Um Itamaraty altivo | Fábio Campana

Um Itamaraty altivo

Editorial Estadão

Sob nova direção, o Itamaraty finalmente usou os termos adequados para lidar com as autocracias bolivarianas, que passaram a última década a usufruir da leniência do governo petista enquanto aniquilavam a democracia em seus países. A primeira nota oficial do Ministério das Relações Exteriores sob o governo de Michel Temer serviu para rebater, com dureza, os ataques que a nova administração brasileira sofreu de países latino-americanos como Venezuela e Cuba, que qualificaram o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff como golpe e declararam não reconhecer Temer como presidente interino.

Na nota, que fez referência às manifestações de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, além da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), o Itamaraty acusou esses países de “propagar falsidades sobre o processo político interno no Brasil”, que “se desenvolve em quadro de absoluto respeito às instituições democráticas e à Constituição Federal”.


O Itamaraty deu-se ainda ao trabalho de explicar que “o processo de impedimento é previsão constitucional” e que “o rito estabelecido na Constituição e na lei foi seguido rigorosamente, com aval e determinação do Supremo Tribunal Federal”, de modo que “o vice-presidente assumiu a Presidência por determinação da Constituição Federal, nos termos por ela fixados”.

Houve ainda uma segunda nota oficial, dessa vez direcionada ao secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), Ernesto Samper, para quem o impeachment, se concluído, será uma “ruptura da ordem democrática”, o que poderia levar o bloco a suspender o Brasil. Em tom bastante incisivo, o Itamaraty informou que Samper expressou “juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro e seus Poderes constituídos”, fazendo “interpretações falsas sobre a Constituição e as leis brasileiras”. A mensagem qualificou ainda de “interpretação absurda” a presunção de que a democracia estaria em risco e aproveitou para denunciar, corretamente, que Samper, ao se alinhar ao bloco dos bolivarianos contra as instituições brasileiras, agiu de forma incompatível com o mandato que exerce na Unasul. Ontem, o Itamaraty repeliu com redobrado vigor as declarações inexatas e até injuriosas do governo de El Salvador.

A rigor, não havia nenhuma necessidade de dar tantas explicações oficiais, pois, afinal, a tese do “golpe” apenas encontra respaldo entre aqueles que consideram que a lei só deve ser cumprida quando lhes favorece. Mas a ênfase no respeito à democracia e à Constituição era necessária como forma de contrastar o pleno funcionamento das instituições no Brasil ao autoritarismo dos países bolivarianos. Ademais, o tom do comunicado do Itamaraty foi apropriado na medida em que era preciso responder à agressividade do ataque às instituições brasileiras.

Acostumado à brandura do Itamaraty durante os governos petistas, o autocrata venezuelano, Nicolás Maduro, sentiu-se confortável para dizer que Dilma havia sido afastada por um “golpe de Estado parlamentar”. Em suas palavras, foi “uma canalhada” contra Dilma e contra a democracia. Maduro prometeu fazer campanha na América do Sul contra o impeachment. Já a ditadura de Cuba lidera um esforço para denunciar o “golpe” em organismos internacionais, como a Organização Mundial do Comércio e a Organização Internacional do Trabalho. Uma mensagem da diplomacia cubana para essas entidades acusa Temer de ter “usurpado o poder”.

É improvável que a ofensiva de Maduro e da gerontocracia cubana ganhe adeptos, já que o chavismo degenerou de vez numa ditadura, que está destruindo a Venezuela, enquanto Cuba continua a ser Cuba – uma das mais longevas ditaduras em atividade no mundo. Ou seja, ninguém que preze a democracia irá se alinhar a essa gente.

Mesmo assim, faz bem o Itamaraty em marcar uma posição firme a respeito desses liberticidas. Se por um lado é preciso preservar o espaço da diplomacia, mesmo nas mais agudas crises, por outro seria inaceitável continuar a deixar sem resposta as bravatas bolivarianas. Felizmente, parece que os tempos de política externa ditada por interesses de um partido, e não do País, ficaram para trás.


7 comentários

  1. Tarzan
    terça-feira, 17 de maio de 2016 – 10:08 hs

    Parabéns ao novo Governo Brasileiro por se posicionar dessa forma. Acabou a FARRA dos petistas comandada por esse bandido chamado lula.

  2. terça-feira, 17 de maio de 2016 – 10:54 hs

    “Chega desse bolivarismo latino americano que não produz nada. Só suga os recursos do Estado. Promove um assistencialismo criminosamente irresponsável. Sem projeto de Estado. Sem planejamento econômico. Enfim… É a falência do populismo. Agora essa parceria chega ao fim pelo bem do País. Até que enfim o Brasil acordou…” – Profº Celso Bonfim

  3. Zé Ninguém
    terça-feira, 17 de maio de 2016 – 11:05 hs

    O Barão do Rio Branco deve estar batendo palmas lá do fundo do caixão dele. Depois de ver a nossa diplomacia ter quase virado pó nas péssimas administrações da ex-querida companheira, agora vê um cara com vergonha na cara e que quer resgatar a importância que o Itamaraty sempre teve. Estes países indignados estavam acostumados com chanceleres bananas e sem ideias, com o Vampiro da Saúde a conversa já começa a ser outra.

  4. lika
    terça-feira, 17 de maio de 2016 – 11:59 hs

    Achei até engraçado esses canalhas falarem de Democria, pergunte a esses cubanos aí se alguem deles ja votou para presidente,

  5. terça-feira, 17 de maio de 2016 – 12:01 hs

    Tem que colocar esses países e seus Presidentes em seus devidos lugares, cobrar deles a Refinaria tomada por Evo Morales, cobrar de Maduro o empréstimo realizado, enfim, fazer com que essa “CANALHA” devolvam ao governo brasileiro tudo o que pegaram de dinheiro e até agora não houve ressarcimento. O novo Governo Federal está demonstrando pulso firme e ações que devem ser aclamadas por todos nós, brasileiros, destoando da frouxidão dos governos Lula e Dilma.

  6. Zé Ninguém
    terça-feira, 17 de maio de 2016 – 13:06 hs

    Como diz a cultura popular , se associar a pobre e pedir esmolas pra dois , não vejo interesse algum em andar alinhado a tais republiquetas, não acrescentam em nada em nossa cultura e muito menos em nossa economia , aliais apenas servem de encosto para sugar nossas reservas financeiras , o que o governo petista vinha fazendo há um bom tempo .

  7. Doutor Prolegômeno
    terça-feira, 17 de maio de 2016 – 13:40 hs

    Não precisa ser altivo. Basta ser ativo, deixando de ser passivo, sempre de quatro para os bolivarianos e outros vagabundos. Chega de diplomacia nanica.

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