O povo não é bobo | Fábio Campana

O povo não é bobo

índice

Editorial, Estadão

O fiasco dos 13 anos de PT no poder, em especial dos últimos 5 sob Dilma Rousseff, pode ser resumido num dado: 82% dos brasileiros acham que o País está no rumo errado. Esta é a conclusão da pesquisa feita pelo Ibope com exclusividade para a coluna de José Roberto de Toledo no Estado. O índice deixa claro que o governo eleito por apertada maioria há 14 meses e empossado há pouco mais de um ano está “na contramão” das expectativas e necessidades, como escreveu Toledo, de muitas dezenas de milhões de brasileiros. É o maior índice de frustração da população desde o início da era petista.

Tal avalanche de decepções torna inócuo o marketing oficial, que continua apostando na credulidade de uma população que o governo do PT supõe contentar­-se com mensagens de otimismo e fé. Se tivesse capacidade de percepção e autocrítica, a presidente da República já teria entendido que promessas genéricas, ainda que embaladas por boas intenções, só servem para alimentar seu descrédito. E, à medida que se repetem sem que tenham correspondência com a realidade, tendem a irritar e até a indignar cidadãos vitimados pela inércia, pelos desmandos e pela incompetência da chefe de um governo que, pelo que fez e pelo que deixou de fazer, entrará para a História como tão inepta como “nunca antes na história deste País”.

A corrosão da credibilidade do governo expressa nos números da pesquisa tem suas causas numa realidade visível e nítida para todos os brasileiros – ou quase todos, pois, neste caso, Dilma é exceção. Ela se diz “estarrecida” com as previsões de mais recessão feitas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que previu queda da economia brasileira também em 2016 e a retomada do crescimento somente em 2017. Mais ainda, o FMI advertiu que a piora na economia brasileira pesará sobre toda a economia mundial. Diante de notícias como o 1,54 milhão de desempregados a mais em 2015, a alta do dólar para mais de R$ 4,00, a tríplice epidemia disseminada pelo Aedes aegypti e outras mais, qual cidadão não se “estarreceria” com a insensibilidade desta presidente incapaz de enxergar o próprio desastre?

Diante do contraste entre a dura realidade e a incapacidade de Dilma de enxergá­-la – quanto mais de encontrar soluções efetivas para amenizá­-la –, é difícil de imaginar onde 14% da população vislumbra razões para acreditar que há um rumo a ser trilhado por uma governante que confunde governar com ficar no governo. Talvez os 4% que não souberam o que responder aos pesquisadores do instituto estejam à espera de que, resolvido o impasse do impeachment, Dilma resolva, enfim, presidir o País. E quem se arrisca a apostar? Outra pesquisa do Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), setor econômico mais prejudicado pela soma de incúria e incompetência nestes anos lulodilmistas, constata uma faceta de lucidez cada vez maior da população quanto à crise que assola o País. De acordo com ela, 65% dos entrevistados consideram a corrupção o principal problema brasileiro. Em 2014, a preocupação com o tema ocupava o terceiro lugar. Em 2012, o quarto. E agora é o primeiro.

“Estarrecido” com as dimensões do desvio do dinheiro público, o cidadão percebe em seu cotidiano que as propinas milionárias pagas a políticos e burocratas por empresários beneficiados não resultam apenas em rombos no Tesouro. Igualmente danosa é a piora da qualidade dos já péssimos serviços públicos em áreas fundamentais como saúde e educação, em decorrência do agravamento das dificuldades financeiras do governo causado pela corrupção.

Ao contrário do que a equipe econômica de Dilma imagina, o cidadão mostra­-se também cada vez mais consciente da necessidade de manter a inflação sob controle. Esta é a segunda prioridade entre as listadas pela maioria dos entrevistados, vindo depois da melhora dos serviços de saúde e antes da geração de empregos.

Até quando, diante destes avisos de que o povo não é bobo, Dilma manterá seu desgoverno?


Um comentário

  1. Jair Pedro
    domingo, 31 de janeiro de 2016 – 9:46 hs

    Não votei na Dilma, não gosto dela, mas vivo no Brasil. Meus filhos vivem aqui e aqui viveram meus pais. Não posso torcer para que tudo dê errado em seu governo. Embora não tenha nela votado, não esqueço, que em seu discurso de posse no primeiro mandato, disse ela” meu governo irá priorizar o técnico ao político”. E até nela quis acreditar. Talvez, e tenho quase certeza, se tivesse seu governo seguido por esse caminho e pensado somente nos seus quatro anos a que tinha que governar, a situação não seria essa que aí está. Porém, como todo governo que vive encima
    de um projeto de poder, já pensando em um novo mandato e já sonhando em depois colocar alguém de sua turma, esquece fácil seus princípios e aí começa a valer aquele pensamento de que, depois de uma mentira serão necessário duas. Não precisa de nenhuma inteligência para entender que um bom mandato dará um segundo. Dilma com a chave do poder, abriu as portas para as piores espécies de políticos dando as costas para quem nela acreditou e as chaves lhe entregou.
    Agora paga o preço e nós brasileiros também. Credibilidade conseguimos honrando o que prometemos fazer. Jamais mentindo.

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