Os limites do SUS | Fábio Campana

Os limites do SUS

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Drauzio Varella

Políticas públicas destinadas exclusivamente aos mais pobres estão fadadas ao fracasso.

Do abastado ao humilde, qualquer brasileiro pode vacinar os filhos na unidade de saúde, receber transplante de fígado pelo SUS e os medicamentos para a Aids, como se vivesse na Noruega. Nossos programas gratuitos de vacinações, transplante de órgãos e de distribuição de drogas anti-HIV são os maiores do mundo.

O sucesso desses programas se deve ao fato de serem universais. Se vou à Unidade de Saúde e faltam vacinas, basta ligar para os jornais que a denúncia aparecerá na primeira página.

Por que nosso programa de planejamento familiar não sai do papel, condenando os mais pobres a ter filhos indesejados que não conseguem sustentar? Por uma razão simples: quem está bem de vida tem acesso pleno aos métodos anticoncepcionais e ao abortamento ilegal. A mulher que peregrina pelas unidades de saúde atrás de um DIU ou da laqueadura, direito garantido por lei, vai reclamar para quem? Para o bispo?

Dissemos na Constituição de 1988 que saúde é direito do cidadão e dever do Estado. Faço minhas as palavras da jornalista Cláudia Collucci em sua coluna: “Isso é lindo, uma conquista da qual não podemos abrir mão. Mas, na prática, nem países mais ricos e menos populosos ousaram prometer ‘tudo para todos em saúde'”.

O paradoxo é que de um lado as políticas públicas que deram bons resultados são as universais, de outro, a falta de recursos orçamentários, de gerenciamento competente e a praga da corrupção impõem aos dependentes do SUS uma assistência médica de difícil acesso, imprevisível e muitas vezes de baixíssima qualidade.

Não há como fugir da realidade: se as verbas destinadas à saúde são insuficientes, quanto menos utilizarem os serviços do sistema único os brasileiros que podem pagar por eles, mais recursos sobrarão para atender os que contam apenas com o SUS.

Num país cartorial, com as desigualdades abissais como o nosso, é absurda e injusta a ideia de considerarmos todos iguais diante do SUS, porque os mais ricos e influentes passarão na frente dos mais necessitados.

O fazendeiro mais influente da região entra na sala de espera do pronto-socorro público da cidadezinha. Quem será atendido antes? É justo o cidadão bater o BMW, gastar R$ 250 mil na oficina e operar o rosto no Hospital da Clínicas? Está certo precisar de um remédio importado e mover ação judicial contra o SUS, porque o advogado considera mais fácil ganhar do Estado do que enfrentar o departamento jurídico do plano de saúde?

Se a saúde pública do país vive momentos difíceis, o futuro poderá ser trágico. A faixa etária da população que mais cresce é a que já passou dos 60 anos. O Brasil fica mais velho e envelhece mal: 52% dos adultos estão acima do peso saudável, metade das mulheres e homens chega aos 60 anos com hipertensão arterial, perto de 12 milhões sofrem de diabetes –pelo menos um terço dos quais só descobrirá quando surgirem complicações graves.

O desafio é gigantesco. Somos obrigados a lidar com os problemas dos países ricos, antes de termos nos livrado das enfermidades do subdesenvolvimento: dengue, zika, tuberculose, malária e até hanseníase.

O aperto financeiro para tratar dos doentes que recorrem ao SUS é de tal ordem que não sobram recursos para investir em medidas preventivas. E o enfoque da saúde pública tem que estar na prevenção. Programas como o Saúde da Família devem ter prioridade absoluta e chegar às comunidades mais desprotegidas. Entre outras medidas, há que divulgar exaustivamente os cuidados preventivos pelo rádio, TV, internet e celular.

Em entrevista a Cláudia Collucci o atual ministro da Saúde chegou a sugerir que o SUS precisaria ser redimensionado. Diante da gritaria, parece que recuou. Não sei o que ele quis dizer com esse redimensionamento, mas foi pena haver recuado. A discussão viria em momento propício: se não há dinheiro para todos, que os estratos mais ricos da população cuidem da própria saúde e deixem o SUS para os que não têm alternativa. Não é lógico?

Está na hora de deixarmos de lado a hipocrisia utópica e o estrabismo ideológico de antigamente.

Drauzio Varella, é médico cancerologista, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões.

(foto: divulgação)


6 comentários

  1. Jacyr Augusto
    segunda-feira, 30 de maio de 2016 – 11:52 hs

    drauzio varela. Perverso como sempre. Para ele é mais fácil matar uma criança inocente e indefesa no ventre da mãe do que investir o mínimo necessário na saúde. Realmente é um médico hipócrita e perverso.

  2. PEDROCA DO SUDOESTE
    segunda-feira, 30 de maio de 2016 – 12:07 hs

    Esse cidadão é médico, é muito suspeito seus comentários ao SUS.É sócio de clínicas ,que tem convênios de interesses com o Governo.Fez e faz lóbis contra a pílula do câncer por interesses particulares.Então,seus comentários a respeito do SUS são fantasiosos.

  3. QUESTIONADOR
    segunda-feira, 30 de maio de 2016 – 12:10 hs

    -Se o sr. Dráuzio Varella acho injusto o rico se tratar no SUS, então que ele promova a modificação da Constituição para que isso não aconteça. Fácil sair falando.
    -Outra questão, todos os brasileiros que tem mais poder aquisitivo, se tratam através dos planos de saúde particulares. Mas há muitos casos, de uso de medicamentos caros que o tratamento exige e o SUS não fornece. Ora quanto pagamos de impostos Sr. Varella? Não seria justo o estado fornecer mediante a apresentação simples de uma receita médica??? Em muitos casos os pacientes entram na Justiça para prevalecer seus direitos, como o fornecimento de medicamentos caríssimos.
    -O que precisamos é de mais médicos com residência em clínica geral, para realizar o primeiro atendimento. A medicina é cara no Brasil pelo excesso de exames em equipamentos sofisticados. Parece que temos mais médicos especialistas do que clínicos geral!!!
    -Vamos parar de demagogia Sr. Varella. Enquanto nós pagadores de altos impostos, não tivermos a contrapartida do governo, o atual quadro não mudará em nada.

  4. Thiago Hart
    segunda-feira, 30 de maio de 2016 – 12:45 hs

    Sim, Drauzio, é lógico! Pena que a lógica da esquerda, que você tantas vezes defende, não enxerga!

  5. kbci
    segunda-feira, 30 de maio de 2016 – 12:59 hs

    A realidade brasileira, aquela que diariamente ocorre nas cidades, bairros e ruas da república, parece não chegar, mesmo que seja pelo “Watts…” aos olhos e/ou ouvidos de alguns políticos (… e me parece que da maioria) que se encontram em brasília e, se chega, parece que não os coloca em estado de alerta … O país tupiniquim possui ainda uma população doente sob vários aspectos, em especial o aspecto educacional.
    Imaginemos a inexistência de quantos problemas se à nossa população menos abastada fosse oferecido um adequado nível educacional ???

    Temos muito ainda a aprender com essa tal democracia !!

  6. Dartagnan
    terça-feira, 31 de maio de 2016 – 12:56 hs

    Hipócrita, perverso e gagá em avançado estado. Ele não quer nem saber quanto é descontado para o SUS, sem contraprestação, de quem usa os convênios médicos particulares, que desgraçadamente também já adotaram o padrão SUS de atendimento? Vai cuidar dos seus interesses particulares com o governo e deixe de encher o nosso saco, seu esfarrapado dono da falsa verdade!!!

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