Falta de dinheiro não deve assustar prefeitos, diz Jaime Lerner | Fábio Campana

Falta de dinheiro não deve assustar prefeitos, diz Jaime Lerner

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Raul Juste Lopes

Candidatos a prefeito precisam lembrar que “mobilidade é colocar moradia perto do trabalho e que só rua bonita, vibrante faz as pessoas querem caminhar”, diz o arquiteto Jaime Lerner, 78, que governou Curitiba por três mandatos.

“Ficamos construindo guetos para pobres nesse ‘Minha casa, minha vida, meu fim de mundo’, que depois custa uma fortuna levar infraestrutura tão longe, onde a dependência do carro é total”.

Lerner estreia documentário que trata de cinco décadas de arquitetura, urbanismo e política. “Jaime Lerner — uma história de sonhos”, dirigido por Carlos Deiró, estreia nesta quinta (8) no Caixa Belas Artes. Haverá debate no Espaço Itaú Frei Caneca, às 20h. A entrada é gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes do evento.

Com o registro de elogios de colegas de profissão de Oscar Niemeyer a Paulo Mendes da Rocha e João Filgueiras Lima, o Lelé, ele deixa transparecer certo ressentimento por suas ideias terem vingado primeiro no exterior que em cidades brasileiras, como os corredores de ônibus.

O ex-prefeito, fora da política partidária há 14 anos, admite que Curitiba “deixou de inovar há pelo menos uns dez anos” e que o sistema de transportes “piorou muito”.

Barato não atrai

“Curitiba foi contra a corrente. Investimos em transporte público quando só se faziam obras viárias —o rodoviarismo até hoje manda no Brasil. As pessoas se curvam, se ajoelham para o ídolo de metal, que é o carro, o cigarro do futuro. Os corredores de ônibus levaram 40 anos para “pegar” no Brasil, só depois que Bogotá, Nova York e a China adotaram. Soluções simples, que não envolvem muito dinheiro, não fazem muito sucesso por aqui.”

Resultado rápido

“Inovar é começar. Melhor trabalhar rápido e mostrar resultados que gastar muito tempo com teorias. Fizemos o primeiro calçadão do Brasil em 72 horas. As pessoas tinham que ver e sentir o resultado, explicação nenhuma funcionaria como a demonstração na prática. Defendo obras rápidas e simples.”

Meu fim do mundo

“Morar mais perto do trabalho é o grande desafio da mobilidade. Ficamos gastando bilhões com o “Minha casa, minha vida, meu fim do mundo”. É um retrocesso. Continuamos a criar guetos distantes, que só são alcançados por carro. São Paulo tem 25 m² para um carro em casa, 25 m² para estacionar no trabalho. Se vocês têm 5 milhões de espaços para os carros paulistanos, vocês poderiam ter 2,5 milhões de moradias ou escritórios no lugar. A cidade nem precisaria ter periferia com essa troca.”

Só nome é europeu

“O mercado imobiliário coloca nomes europeus em tudo quanto é edifício, mas faz o oposto da cidade europeia. Em Paris, você pode morar em um apartamento de 20 m², um antigo quarto de empregada adaptado, mas terá uma cidade linda para desfrutar. Aqui a gente tenta trazer a cidade para o prédio, o espaço de brincar, de comer, gourmet, tudo apertado com muro alto. Sobra pouco para uma cidade diversa além-muros. A rua tem que ser vibrante, viva, para as pessoas terem vontade de usar.”

Egoarquitetura

“Prefeitos não devem se assustar com falta de dinheiro. Fizemos parques com tubos e postes de madeira que compramos das empresas de telefonia e energia e reciclamos. Dinheiro demais atrapalha. Disse pro [arquiteto] Richard Rogers quando visitou Curitiba, “talvez você não goste da arquitetura, mas vai gostar dos espaços públicos”. Prefiro a ecoarquitetura que a egoarquitetura.”

Pagar pelo lixo

“Nossa grande campanha de reciclagem do lixo começou em 1989. Começamos pelas escolas, todas as crianças foram ensinadas a separar o lixo. Não achávamos que reciclagem era apenas para bairro rico. Toda favela no Brasil é em morro ou fundo de vale. Não tinha coleta, e esse lixo polui os córregos onde as crianças brincam. Decidimos comprar o lixo da população, trocando por vales transporte. É mais caro despoluir depois.”

Prefeito vs. governador

“Gostei muito mais de ser prefeito que governador. Está mais perto do fazer, há resultados mais concretos. Como governador, você depende mais da política econômica do país e tive que sofrer o ajuste da primeira vez que a Lei de Responsabilidade Fiscal foi implementada. Ser prefeito é sentir a sociedade antes. É ter equipes de artistas, de intelectuais, de gente que se adiante, não apenas fique reagindo. É ter senso de humor, as pessoas precisam querer trabalhar com você.”

Equipes despreparadas

“Até prefeitos sensíveis, com boas intenções, não conseguem ter equipes com a qualificação necessária porque precisam governar em coalizão. Aceitam indicados de outros partidos que não têm a menor ideia. Quando criamos o IPPUC [Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba], queríamos ter um corpo técnico cuidando do urbanismo, com continuidade. Poucas cidades do Brasil fizeram algo parecido.”


5 comentários

  1. medonho
    quinta-feira, 8 de setembro de 2016 – 17:45 hs

    Esta matéria daria um bom plano de governo, Jaime Lerner é único, faz uma radiografia precisa e real.
    Curitiba é uma cidade de médio porte está bem formatada, e vemos pessoas tentando inovar, quando deveria aprimorar, ampliar.
    A região do cachoeira sofre pelo isolamento populacional e habitacional, isto, fica patente no congestionamento, travado por uma política habitacional equivocada, em função do trabalho estar no lugar oposto da moradia.
    Agora estão gastando milhões para encontrar o rumo certo, pesquisando a mobilidade humana, desestruturada por políticas e políticos despreparados.
    Os feudos condominiais (guetos) de alto e baixo padrão é uma configuração eleitoreira, distanciou a cidade do cidadão, sentimos a falta de mentes brilhantes, urbanistas que entendem a cidade como extensão do próprio lar.
    Os que rabscam os projetos deveriam tomar um ár e conhecerem melhor o nosso habitat, Curitiba.

  2. eleitor desmemoriado.
    quinta-feira, 8 de setembro de 2016 – 17:49 hs

    Infelizmente os conjuntos do Minha Casa Minha Vida ficam longe de tudo, isto quando ainda contam com alguma infraestrutura, muitas vezes não contam nem com linha de ônibus. O Jaime, como planejador de cidades, novamente acertou em cheio, apesar dos maledicentes de sempre, E da inveja de outros.

  3. junior
    quinta-feira, 8 de setembro de 2016 – 23:31 hs

    MEDONHO ??? Tá dando bandeira , eu sei quem é você. Mesmo assim concordo com tudo.

  4. Luc
    sábado, 10 de setembro de 2016 – 12:23 hs

    Exemplo para um país que vive um monento político tão complicado. Esse sim deveria ser Presidente da República.

  5. João Luís
    domingo, 11 de setembro de 2016 – 10:15 hs

    Sabe o que é pior em estar certo os ditos do Lerner acima? Mostra que estamos como sociedade no planejamento urbano totalmente equivocados! Embora uma seja consequência da outra! Prédios e condomínios horizontais maximizados porque a cidade deixa a desejar a tempos! Só lamento o legado do pedágio do Lerner e a média das escolas estaduais em sua época baixou pra 5,0 para aumentar a aprovação pois era uma das condições para conseguir grana para o estado!
    Com certeza bem melhor prefeito que governador!
    Mas há de se ouvir o que ele tem a dizer, sabe e conhece muito!
    Não sei porque as cidades do interior não o consultam para promover e ver uma visão ampliada de planejamento. Ficam presos no tal plano diretor como se este fosse o propulsor de um crescimento e planejamento! Deveria ser apenas um norte para os diversos grupos politicos não se esbaldarem no poder!

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