Cadê 'o povo'? | Fábio Campana

Cadê ‘o povo’?

jd

Eliane Cantanhêde

Cumpriu-se a profecia de Eduardo Campos: Dilma Rousseff é a única presidente do Brasil contemporâneo a deixar o País pior, muito pior, do que encontrou. Michel Temer não assumiu interinamente “só” com o desafio de recuperar a confiança, reequilibrar as contas públicas e aquecer a economia de forma a acolher o máximo possível dos 11 milhões de desempregados – o que já é um trabalho hercúleo. Ele terá, também, de refazer o governo, desaparelhar o Estado e restaurar as instâncias de controle, como a inteligência e as agências reguladoras. A sensação é de terra arrasada.
Ao lançar Dilma para a primeira eleição, em 2010, Lula contou como se encantara com aquela moça tão disciplinada, que andava para lá e para cá com um laptop e tinha todas as respostas na ponta da língua. Foi assim que Dilma, que não era próxima dele, não é da história do PT e nunca tinha tido destaque nacional, virou ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e, enfim, candidata à Presidência, por um único motivo: Lula quis, quis porque ela era… craque no Google.


No seu derradeiro discurso no Planalto ontem, ladeada por ministros, parlamentares e amigos petistas, Dilma repetiu o mesmo discurso de sempre, atribuindo a desagregação política e o desastre na economia à oposição. Não ganhou um voto com isso nesses meses. E não convenceu ninguém ontem. A maioria da Câmara, do Senado, dos agentes econômicos, dos analistas e da opinião pública não comprou a versão.

Dilma sai porque, apesar de manejar bem um computador, não sabe negociar, ceder, ouvir – nem mesmo o padrinho Lula –, nem compreender o jogo da política. Porque, apesar de economista, tomou decisões erradas na macroeconomia, na gestão dos juros, na intervenção no setor elétrico. E porque, apesar de “técnica”, cumpriu à risca a única coisa que aprendeu na política: “fazer o diabo” para ganhar eleições. Daí as pedaladas fiscais, o descalabro das contas públicas.

“Estou vivendo a dor da traição e da injustiça”, disse Dilma ontem, com voz surpreendente firme e segura, ao se despedir do Planalto sem jamais ter admitido claramente seus erros. Se não admitiu, também não aprendeu com os próprios erros. Entrou e saiu do governo sem perceber que ganhar eleição é só o começo; o problema é governar depois. Especialmente depois de prometer – e fazer – “o diabo”.

Para Temer, muda-se o verbo, não o princípio: chegar ao poder é só o começo; o problema é governar depois. Especialmente quando se chega lá sem as urnas, precisando conquistar legitimidade pela imagem, pela palavra, pela ação – e por resultados que, no seu caso, têm de ser já. Apoio político e sólida base aliada no Congresso ele tem, boa vontade dos mercados, também. Mas lhe falta o principal: confiança popular.

A foto do dia da votação do Senado que a afastou foi do fotógrafo Dida Sampaio: Dilma e Jaques Wagner puxando a cortina do Planalto e olhando os arredores do Congresso e do palácio, como que repetindo a surpresa de Jânio Quadros depois da renúncia: “Cadê o povo?”. O povo, que é agente da mudança e desde junho de 2013 vai às ruas, foi o grande ausente nesta semana tão intensa em Brasília. Algumas centenas de militantes foram apoiar a saída de Dilma do Planalto. Um único cidadão se dignou a prestigiar a posse de Temer do lado de fora.

Militante petista está sempre a postos para quando seu mestre Lula mandar. Mas Temer não tem militantes, movimentos organizados e “povo”. Entre tantos e tão graves desafios, ele vai, de um lado, tourear MST, CUT, UNE e MTST e, de outro, lutar por índices nas pesquisas e por gente de carne e osso – especialmente as mulheres, mais da metade da população – que acredite e torça para que realmente dê um jeito nesse País tão pior que Dilma deixou.


6 comentários

  1. Tia Amélia
    sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 10:13 hs

    Hoje é primeira SEXTA FEIRA 13 sem a Bruxa !

  2. Profª Marisa
    sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 10:31 hs

    Mas é claro? Fechou-se a torneira da Petrobrás, da Caixa Econômica , BNDS, não tem mais pão com com mortadela, nem passagem “di grátis” nem R$50,00. Se quiserem tem que fazer como nós, protestarmos com a cara e a coragem…O ex- Governador Eduardo Campos, estava certíssimo, Nós brasileiros temos que saber diferenciar entre protesto legítimo do povo e militância paga .E se for paga é um grupo paramilitar, guerrilheiros, baderneiros e arruaceiros e não podemos deixar acontecer como acontece na Venezuela, Bolívia, Colômbia. Alerta Senhor Ministro da Justiça.

  3. Doutor Prolegômeno
    sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 10:32 hs

    Dizem que Jânio Quadros, após a renúncia, à bordo do avião da FAB que o levou à SP, pediu para que o piloto sobrevoasse o RJ e SP para verificar se o povo tinha ido às ruas em revolta pedindo sua volta. Ledíssimo engano. O povo deu pernáquia para Jânio, como deu para Dilma. O povo é ingrato por natureza e só se comove com suicídio, como o de Getúlio, pois gosta de chorar e acompanhar enterros. No caso do bando lulopetista seus sequazes são movidos à soldo do dinheiro público. Como temem que Temer venha a cortar suas mortadelas e passagens aéreas, os ditos movimentos sociais ficaram na moita. Dilma não vale passar a pão e água. Ninguém é de ferro.

  4. Zé Ninguém
    sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 12:12 hs

    A pretensão de querer que haja uma multidão em frente ao palácio é uma absurdo, sem mortandela, jabá no bolso e ônibus grátis o povo tem mais o que fazer. Quero ver agora como é que os tais “Movimentos Sociais” vão sobreviver sem a ajuda do Governo.

  5. sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 12:31 hs

    Quem é ela para falar em traição? Pois foi ela que TRAIU a NAÇÃO BRASILEIRA mentindo ao povo de que estava tudo sob controle e as mil maravilhas. o engodo é a caraterística dela e dos petistas. A Nação foi enganada, ludibriada, injustiçada e TRAÍDA por ela.Ela diz que é honesta e proba, mas quem participou de ASSALTOS A BANCOS, a sequestros e até de homicídios não passa de uma criminosa. E sua veia criminosa foi demonstrada agora no processo de IMPEACHMENT. Ela não enganará mais ninguém, terá que responder criminal e civilmente os MALFEITOS executados, como a compra da Usina de Pasadena (EUA). Deu um prejuízo ao País de BILHÕES DE DÓLARES e terá que ser ressarcido aos cofres públicos.

  6. Andressa
    sexta-feira, 13 de maio de 2016 – 14:38 hs

    Percebem que agora os políticos estão pisando em ovos? Muita rejeição, desemprego, corruptos nem aí. Um dia o povo pode se rebelar pra valer, os políticos não tem medo disso? Se um dia acontecer será incontrolável, é só olhar a Revolução Francesa.

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*