O crime compensa? | Fábio Campana

O crime compensa?

Eliane Cantanhêde

Estarrecida, a opinião pública brasileira é surpreendida, todo santo dia, com uma nova operação da Polícia Federal e detalhes nauseantes de corrupção. Num dia, assalto ao crédito consignado de servidores endividados. No outro, desvio de verbas da Lei Rouanet para casamentos luxuosos. Num terceiro, mensalinho para a madrinha da bateria de uma escola de samba e R$ 18 milhões para empresa desistir (!) de contrato. E os valores?! Ladrão de colarinho branco não é nada modesto, tudo é na casa dos R$ 70 milhões, R$ 100 milhões, R$ 370 milhões…

Por trás desses desvios “pitorescos” de dinheiro público e desses milhões surrupiados da saúde, da educação, da habitação…, há sempre um esquema envolvendo agentes públicos, empresas privadas, doleiros e, invariavelmente, políticos. Um “abismo” de corrupção, como ilustra o nome da nova operação, com foco no Centro de Pesquisa da Petrobrás.

Há um lado péssimo nisso tudo, a revelação de quão corrupto o Brasil se tornou, até bater nesse “abismo”. E há um lado ótimo: nunca antes neste país as investigações foram tão longe, atingiram tantos culpados e remexeram tanto as entranhas de um poder doentio, fétido. Mas há ainda incertezas quanto às consequências. Quando um Carlinhos Cachoeira ressurge, todo sorridente, sendo mais uma vez preso,para ser solto no dia seguinte, a sensação é de indignação. Santa falta de tornozeleiras!

Em 2002, Cachoeira filmou um pedido de propina de Waldomiro Diniz, braço direito de José Dirceu no início da era Lula. Em 2012, Cachoeira caiu na Operação Monte Carlo, sobre um esquema de máquinas caça-níquel, e ficou nove meses preso. Em 2013, foi flagrado dirigindo embriagado e se safou ao pagar fiança. Em 2016, caiu de novo, agora na Operação Saqueador, sobre lavagem de R$ 370 milhões.

Foi aí que a opinião pública descobriu que, apesar de condenado a 39 anos por peculato, corrupção ativa, violação de sigilo e formação de quadrilha, Cachoeira vai muito bem, obrigada, com mulher bonita e filha bebê – enquanto os não delatores, como José Dirceu, amargam a dura vida na cadeia. O que ainda falta para que esse contraventor pare de rir e pague pelos crimes que cometeu, comete e continuará cometendo?

A isso se some a boa vida dos ladrões de colarinho branco que entregam os comparsas. A delação premiada é um instrumento efetivo, reconhecido e essencial nas investigações, mas, com o número de delatores chegando perto de cem, o prêmio começa a parecer excessivo. Muito roubo para pouca pena. Como mostrou a revista IstoÉ desta semana, Pedro Barusco, ex­-gerente da Petrobrás (atenção: nem diretor era!), fez delação, comprometeu-­se a devolver US$ 100 milhões (quase R$ 400 milhões) e, assim, livrou­-se da cadeia e está recolhido ao aconchego do lar, uma bela mansão com piscina, na praia de Joatinga, com uma das vistas mais lindas do Rio.

E vai por aí afora. Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, Fernando Baiano e, não tarda muito, também Sérgio Machado, roubaram, roubaram e roubaram dinheiro público, mas, como delataram os outros, são punidos com tornozeleiras e trocam celas inóspitas, macacões coloridos, banhos frios e rancho indigesto – destinados, por exemplo, a Roberto Jefferson – e vão lamentar a sorte em mansões de milhares de metros quadrados, quadras desportivas, piscinas espetaculares, vistas estonteantes. Vale a pena delatar! Vale a pena roubar?

Só falta agora o deputado afastado Eduardo Cunha delatar todo mundo, devolver um bocado de verdinhas das suas trustes na Suíça e aderir a uma tornozeleira eletrônica para curtir férias douradas num apartamento milionário, abastecido com os melhores uísques e os vinhos mais caros, com a mulher desfilando suas bolsas Prada do quarto para a sala e da sala para a cozinha.

Pronto, Justiça feita!


6 comentários

  1. Doutor Prolegômeno
    quinta-feira, 7 de julho de 2016 – 14:21 hs

    Uma análise superficial indica que para os políticos, sim, o crime compensa. Praticamente todos os políticos condenados no mensalão estão com a pena extinta, por obra e graça do Judiciário, com indultos. Lógico, sempre com espeque na lei. O próprio mandarim do lulopetismo, Dirceu, caminha para a extinção da pena, com parecer favorável da PGR. Lógico, frise-se e sublinhe-se em vermelho, sempre com suporte nas benesses da lei. Condenados a penas leves e ligeiras, bem comportados e laboriosos, os políticos se safam rápido da cadeia. Já a ex-bailarina azarada cumpre dezenas de anos de prisão, por ter assinado os cheques para a bandidagem lulpetista e leverá mais tempo para se safar, ou talvez, nunca. Mas, os políticos sempre serão recompensados pelo crime.

  2. ciro
    quinta-feira, 7 de julho de 2016 – 14:32 hs

    SE TUDO ISSO SE CONFIRMAR, O QUE PARECE QUE SIM, POIS O CHEFE DE TODA ESSA QUADRILHA O LULA AINDA NÃO FOI PEGO, RESTARÁ AO SÉRGIO MORO O OSTRACISMO E O DESCONFORTO DA EFICIÊNCIA DA LAVA JATO PORÉM COM A INEFICÁCIA QUE DEVERIA TER. SE ASSIM OCORRER AO MENOS SERVIU PARA TIRAR DO PODER A QUADRILHA INCOMPETENTE DO PT, MAS TENHO QUE ADMITIR, FOI GOLPE ONDE VÁRIOS PERSONAGENS FORAM USADOS PARA O OBJETIVO.

  3. CARRASCO
    sexta-feira, 8 de julho de 2016 – 5:03 hs

    Aqui no Brasil o crime compensa. Se a lei da delação existe e aju-
    dou muito para desbaratar estes crimes bárbaros, em contrapartida
    as benesses para os ladrões foram demais. Nenhum delator é tão
    idiota que ficou sem caixa dois em algum canto do mundo.

  4. Diana Nascimento
    sábado, 9 de julho de 2016 – 15:04 hs

    Penso que Machado pode até ter errado no passado mas está aí se redimindo do seu erro pois a delação dele foi a melhor que eu já vi. Espero que ele continue.

  5. Samuca Amarantos
    sábado, 9 de julho de 2016 – 23:47 hs

    As denuncias da delação premiada tem que continuar.

  6. Aline Batista
    terça-feira, 12 de julho de 2016 – 21:13 hs

    Com certeza o crime não compensa. Mas a Lava Jato ñ pode parar. Ela é uma valiosa arma contra a corrupção. Os delatores erraram, mas agora estão colaborando com a justiça, entregando outras pessoas e ajudando a acabar com essa rede de corrupção. Os delatores ñ estão tendo punições leves. Pelo contrário. Eles pagarão para sempre por seus crimes. Até as suas famílias, que mtas vezes ñ tem nada a ver com isso, estão sendo perseguidas.

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