Estado sequestrado | Fábio Campana

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Certas corporações de funcionários públicos ignoram a realidade do País

Editorial, Estadão

Foi muito preciso o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, quando classificou de “sequestro” a greve dos policiais militares no Estado. “O que está acontecendo no Espírito Santo é chantagem aberta. Isso é a mesma coisa que sequestrar a liberdade e o direito do cidadão capixaba e cobrar resgate”, disse Hartung, diante da terrível sensação de insegurança que tomou a população do Estado em razão da paralisação dos policiais, que exigem aumento de salário.

O caso do Espírito Santo ilustra, de forma dramática, até que ponto as corporações de funcionários públicos em todo o País estão dispostas a ir para arrancar do Estado aquilo que julgam ser seus direitos inalienáveis – mesmo que as leis sejam atropeladas, que as instituições sejam desrespeitadas e que o resto da população, que paga impostos para ter serviços essenciais, tenha de ser sacrificado.

No momento em que, mais do que nunca, está clara a necessidade de racionalizar os escassos recursos públicos, em razão da severa crise que o País enfrenta, é preciso emprestar total apoio aos governantes que se dispõem a arrostar essas corporações, que não se importam em fazer a população de refém de seus interesses. Somente esse apoio deixará claro que os cidadãos estão realmente cansados da irresponsabilidade na administração pública e que não toleram mais o oportunismo dos que se empenham em incendiar o País para dobrar os joelhos do Estado ante suas reivindicações.

O fato é que há muito tempo certas corporações de funcionários públicos ignoram a realidade do País, fazendo exigências absurdas e, em alguns casos, apelando inclusive para a violência quando se julgam preteridas. O episódio do Espírito Santo é hoje o mais representativo dessa truculência, mas está longe de ser o único.

Na quarta-feira passada, em Brasília, por exemplo, policiais civis que protestavam contra a reforma da Previdência tentaram invadir o plenário da Câmara dos Deputados. Foram contidos pelos policiais legislativos. Segundo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um dos manifestantes chegou a sacar uma arma para intimidar os policiais que tentavam manter a ordem. “O debate da reforma será feito, a sociedade será convidada para debater a reforma, mas não na base da violência”, disse Maia.

Greves e manifestações de policiais são especialmente graves porque envolvem servidores armados, cuja função é proteger a sociedade, e não deixá-la à mercê de bandidos. Mas a violência tem notabilizado outros movimentos reivindicatórios de servidores públicos, sempre na expectativa de intimidar o Estado. Vêm se tornando perigosamente recorrentes as invasões de grevistas a prédios públicos, especialmente as Casas Legislativas, como demonstrações de força para pressionar parlamentares e governantes a atender a suas exigências.

É por essa razão que a resistência anunciada pelo governo do Espírito Santo é importante. Trata-se de um desafio aos que, desconsiderando totalmente a duríssima conjuntura econômica, pretendem capturar o Estado e submetê-lo a seus interesses, muitas vezes na marra. Como disse o governador Hartung, “se o Espírito Santo não enfrentar essa situação, daqui a pouco esse movimento será em todo o País”.

Mas soa quase quixotesca a luta dos que levam a sério da Lei de Responsabilidade Fiscal, como parece ser o caso da administração do Espírito Santo. O governo do Rio de Janeiro, por exemplo, anunciou que haverá aumento de 10,22% nos salários de policiais militares e civis do Estado. A decisão foi tomada depois que circularam rumores de que os policiais fluminenses poderiam realizar movimento semelhante ao dos colegas capixabas.

Ou seja, o governo do Rio, embora esteja economicamente arruinado, parcelando salários e deixando de pagar as contas em razão de notória irresponsabilidade fiscal, preferiu ceder à corporação sindical armada antes que esta decidisse revogar, por sua própria conta, o Estado de Direito. É o caso de perguntar o que falta acontecer para que essa situação seja considerada inaceitável.

(foto: arquivo/google)


7 comentários

  1. Mistérios
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 12:38 hs

    Não podemos nos calar diante dos supersalários das cúpulas. É vergonhosíssima a exploração do povo brasileiro com o pagamento de salários aviltantes para judiciario, mp e legislativo. É ROUBO NA CARA DURA MESMO.

  2. Economista
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 12:49 hs

    Agora a culpa da crise financeira é dos policiais ? Uma classe que sempre foi explorada !

  3. Zé povinho
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 13:02 hs

    temos que fazer uma marcha à Brasília, capitais e grandes cidades para exigir para ontem o fim das aberrações que os reais ladrões aprontam com o povo. Obediência já ao teto constitucional.
    Não vamos deixar cabular essa medida que até o momento só foi da boca para fora.
    Governo, parlamentares, magistrados e ministério público não vão fazer acordo nas costas do povo brasileiro. Vivei e vide !

  4. Doutor Prolegômeno
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 15:00 hs

    O Brasil está refém das corporações de funcionários públicos, desde 1988. A consagração de direitos e privilégios de inúmeras corporações, em todos os poderes e outras instituições do Estado, criou nomenklaturas e castas de altos-marajás e outras castas menos privilegiadas, mas, cheias de garantias. A saúva não acabou com o Brasil, mas, os altos funcionários públicos vão acabar. Para relembrar os velhos carnavais e que o Brasil sempre foi o mesmo: Maria Candelária é alta funcionária, saltou de paraquedas, caiu na letra óóóóóó; coitada da Maria, começa ao meio-dia, trabalha, trabalha de fazer dóóóóóó…

  5. Observador
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 15:33 hs

    Só um Procurador de Justiça ganhou em um mês, no Espirito Santo, R$ 200.000,00. Um Policial Militar ganha R$ 2.700,00, mês. Assim, ele tem que trabalhar aproximadamente 6 anos, para ganhar o que o Procurador ganhou em um mês. Entenderam porque no Ministério Publico e no Judiciário não tem greve? Essa vergonha está no País inteiro.

  6. Parreiras Rodrigues
    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 – 16:53 hs

    O Estadão fez esse editorial olhando para a APP, a pelegagem petista no Paraná.
    Mas, tem razão também Mistérios e todos os que pensam igual.
    Se precisa urgentemente se acabar com floreios caríssimos, como auxílios moradia, paletó, livros, mais gordura na folha como percentagens por dedicação exclusiva, etc.

  7. viking
    sábado, 11 de fevereiro de 2017 – 9:13 hs

    Isso deveria ser copiado por todas as policias do país, principalmente aqueles que são escalados como seguranças particulares de governadores, deputados e outras “autoridades”. Seria como mostrar que essa corja de bhandidos eleitos através das campanhas milionárias com intuito de saquearem o estado com suas quadrilhas, que eles são sim vulneráveis a força dos números dos trabalhadores que estão pagando a conta da corrupção. Se cuida Beto Richa, Paraná pode ser o próximo, e vai começar pelos presídios que vc esqueceu que os carcereiros ainda cobram reajustes. E em 29 de abril de 2015, foram os carcereiros que jogaram as grades em cima dos PMs e começaram aquela massacre em com do funcionalismo que atribuem ais professores.

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