"Estamos longe de uma recuperação sólida e sustentável', diz economista | Fábio Campana

“Estamos longe de uma recuperação sólida e sustentável’, diz economista


Carlos Kawal, economista-chefe do banco Safra.

Thais Herédia entrevista Carlos Kawal, economista do Banco Safra.

Já estamos em abril e o quebra-cabeças do primeiro trimestre do ano vai ganhando mais peças. Há uma percepção de enfraquecimento do ritmo de recuperação da economia, tanto assim que a previsão média para o PIB feita dos economistas ouvidos pelo Banco Central baixou para 0,41%, ante 0,47% de uma semana atrás.

O que os analistas estão buscando é uma calibragem equilibrada entre os fatos, ou seja, os dados que já estão disponíveis, e as expectativas formadas pela alta da confiança de consumidores e empresários. Será que esta retomada da confiança vai se traduzir em maior crescimento nos próximos meses?

Eu fiz esta e outras perguntas ao economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawal. Ele me recebeu em seu escritório na semana passada e sugeriu cautela para quem acredita que “agora tudo vai virar” na economia. Mesmo sobre este início de ano, onde estão concentradas as esperanças de que o país tenha deixado a recessão para trás, Kawal prefere o conservadorismo até que todas as informações estejam completas.

“A ideia de um primeiro trimestre bastante robusto, alguma coisa em torno de 0,5%, está sendo revista para baixo”, ressalva o economista.

A seguir, os principais trechos da entrevista. As fotos são de Marcelo Brandt, do G1.

Já começamos a superar a crise ou apenas saímos da recessão?
Já são oito trimestres seguidos de contração do PIB. Em tese, tecnicamente sairemos da recessão se tivermos o primeiro trimestre positivo, mas até isso começa a ficar em dúvida. As divulgações que ocorreram sobre janeiro, comércio, indústria e serviços, foram fortemente no terreno negativo. A ideia de um primeiro tri bastante robusto, alguma coisa em torno de 0,5%, está sendo revista para baixo.

Nós estávamos com previsão de crescimento zero para o primeiro tri.

Começamos o ano imaginando que teríamos uma situação melhor e de repente nós reveríamos o PIB para cima. O que acabou não acontecendo. Faltam indicadores de fevereiro fechados, mas o que vimos até agora estão nos dando um certo conforto de ter ficado no zero. Isto coloca ideia de que se for 0,1%, tecnicamente saímos da recessão, mas está longe de ser algo que mostra uma recuperação solida e sustentável.

De onde pode vir a surpresa positiva?
Temos que levar em conta, do lado da oferta, que o PIB vai se beneficiar da safra agrícola, que gera um efeito importante da cadeia do agronegócio, da renda agrícola que sobe, mas é muito pouco a gente ficar otimista com a recuperação da economia porque houve uma excelente safra.

Isto obviamente ajuda. Mas tem aquela história. Não basta ter uma boa política econômica, também tem que dar sorte.

Na verdade, estamos com cenário internacional surpreendendo do lado positivo, [os preços] as commodities nos ajudando, o juro lá fora numa trajetória de alta moderada, os piores temores do governo Trump não se confirmaram. A queda dos preços dos alimentos ajudando o BC na sua tarefa de reduzir juros. Agora, a economia pegar tração e sair por si só numa recuperação mais rigorosa, mais sustentável, os dados do primeiro trimestre estão jogando um pouco de dúvida nesta direção.

Carlos Kawal, economista-chefe do banco Safra.
Se a expectativa de saída da recessão morrer na praia, que tipo de contaminação pode gerar na confiança, ou na própria recuperação da economia?
Temos que olhar o diagnóstico da situação. A gente sabe que no mercado de trabalho existe alguma sugestão, dada pelo Caged de fevereiro, de que está melhor. Mas a taxa de desemprego continuará subindo mais um pouco. O emprego não ajudará no curto prazo. Eu tenho insistido num diagnostico de que temos um país num processo de desalavancagem. Continuamos vendo empresas com balanços muito comprometidos, buscando reduzir passivos, cortando investimentos e fazendo esforço nessa direção.

É verdade que a taxa de juros está caindo. Olhando para frente a expectativa de inflação e os juros, é de queda. Mas quando olhamos pelo CDI, que é o que corrige as dívidas das empresas, e considera que é uma crise com componente de balanço (financeiro do setor privado) importante, a taxa de juros real ainda é muito alta.

O alto endividamento das empresas é um obstáculo para a retomada?
Sim, e o juro caiu pouco ainda frente a situação que elas têm. Endividamento de empresa em moeda local é essencialmente baseado no CDI. Isto significa que ele é beneficiado mais diretamente quando a Selic cai. Acontece que a taxa caiu pouco ainda. Isto dificulta este processo de desalavancagem que precisamos que chegue a um bom termo para que os empresários tomem coragem para voltar a investir, voltar a crescer.

Mas de novo, como aconteceu em meados de 2016, os indicadores de confiança estão subindo descolados desta realidade que você acabou de descrever.
Temos visto esta desconexão entre indicadores de confiança e a atividade em si. Quando vêm os dados da atividade, eles não acompanham. E tampouco o desemprego e os dados de crédito. A orientação da política econômica, principalmente a agenda das reformas, tudo isto continua na direção correta, mesmo com enormes dificuldades. Mas não vemos a recuperação vir na velocidade que gostaríamos e seria importante para mitigar os efeitos da crise, sobretudo o lado do desemprego.

A política fiscal está bloqueada, nos estados um quadro também de bastante contração. A compensação tem que vir do lado da política monetária. Agora passamos a prever que o juro termine em 8% este ano. De novo, tudo é uma questão de diagnóstico. Qual é o grande problema na economia? Fiscal estrutural, muito intervencionismo, muito problema nas empresas estatais. Estamos entrando na agenda microeconômica, tem muita coisa acontecendo na direção correta.

Carlos Kawal, economista-chefe do banco Safra.
Quem vai financiar esta travessia?
Estamos vendo certo renascimento do mercado de capitais. Esta temperatura é um contraponto positivo. Mesmo em renda variável, vemos muitas ofertas na prateleira. Tem também operações de renda fixa, além das operações de fusões e aquisições. Tudo isto está indo muito bem e ajuda a aumentar a velocidade de ajuste patrimonial das empresas.

Existe naturalmente uma dificuldade maior quando faz você faz isso com juros reais elevados. Não vejo que isto seja diagnóstico consensual entre economistas. Se este é um diagnóstico correto, ele reclama uma taxa de juros bem mais baixa neste momento para que a gente consiga sair deste atoleiro dado por esta herança de endividamento do setor empresarial e das famílias que ainda é bastante elevado.

Mas os juros já estão caindo e isto pode ajudar, não?
Há uma leitura de que o juro real de equilíbrio é de 5% a 6%. Isto não faz sentido. Como (poderia ser tão alto), se as empresas não têm capacidade de crescer? Tinha que ser bem menor. E se a situação é de recessão, tem que ir abaixo do juro de equilíbrio. Nós estamos muito distantes desta realidade.

A gente sabe que o governo não vai ser fonte de estimulo à atividade, ao contrário. A gente sabe que os bancos públicos também não vão ser fonte de estimulo, nem concessão de subsídios pela situação fiscal. Neste contexto, as condições financeiras ainda são bastante restritivas para que a gente tenha recuperação mais sustentável.

Está no momento de rever as expectativas para a economia?
Acho que está um pouco cedo. Ninguém quer sair falando que vamos ter mais um trimestre de recessão. Até porque a gente tem que fazer isto com cautela. Agora, sai um dado ruim, depois sai outro…Ainda assim, tem coisas boas acontecendo como o efeito da agricultura e do FGTS.

Eu sinto que tem gente dizendo ‘agora vai’, “vai dar a virada”. Não necessariamente será assim, não vamos ver um estrondo super forte da economia. Como vai se comportar o consumidor, por exemplo? Hoje a gente tem a ressaca de um aprendizado de que não vamos mais ter a conjuntura que tivemos no passado.


Um comentário

  1. DOUTOR OTTO
    quarta-feira, 12 de abril de 2017 – 14:13 hs

    Para um país que possui ( a população elege e reelege ) uma classe política deletéria como a do Brasil, todo castigo é pouco.

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