Em Havana, Obama defende direitos humanos e fim do embargo a Cuba | Fábio Campana

Em Havana, Obama defende direitos humanos e fim do embargo a Cuba

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De O Globo

HAVANA — Em um dos momentos mais esperados de sua visita a Cuba, Barack Obama se encontrou nesta segunda-feira com o presidente cubano, Raúl Castro, no Palácio da Revolução. Durante uma entrevista coletiva, enquanto o líder americano defendeu a democracia e os direitos humanos, num recado ao regime castrista, o anfitrião fez um apelo pelo fim do embargo a Cuba e pela devolução de Guantánamo.

— Muito mais poderia ser feito se o bloqueio fosse levantado. A eliminação do bloqueio é essencial para as relações diplomáticas entre os dois países. Para avançar na normalização também será necessária a devolução do território ocupado ilegalmente pela base naval de Guantánamo — disse Raúl.

Primeiro a falar na coletiva, o presidente cubano ressaltou progressos feitos entre os dois países, como a assinatura de um acordo para restabelecer os voos regulares e outros planos na área de saúde, telecomunicações, turismo e enfrentamento ao narcotráfico.

Obama, por sua vez, agradeceu a receptividade de Raúl em sua visita à ilha caribenha. Logo no início do seu discurso, o presidente afirmou que “este é um novo dia para as relações” entre os dois países e relembrou todas as medidas adotadas nos últimos meses para o degelo diplomático histórico, além de dizer que “o embargo irá acabar”.

— A relação não será transformada da noite para o dia, ainda temos muitas diferenças. Isso não será decidido pelos EUA ou por qualquer outro país. O futuro de Cuba será decidido pelos cubanos, e por ninguém mais. Ao mesmo tempo, onde quer que formos, vamos continuar a falar em favor dos direitos humanos universais — disse Obama. — Deixei claro que os Estados Unidos continuarão defendendo a democracia, inclusive o direito do povo cubano a decidir seu próprio futuro.

O presidente americano voltou a expressar seu apelo ao Congresso pela retirada do embargo a Cuba. Segundo o mandatário, os dois países deverão trabalhar em diversas áreas comuns que podem beneficiar seus povos — como as trocas educacionais, as pesquisas científicas contra a difusão de vírus como a zika, a minimização das mudanças climáticas e o combate ao narcotráfico internacional.

Raúl negou que seu país possua presos políticos ou de consciência. Ainda destacou que o país tem grandes investimentos em saúde e educação populares, além de pagamento equânime a mulheres.

— Mostrem-me uma lista de quem é preso político e os libertarei — disse Raúl, após ser surpreendido com a menção do termo por Obama. — Sabe que país cumpre todo os direitos humanos? Nenhum.

‘HAVERÁ MUDANÇAS’

Mais cedo, em entrevista à rede ABC, Obama afirmou que haverá mudanças em Cuba com a retomada de relações diplomáticas entre Havana e Washington — mesmo que este seja um processo longo para o país.

— Haverá mudanças aqui e acredito que Raúl Castro entenda isso — disse o presidente americano. — Ainda temos divergências significativas sobre direitos humanos e liberdades individuais em Cuba. Acreditamos que agora podemos potencializar nossa capacidade para promover mais mudanças.

Obama também afirmou que “não há dúvida de que o governo cubano continua a ser um Estado de partido único que reprime a dissidência”. Horas antes da chegada do presidente, no domingo, dezenas de opositores foram presos em Havana.

Em um longo post em sua página no Facebook, o presidente disse que foi a Havana estender “a mão ao povo cubano e enterrar o último vestígio da Guerra Fria na América”. Além disso, ele afirmou que quer “construir uma nova era de entendimento que ajude a melhorar a vida dos cubanos”.

“É uma honra ser o primeiro presidente dos Estados Unidos em quase 90 anos a visitar um país e um povo que ficam apenas a 170 km de nosso litoral”, diz o texto, acompanhado de váris fotos de Obama durante seu passeio com a mulher, Michelle, e suas filhas por Habana Velha.

Após anunciar que o Google instalará pontos de acesso à intenet na ilha, Obama se reuniu à tarde com pequenos empresários dos dois países, onde destacou que a cooperação econômica entre os países promete ter avanços significativos nos próximos anos.

— Com a economia global do século XXI, para que Cuba cresça, tem que se conectar. Ela deve mudar e tomar as melhores experiências do mundo. Apesar da desconfiança mútua por tantos anos de inimizade, podemos trabalhar a nível internacional sem que ninguém imponha condições aos cubanos. Tentemos algo novo, examinemos ideias — disse o presidente americano.

Ao final do dia, Obama, a primeira-dama, Michelle, e membros da comitiva americana (que incluiu congressistas) foi recebida com um jantar de Estado por Raúl, com música tradicional, charutos e comida regional.

HOMENAGEM A HERÓI DA INDEPENDÊNCIA

A manhã de segunda-feira começou com agenda cheia. O presidente prestou homenagem a José Martí, considerado o pai de independência cubana no século XIX. Ele deixou uma coroa de flores em uma estátua do líder independentista na Praça da Revolução.

Logo depois, seguiu para o memorial José Martí, o maior monumento dedicado ao herói nacional de Cuba. No local inaugurado em 1996 pelo ex-presidente Fidel Castro, Obama assinou o livro de registro de presenças com uma mensagem sobre liberdade.

Em seguida, Obama foi ao encontro de Raúl para uma reunião agendada entre os dois líderes. Ambos os presidentes cumprimentaram outros representantes dos dois governos em frente à imprensa.

O presidente desembarcou em Havana no domingo acompanhado da primeira-dama, suas duas filhas e sua sogra. Entre outras atividades que marcarão a volta de um presidente dos EUA à ilha depois de 88 anos, Obama tem previsto um encontro com dissidentes.

PREOCUPAÇÃO COM DETENÇÕES

Parte dos opositores cubanos que foram presos poucas horas antes da chegada de Obama na ilha foram libertados na noite de domingo. Cerca de 60 ativistas — a maioria membros do grupo Damas de Branco — que participavam de um protesto contra o regime foram detidos em Havana.

— O que está havendo em Cuba é um festival repressivo — esbravejou Rodiles, que hoje participará de um encontro com Obama.

Especialistas criticaram a declaração de Obama. José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch, considerou “decepcionante” a atuação do americano.

— Era a oportunidade para ir além de princípios abstratos e falar dos abusos e restrições específicas que sofrem os cubanos, incluindo prisões arbitrárias, bloqueio de páginas na internet e as leis utilizadas para punir e perseguir opositores — afirmou.


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