Um novo mundo | Fábio Campana

Um novo mundo

Cacá Diegues, O Globo

Um fantasma assombra o mundo inteiro. Ele sai das urnas (como nos Estados Unidos) ou de movimentos autoritários (como na Turquia) para assustar a esquerda e os liberais que, mesmo quando fora do poder, dominaram o pensamento político desde a segunda metade do século passado. Podemos tomar a eleição de Donald Trump como a confirmação americana dessa tendência, a ascensão de uma nova direita ao poder mundial.

Não se trata mais de uma direita politizada, com teorias sobre seu país, seu povo e seus inimigos. De uma direita que pensa sobre seu futuro e seu destino, que acredita na história e que a cultiva. Mas de uma direita selvagem, adormecida há tanto tempo no coração de “pessoas comuns”, silenciosos portadores daquilo que Sérgio Buarque de Holanda dizia, em relação ao Brasil: aqui, não existe pensamento conservador, só existe pensamento atrasado.

Esses grupos políticos, que estão tomando o poder ou ameaçando fazê-lo pelo mundo afora, não se importam com programas e projetos, muito menos com versões utópicas do futuro. Eles atuam em função de um pensamento mágico, capaz de transformar franjas da realidade segundo a vontade de cada um. Para esses grupos, a vontade é uma força soberana que ordena o mundo sem regras previsíveis ou preestabelecidas.

A nova direita se interessa por política, mas não pelo processo político. Ela despreza o raciocínio. A construção de um muro na fronteira não nasce de um pensamento articulado com a realidade, mas de um sentimento pessoal maior do que a realidade, de um desejo que se resolve dentro da própria pessoa. Além de seu sentido mágico, esse desejo não obedece a nenhuma lógica. A nova direita inaugura, assim, uma espécie de anarquismo oportunista que não precisa ser justificado.

Não acho que Trump seja um demônio incontrolável. Uma vez na Casa Branca, ele será obrigado a se portar como o presidente de um país tão complexo quanto o seu. Não terá outra alternativa. Em campanha, pode-se dizer qualquer coisa; mas, depois de empossado, ele terá que se sub- meter às limitações legais impostas pela Constituição, pelo Congresso e pela Suprema Corte, bem como aos impedimentos políticos e culturais, como o próprio curso da opinião pública derrotada.

Depois de oito anos no poder, Obama não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo, joia da coroa de suas promessas de candidato. Trump foi eleito pelo ódio xenófobo, misógino e racista, anterior às lutas pelos direitos civis do século XX. Ele tocou o coração de uma população branca de baixa renda, sufocada pelos novos costumes trazidos pela globalização. Trump representa uma vitória contra o império do “politicamente correto” que angustiava tanto pessoas tão pouco sofisticadas intelectualmente.

Como escreveu Adriana Carranca, esse povo “se sentiu ignorado pelo sonho americano, do qual se julgou à margem”. Agora, podemos chamar toda mulher que não nos agrada de nasty (nojenta), todo homem de etnia diferente da nossa de raper (estuprador). O novo presidente americano foi escolhido democraticamente por seus concidadãos, respeitadas todas as regras institucionais do país.

O que fez o eleitor escolhê-lo foi a libertação de suas vísceras provocada por discursos redentores, pela rejeição de qualquer impedimento ético à nossa vontade. A vitória dos sonhos perversos sobre a razão das contingências. Trocando em miúdos, o fim dessa conversa fiada de solidariedade ou, mais radical ainda, de fraternidade.

O fim do que esse eleitor vê como um conceito artificial de humanidade. A surpresa do resultado eleitoral deu-se porque o eleitor de Trump escondeu seu voto dos institutos de pesquisa. Ele preferiu disfarçar sua opção, como se estivesse preparando um motim contra os representantes do establishment ao qual planejava destruir ou, no mínimo, dar as costas.

Não o fez por vergonha do voto, mas pelo gosto da revanche. Uma espécie de malandragem para, além de sair vitorioso, rir-se do derrotado. Nem todos se surpreenderam. O cineasta Oliver Stone, suprassumo da esquerda de Hollywood, afirmou que “tinha mais medo de Hillary, uma conservadora intervencionista”. Para ele, “Trump é um negociador, um homem prático”.

Intelectuais como Peter Thiel, empresário e pensador de ponta do Vale do Silício, criador do PayPal e primeiro grande investidor do Facebook, que votou duas vezes em Obama, acha que Trump desafia tabus e o statu quo hipócrita: “Estamos votando nele porque nossos líderes tradicionais fracassaram e queremos uma nova política”.

Os eleitores de Trump estão aliviando frustrações antigas que foram se aperfeiçoando ao longo das conquistas da civilização moderna. A violência de cowboys sem lei que Trump, bandido ou mocinho, almeja representar, está na linha do Brexit do Reino Unido, da restauração czarista de Putin, da violência desatinada de Erdogan, das dezenas de partidos ascendentes da nova e ansiosa direita da Europa ocidental.

Esse é o mundo em que estamos vivendo hoje, insuspeitável até poucos anos atrás.


8 comentários

  1. Thiago Hart
    domingo, 13 de novembro de 2016 – 19:31 hs

    Fazia tempo que não lia algo tão estúpido!!

  2. eleitor desmemoriado.
    domingo, 13 de novembro de 2016 – 19:47 hs

    O povo americano votou em um cara prático, sofisticado o suficiente para enriquecer sem meter a mão no jaro, como fizeram os “esclarecidos esquerdistas” de Pindorama. De promessas como o fim da vergonha de Guantanamo, passando pelo papo furado das politicas de legalização dos milhões de “indocumentados” até o fracasso do “ObamaCare”, o povo apostou em quem mostrou que pode fazer alguma coisa. O papo furado da direita tradicional, bem como o da esquerda “esclarecida” não enchem a barriga de ninguém e muito menos criam empregos.

  3. Joao Luiz Pereira Tavares
    domingo, 13 de novembro de 2016 – 20:05 hs

    == Os Inteligentinhos ==

    OS INTELIGENTINHOS, DA SOCIEDADE CIVIL — estudantes, professores universitários, cineastas, cantorzinhos tipo Chico BUARQUE etc.

    Faça o favor! Num JANTAR DE INTELIGENTINHOS faça o seguinte:

    «Chegue num jantar de inteligentinhos e, por exemplo, defenda o impeachment. Haha. Você vai VER o que vai acontecer com você, né? Vão olhar TORTO pra você achando que, de repente, você é dono de um banco, alguém assim! E não alguém que trabalha duro para sobreviver e, por isso, SEMPRE desconfia de quem não o faz… Né?»

  4. Sergio Silvestre
    domingo, 13 de novembro de 2016 – 21:17 hs

    O Trump não cheira nem fede,é um malandrão rico como era o Bush e vai dirigir os americanos cometendo gafes e contando piadas sem graça como são a maioria dos anglos-saxônicos,se o mister Bean fosse americano hoje seria ele o presidente.Aqui nós também temos os nossos grotescos politicos,Temer ,Serra,Tiriricas tudo igual todos imbecis que deram certo no meio de tanta imbecilidade.

  5. RR
    domingo, 13 de novembro de 2016 – 21:29 hs

    Essa esquerdalha imunda,tem que ser esmagada como verme que é,salve TRUMP,salve BOLSONARO.

  6. João Honesto
    segunda-feira, 14 de novembro de 2016 – 9:39 hs

    Assombra nada.
    Alarmista de 3ª categoria.
    Quem escreveu tem caca na cabeça.
    É um despreparado e desqualificado,

  7. segunda-feira, 14 de novembro de 2016 – 10:49 hs

    “Pergunta para esse ‘ESQUERDOPATA’ quantos filmes ele fez com recursos próprios? Ou quantos filmes ele fez com recursos da iniciativa privada? E quantos filmes ele fez com recursos públicos? Captaneados das empresas controladas pelos governos Federal. Estaduais e Municipais. Esquerda caviar. Pseudo intelectualizado. Verborrágico. A teta secou.Deveriam ter fechado essa teta onde essa militância paga, esses locupletadores do erário público sempre mamaram…” – Profº Celso Bonfim

  8. Sociedade Resposde
    segunda-feira, 14 de novembro de 2016 – 13:11 hs

    O que precisa ser dito sem muita pompa de longos textos é que os atuais governantes foram incompetentes aqui e nos Estados Unidos, não atenderam os anseios da sociedade decente e praticaram políticas indecentes. ** Quando o povo/cidadão não é atendido em suas necessidades básicas e o dinheiro do erário é descaradamente roubado, desviado, surrupiado e os serviços públicos perdem qualidade e caem no relaxo, é hora de mudar. ** Hillary, a bem da verdade, seria mais do mesmo de sempre, como boa carreirista política. Trump, por sua vez, é sangue novo na política e poderá sim, fazer um grande governo para o povo norte-americano que é o que interessa. ** No mais é cumprir a lei, a Constituição e todo o ritual jurídico que não permite que um presidente faça o que lhe der na telha! Além é claro, de o Congresso acompanhar passo a passo suas ações. Simples assim! ** Aqui no Brasil, há treze anos se falou em uma mudança radical para o país, enaltecendo a moralização política e etc, elegeu-se Lula da Silva/Dilma Rousseff. ** O resultado é esse que temos visto: 12 milhões de desempregados, milhares de pontos comerciais fechados, empresas falindo ou pedindo concordata, o país na lona, o povo na miséria e políticos, em grandes pencas, nas barras dos tribunais. ** Sem dúvida, é hoje de mudar. Chega da politicalha de sempre!

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