Gente indigesta | Fábio Campana

Gente indigesta

Mary Zaidan, O Globo

Alçado ao cargo maior da República depois dos escândalos de corrupção que destroçaram o PT, do acirramento das crises política e econômica – aprofundadas pela incompetência e soberba de Dilma Rousseff -, e pela pressão das ruas, o presidente Michel Temer só tinha duas alternativas: acertar ou acertar. Nos rumos da economia e na moralidade com a coisa pública. Mas não se cansa de errar: ainda patina no ajuste das contas e esborrachou-se de vez no plano ético.

Para a economia, Temer chamou Henrique Meirelles, aplaudido pelo mercado, mas já um tanto incapaz de, só na lábia, manter a animação do setor produtivo. Um público angustiado com a ausência de liderança política para acelerar a aprovação de medidas emergenciais no Congresso. Menos cuidadoso, Temer correu riscos ao nomear Romero Jucá (PMDB-RR) para o Planejamento, e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para o Turismo, ambos enrolados com a Lava-Jato. Teve de despachá-los antes mesmo de eles esquentarem as cadeiras.

No Senado, o ex-ministro Jucá continuou líder do Governo, tendo sido o maestro da inclusão, na vigésima-quinta hora, de parentes de políticos na nova versão da repatriação de dinheiro não declarado depositado e mantido no exterior. Algo que deveria ser vetado por Temer se algum juízo ainda lhe restar.

Na sexta-feira, quem saiu foi Geddel Vieira Lima, que se autoimolou tarde demais para poupar o chefe da imoralidade de ter protegido o amigo em algo indefensável: o uso do Estado em benefício próprio.

Geddel, então ministro de Governo, um dos mais próximos do presidente, teria feito pressão para que o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, interviesse na liberação da obra do La Vue, embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Empreendimento de luxo, localizado na Ladeira da Barra de Salvador, o prédio teve autorização para no máximo 13 andares. Antes do embargo, Geddel teria comprado um apartamento 10 andares acima, hoje, um pedaço de ar ou brisa.

O caso, tão corriqueiro na política dos tempos pré Lava-Jato – a ponto de Geddel, políticos aliados e o próprio Temer considerarem que morreria com o tempo -, ganhou corpo quando Calero denunciou a pressão de Geddel, logo depois se demitir. E mais ainda quando se revelou que Calero tinha ido à Polícia Federal para uma denúncia formal, na qual teria incluído o presidente Temer e até, supostamente, uma conversa gravada. Algo que não combina com o relato anterior do ex-ministro, feito no sábado, 19, de que o presidente teria desautorizado Geddel ao dizer a ele, durante a conversa no Planalto: “O presidente sou eu, não o Geddel”.

Ainda que existam pontos que não se ligam nas versões dos ex-ministros Geddel e Calero, nada justifica a participação de um presidente da República nessa história. Temer nem poderia se permitir discuti-la. Trata-se de uma obra privada, na qual um de seus auxiliares tinha interesse pessoal – queria desembaraçá-la, mesmo que ao arrepio da legalidade. Algo fora do escopo da coisa pública, fora dos interesses do país. Portanto, pecado difícil de purgar.

Além de complicar Temer, o episódio Geddel espalhou veneno em alvos inesperados. No afã de mais uma vez criticar a mídia, o ex Lula se entregou à Lava-Jato: “Vocês percebem que não dão destaque ao apartamento do Geddel como deram ao meu tríplex”, disse, inflamado, em discurso para uma plateia fiel na Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). Um ato falho. Uma confissão.

Iguaria para a oposição, o episódio Geddel vai subsidiar pedidos de impeachment de Temer, acareações, desconfianças entre aliados, brigas sem fim no cotidiano das pessoas, já expressas nas redes sociais. Em suma, mais pimenta em um caldeirão de instabilidades que ninguém mais aguenta.

Indigesto, Geddel, quem o apoia, coisa que cheire ou com ele se pareça, é tudo que o país não quer mais ter de engolir.


6 comentários

  1. JÁ ERA...
    domingo, 27 de novembro de 2016 – 17:29 hs

    Sempre descrevi o Temer como o verdadeiro papagaio de pirata.
    Quando vice acompanhou e concordou em tudo com a Dilma. Agora
    assumindo a Presidencia tomou posse fazendo de conta que as rou-
    balheiras da companheira Presidente não fazia parte da sua rotina.
    Ora, me engana que eu gosto e achar que o eleitor é bobo é coisa
    do passado longinquo. Politicamente tomou posse, porem moralmen-
    te está mais baixo do que barriga de cobra…

  2. Dilma Pereira
    domingo, 27 de novembro de 2016 – 17:42 hs

    Eu quero saber onde vai ser a reunião aqui no Rio, para acabar com essa cachorrada dos políticos e o STF?

  3. eleitor desmemoriado.
    domingo, 27 de novembro de 2016 – 21:17 hs

    Mais uma ou duas mancadas destas que o presidento der e vamos voltar às ruas pedindo desta vez o Fora Temer. Para a sorte dele o rito do impeachment ainda está fresquinho na maioria da cabeça dos deputados, senadores e juízes do STF e, mais ainda, o cara não vai perder os direitos políticos, ou seja, pode ser candidatar e se eleger novamente. Cara sortudo este presidento.

  4. LUIZ EDUARDO HUNZICKER
    domingo, 27 de novembro de 2016 – 23:27 hs

    O Sr Temer mostrou que é adepto da velha política, mas deu com os burros a água. Criou para si mesmo, problemas infantis ao interferir em lei consumada em favor do amigão Geddel. Este nem deveria ter sido ministro, pois está envolvido em falcatruas. Calero, parabéns pela tua atitude. Serviu para esclarecer ao povo com é que a coisa funciona no alto escalão do executivo. Merece impedimento. Os políticos formam uma verdadeira corja.

  5. iri
    segunda-feira, 28 de novembro de 2016 – 10:37 hs

    A política no Brasil virou um câncer maligno que deve ser extirpado do bolso do povo brasileiro, a politicada rouba descaradamente desde o menos popular até o mais alto escalão nacional o dinheiro do povo, alguns ficam em prisão domiciliar só para enganar trouxa, mas todos ficam curtindo a vida adoidado e ainda interferindo nas investigações por causa da máfia ser muito populosa, é ladrão maior acobertando o menor e por aí vai, paredão para esses porcos seria pouco.

  6. QUESTIONADOR
    segunda-feira, 28 de novembro de 2016 – 10:57 hs

    -Este governo Temer morrará por falta de oxigênio(sem projetos, sem pulso firme). Suas ações não geram mais credibilidade no setor produtivo brasileiro. As ações do Presidente não geram confiança na população e muito menos nas pessoas desempregados(e são muitos). Este governo Temer é a cara do governo do ex-presidente José Sarney…são do mesmo partido!!!!
    -Se continuarmos com esta letargia, sem transparência nas ações governamentais e congressistas tentando legitimar o caixa 2, a corrupção e a consequente impunidade…não haverá outra solução senão a Intervenção Cívica Constitucional!!! O povo não aguenta mais!!!

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