenas um jeito de criar uma nova classe o ‘Precariado’ (que sobrevive em condições precárias). Eles querem que o Precariado atualmente existente não sejam só os desempregados, mas os que têm um emprego (ou melhor, uma fração de um emprego, do jeito que a reforma trabalhista é neste momento.

  5. Luiz Henrique
    segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 13:59 hs

    Basta de palhaçada! Para as empresas uma série de isenções, perdões de multas, e outros benefícios mais. Para o funcionalismo público, mordomias vergonhosas como, por exemplo, o auxílio moradia para a caterva de juízes, e regra diferenciada para a aposentadoria. Para o restante da população reforma trabalhista e reforma previdenciária que são verdadeiras chibatadas no lombo dos trabalhadores. Ah, mas é importante para agradar o mercado? O grande empresariado e o mercado que vão para …

  6. Daniel Fernandes
    segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 14:11 hs

    Faço minhas as suas palavras, Luiz Henrique.

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