Por que os protestos fracassaram? | Fábio Campana

Por que os protestos fracassaram?

Juan Arias, El País

É inútil usar eufemismos: o protesto deste domingo contra os políticos fracassou. Os mesmos que no ano passado tinham levado às ruas quase dois milhões de pessoas Brasil afora para pedir a saída de Dilma Rousseff e brandiram o “Fora Lula” e o “Fora PT”, junto com “Somos Moro”, desta vez preferiram ficar em casa vendo os acontecimentos de longe. O motivo agora será estudado pelos analistas políticos. Talvez concordem em parte com o que já apontamos nesta coluna, em 16 de fevereiro passado, quando alertamos que os novos protestos de hoje “poderiam ter um efeito bumerangue”, já que desta vez carregavam em seu seio “o veneno da ambiguidade”.

A sociedade costuma sair à rua quando existe uma motivação forte e clara que afeta pelo menos uma parte representativa dela. Foi o caso das multidões em favor do impeachment de Dilma. O país estava assustado com a crise econômica. A inflação tinha disparado, o desemprego corria solto e as famílias começavam a se endividar. E a Lava Jato estava deixando às claras a podridão da corrupção política.

Como disse uma senhora de idade, entre as poucas pessoas que saíram desta vez no Rio, “não havia coisas específicas” contra as quais protestar. Desta vez, de fato, os motivos eram de engenharia política, como a lista fechada nas eleições, o foro privilegiado e a mais geral, uma “reforma da política”. Faltava o sujeito da narrativa. Poderia ter sido o “fora Temer”, mas a economia não está pior e até pode melhorar. A inflação está caindo e o país, ainda que as tropeções, saindo da longa recessão. E a Lava Jato continua investigando e prendendo políticos e empresários.

Não é que os temas do protesto não fossem objetivamente importantes. Eram, já que a reforma política, o não aos privilégios acumulados pelos políticos que acabam sempre enriquecendo, o perigo no Brasil de votar em listas fechadas e a continuidade da Lava Jato são cruciais para revitalizar a política agora colocada no banco de reservas. Os temas políticos sem um sujeito concreto falam, no entanto, menos aos brasileiros, já que como me dizia hoje na rua uma estudante de Direito, “não somos politizados como são na Europa ou na Argentina, neste mesmo continente”.

O problema agora é o que pode representar o fracasso da manifestação para uma classe política em busca de desculpas para se auto-anistiar e se perpetuar no poder. Poderia ser um cheque em branco para respirar aliviados e tentar dar o golpe mortal à Lava Jato. “Se for assim, então as pessoas voltarão a sair à rua”, me diz um amigo jornalista. Talvez, mas também é possível que já seja tarde demais. Apesar de ter razão em parte, já que a sociedade brasileira tem hoje mais consciência de que a política precisa de uma mudança radical se quiser salvar a democracia e que a justiça deve ser igual para todos. É uma sociedade que, ainda sem sair à rua, continua atenta ao que o Congresso e os grandes partidos políticos possam estar tramando, desta vez nem sequer na sombra, mas à luz do dia.

A grande manifestação popular será, no entanto, em outubro do próximo ano, quando 140 milhões de brasileiros poderão ir às urnas e escolher o novo ou nova presidente e a nova classe política. Essa será a hora da verdade.


9 comentários

  1. segunda-feira, 27 de março de 2017 – 10:44 hs

    “Na verdade, na verdade, a bem da verdade, quem estava e está por trás desses movimentos agora são os partidos e os velhos coronéis de sempre da politica para fins espúrios. Os REAIS motivos agora são outros. Porquê não fazem uma lista de revindicações? Contra a Reforma da Previdência. Trabalhista? Porquê quem está por trás são os mesmos de sempre e estão diretamente interessados nessas mudanças. Porquê agora não perguntam para o presidente TEMERário se ele vai renunciar a gorda e integral aposentadoria que ele tem desde os 55 anos? Sempre fui e sou de direita e a ANTÍTESE do pensamento de esquerda. Mas nunca, jamais CEGO, SURDO e MUDO com os erros e crimes da direita. Agora porquê estou cobrando esse TEMERário vão me chamar de comunista? Nunca fui e jamais serei. Mas nunca padeci do ‘Complexo de Alice ou da Síndrome de Estocolmo. São todos iguais. Farinha estragada do mesmo saco…” – Profº Celso Bonfim

  2. Mauro
    segunda-feira, 27 de março de 2017 – 11:34 hs

    Mas que crônica mais xinfrim

  3. QUESTIONADOR
    segunda-feira, 27 de março de 2017 – 12:14 hs

    -A ex-presidente Dilma foi o alvo nº 01 das manifestações passadas.
    -Agora os alvos são múltiplos. É difícil concatenar toda a nossa situação em um único alvo, que deveria ser “FORA POLÍTICOS CORRUPTOS!”
    -Mas não houve uma maior mobilização nacional em torno de um único tema…assim foram poucas pessoas e cada pessoa protestando á sua maneira…
    -Não foi por falta de tema: lista fechada para eleições, desempregos, apoio à Lava-Jato, fora corruptos, cassação chapa Dilma/Temer, menos impostos, sem reforma da Previdência, fim das bolsas e por aí vai!!!

  4. Doutor Prolegômeno
    segunda-feira, 27 de março de 2017 – 12:16 hs

    O artigo do Marcelo Rubens Paiva, no Estadão, explica bem melhor. Sem uma pauta muito clara, nenhum movimento de rua sobrevive muito tempo. Quem quer tudo e mais um pouco, acaba sem nada.

  5. segunda-feira, 27 de março de 2017 – 13:01 hs

    Manifestação não fracassou apenas diversificou tipo de protesto

    As Manifestações atualmente tem outros objetivos o básico dos protestos a sociedade já conseguiu ( impeachment de Dilma , indiciar Lula, e descartar PT nas eleições).

  6. CARRASCO
    segunda-feira, 27 de março de 2017 – 17:06 hs

    O que aconteceu com o povo brasileiro é que estamos cansados
    de tanta sacanagem e corrupção desenfreada. Claro que na época
    do impeachment da Dilma o motivo era mais forte e sem a saída
    dela do Planalto praticamente significaria a perpetuação da bagunça
    em Brasília. Uma vez conseguido esta vitória parcial o povão se
    acomodou. É uma acomodação perigosa !? Claro que sim, porem
    para um povo sofrido que não acredita mais em nada, parece que
    a única solução mesmo não é a passeata, mas sim, implodir Brasí-
    lia.

  7. Vitorio Sorotiuk
    segunda-feira, 27 de março de 2017 – 17:19 hs

    O pendulo está no meio. TIC – TAC faz a classe média. Em 1964 ela marchou pelo golpe e já em 1966 estava na oposição à Ditadura Militar. Zé Keti fez uma marchinha para o Carnaval: ” Marchou com Deus pela democracia e agora chia..Marchou com Deus pela democracia e agora chia. Perdeu a sua personalidade e agora fala em liberdade. Ai seu Oscar, ai Dona Aurora mas por que é que a senhora chora ? ” E agora….a classe méida foi as ruas e seu movimento serviu para manter no governo uma quadrilha organizada e a aposentadoria virou prêmio postmorten. Como a marchinha de Ze Keti é de se perguntar….mas por que é que a senhora chora?

  8. Helena
    quinta-feira, 30 de março de 2017 – 22:07 hs

    Normalmente quem organiza e lidera uma movimentação para manifestações políticas, são lideres do município, mas no próximo ano não teremos eleições municipais, e quem mais lidera são candidatos a cargos eletivos municipais. Não houve motivação política para isso. Cada um busca uma oportunidade para se divulgar e aparecer para angariar votos para si.

  9. DAGC david augusto
    segunda-feira, 24 de abril de 2017 – 17:13 hs

    Celson Bonfim so falou besteira… é professor do Estado?

    quer viver uma grecia? que tal conhecer a realidade da grecia?

    ou a realidade do Rio grande do Sul? do Rio de Janeiro?

    é logico que existem beneficiarios desse sistema, mas por que voces nao elegem pessoas que vao contra? ora, quando aparece um liberal de verdade, voces ignoram e votam no socialista mamador, e ai criticam a mamata, dizendo que foram enganados? piada ne.. socialista sempre mama, nao importa a nacionalidade…

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