E o povo paga a conta | Fábio Campana

E o povo paga a conta

Editorial, Estadão

Quando a cidade do Rio de Janeiro venceu as candidaturas de Madri, Tóquio e Chicago e virou sede da Olimpíada de 2016, por escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI), em Copenhague, na Dinamarca, houve indisfarçável euforia. Afinal, seria a primeira vez que a América do Sul sediaria os Jogos e ocorreriam no Brasil os dois maiores eventos do esporte mundial, pois o País também sediaria o Mundial de Futebol da Fifa.

A qualquer crítico que argumentasse contra o óbvio excesso de gastos para um país emergente em período muito curto, a reação inevitável era de que as despesas seriam assumidas por empresas privadas, ficando para o Estado apenas os gastos com o legado olímpico, as obras de mobilidade urbana. Meio ano depois do encerramento dos Jogos, mesmo orgulhosos com a beleza e o sucesso das festas, os cariocas – e os brasileiros em geral – começam a perceber que nem tudo saiu como previsto: há restos a recolher e a pagar da festa.

O primeiro exemplo é o da arena em que foi transformado o velho e majestoso gigante Maracanã, construído a toque de caixa para sediar a primeira Copa no Brasil, em 1950. Os grandes clubes do Rio tiveram de jogar em outros locais todas as suas partidas, enquanto o estádio era submetido a grandes reformas, e, agora que a organização da Rio 2016 o devolveu para uso, o panorama no que foi “o maior do mundo” é desolador. Construído pelo município, mas administrado pelo Estado, ele foi concedido a um consórcio de empresas capitaneado pela Odebrecht, encalacrada num processo de pagamento de propinas distribuídas em troca de favorecimento em obras. O Estado e os concessionários recusam-se a recebê-lo dos organizadores da Olimpíada, devido a seu deplorável estado. Enquanto as empresas tentam passar adiante a concessão ou devolvê-lo ao Estado, o abandono é tal que na segunda-feira passada, no último dos saques que têm sido ali feitos, ladrões levaram um busto do jornalista Mário Filho, que dá nome ao estádio, extintores, mangueiras e dois receptores de televisão.

Parte do conjunto arquitetônico, o tradicional ginásio do Maracanãzinho, que hoje “não tem dono”, não está sendo usado. Assim como outras duas arenas moderníssimas do Parque Olímpico, na Barra: estão às moscas. Segundo Arthur Repsold, presidente da GL Eventos, dona da Arena Rio (antiga HSBC), “não há demanda para uma arena, o que dirá para três”. A Arena Carioca (assim como o Velódromo e o Estádio de Tênis) precisa ser transformada em centro de treinamento, como outras instalações do local. Seria o modelo possível.

A solução dada para o impasse foi, como é de hábito neste País, enfiar a mão no bolso do contribuinte e assumir os elefantes brancos. No fim do ano, ao apagar das luzes da gestão de Eduardo Paes, que sempre vendeu a ilusão da parceria privada, o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, assumiu a manutenção das duas arenas, do Centro Olímpico de Tênis e do Velódromo. Quanto a operação custará aos cofres públicos? Ninguém sabe. Nem o ministro, que garantiu que responderia à questão num prazo razoavelmente curto: um mês a partir da data da promessa, feita em 23 de dezembro.

A intenção da prefeitura era entregar a gestão dos equipamentos a uma parceria público-privada. Mas só uma empresa se interessou pelo negócio, a Sanerio, que, segundo os técnicos da prefeitura do Rio, não apresentou a segurança financeira necessária para assumir o negócio. O custo estimado da parceria seria de R$ 30 milhões por ano. Paes culpou a crise financeira e a troca de governo pelo desinteresse das empresas. A crise citada, corrupção desenfreada e gestões de qualidade e honorabilidade bastante discutíveis levaram o Estado do Rio de Janeiro à calamidade financeira. E a troca de Paes por Crivella na prefeitura em nada deveria alterar a atratividade da parceria público-privada nem justificar que o contribuinte brasileiro assuma os custos da manutenção dos equipamentos que não têm como ser usados após findas Olimpíada e Paralimpíada.


Um comentário

  1. Doutor Prolegômeno
    sexta-feira, 13 de janeiro de 2017 – 15:13 hs

    Todo general famoso da história sabe que nada sai como foi planejado. Quando muito, algumas coisas saem. Em se tratando de assuntos administrados pelo Estado, então, as coisas jamais sairão como planejadas. Ao longo da execução dos planos haverá incompetência, inépcia, ciúmes, inveja, interferências políticas e, lógico, corrupção geral. Do mais modesto subordinado ao maior chefão haverá a inefável corrupção. Somente um Estado mínimo evitará ou minimizará a corrupção. O resto é papo furado.

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