Aventura bolivariana sofre grande derrota na Argentina | Fábio Campana

Aventura bolivariana sofre grande derrota na Argentina

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Hélio Gurovitz

A vitória de Maurício Macri nas eleições para a presidência da Argentina (acima, ele ao votar) põe fim a 12 anos conhecidos como Era Kirchner, um período em que o país se transformou numa espécie de paraíso da heterodoxia econômica, misturada ao populismo típico dos peronistas, à progressiva irrelevância no cenário internacional e a tentativas frequentes – embora nem sempre bem-sucedidas – de controlar o Judiciário e a imprensa. Trata-se, também, de um baque para a esquerda latino-americana, acostumada a ídolos populistas e a ver os “hermanos” como aliados no combate ao “imperialismo ianque”.

Se você anda chocado com o resultado cada vez pior da política econômica implantada no governo da presidente Dilma Rousseff, é bom lembrar que nada se compara a Cristina Kirchner. O efeito Orloff – piada baseada naquela propaganda de vodca cujo slogan era “eu sou você amanhã” – aparentemente continua valendo: os argentinos estão anos adiante do Brasil no caminho da bancarrota. Basta lembrar que a Argentina vive há mais de dez anos na tal “nova matriz econômica”, aquela que preconiza mais gastos públicos para fazer a economia crescer, foi implantada no primeiro governo Dilma e é defendida até hoje pelos economistas heterodoxos e pelos desinformados nas páginas dos nossos jornais.

Lá, o resultado disso foi o previsível. A inflação é estimada em 25% – estimada porque os índices oficiais não são confiáveis desde que o governo interveio no IBGE argentino, o Indec, para manipular os cálculos. O país não sabe direito o que é crescimento econômico desde 2012, ano que marca o esgotamento no ciclo de alta no preço de commodities globais como soja e petróleo. A classe média portenha flerta com a pobreza há anos, e a miséria se espalha pelas províncias mais pobres, onde boa parte da população é sustentada pelas políticas sociais do governo. Cerca de 40% da população argentina recebe uma pensão, salário ou benefício do Estado, parcela que dobrou desde Cristina assumiu o poder em 2007.

Déficit público, porém, é com a Argentina mesmo. O resultado fiscal como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) vem piiorando ano após ano pelo menos desde 2008 – de um superávit de 1% para um déficit de 6% este ano. O dólar no câmbio paralelo, ou “dólar azul, como é chamado por lá, tinha, até as eleições, uma cotação 70% superior ao câmbio oficial. As reservas cambiais estão perto do fim. Não há acordo para a renegociação da dívida externa, pois vários credores não aceitaram os termos do calote dado por Cristina. Com isso, a Argentina não tem crédito na praça.

Ao longo de 12 anos, o populismo introduziu no léxico argentino um vocabulário próprio – os “abutres” (fundos que não aceitam os termos de renegociação), a “década ganha” (cínico apelido dado por ela à Era Kirchner), a “mesa dos argentinos” (outra expressão cínica usada para justificar o controle das importações, de modo a privilegiar a produção local), além de tiradas como “medir a pobreza estigmatiza” ou “matriz produtiva diversificada com inclusão social”. Todo esse linguajar acabava se resumindo a uma única letra: K, de Kirchner.

Com a eleição de Macri, a Argentina deverá adotar um alfabeto mais plural e um novo vocabulário. Ele é o primeiro presidente não oriundo nem da ala peronista nem da radical, que dominam a política argentina há décadas. Sua chapa, a Cambiemos, foi eleita com base em uma plataforma de tons liberais, contrária ao controle do comércio ou dos capitais. Deverá promover mudanças pró-mercado, como o fim do controle cambial. Mas Macri já afirmou que não mexerá nos programas sociais, nem reverá nacionalizações, como as dos fundos de pensão e da petrolífera YPF.

A principal mudança deverá ser a adoção de uma postura mais insitucional diante da imprensa e do poder Judiciário. Ele não tem o perfil bolivariano do casal Kirchner. Na política externa, é esperado o afastamento da Argentina do eixo formado por Venezuela, Bolívia e Equador. Tanto Macri quanto o derrotado Scioli disseram que gostariam de voltar a se aproximar mais dos Estados Unidos. É um movimento que também tende a beneficiar o Brasil. É, por fim, absolutamente inverossímil que Macri se enrole tanto quanto Cristina se enrolou numa investigação policial – prestes a denunciar Cristina por acobertar o papel do Irã em dois atentados terroristas em Buenos Aires, o promotor Alberto Nisman foi encontrado morto em condições misteriosas.

Filho de um empresário, Macri foi vítima de um sequestro violento em 1991, que só terminou quando seu pai pagou o resgate de US$ 6 milhões. Por 12 anos, até 2007, era famoso como o presidente do time de futebol Boca Juniors. Jamais foi conhecido pelo carisma, pelo bom humor ou pelo dom para a oratória. Entrou na política como deputado, depois foi eleito prefeito de Buenos Aires. Fez várias melhorias na infra-estrutura da cidade, tanto em transporte quanto em habitação, além de implementar reformas no Banco Ciudad, controlado pelo município.

Sua maior dificuldade para governar será interna. Apenas 4 dos 22 governadores eleitos em outubro passado podem ser considerados seus aliados. A coligação de Macri terá uma maioria apertada na Câmara de Deputados, e o Senado será controlado pelos kirchneristas por uma margem ampla. Não se sabe qual será também a reação de Cristina após a derrota de seu candidato, Daniel Scioli.

Tanto Scioli, 58, quanto Macri, 56, fazem parte de uma nova geração na política argentina. Ambos estavam ainda na adolescência nos anos de chumbo da ditadura. Não viveram a radicalização que fraturou o país. Só vieram a se interessar por política muito depois, quando a Argentina já era uma democracia. “A geração pós-democrática, cujos integrantes pertencem a distintos partidos, tem uma forma distinta de se relacionar com a política”, escreve no jornal “La Nación” o colunista Joaquín Solá. “Bem-vindos. Estava na hora de que chegasse uma geração que não tivesse a necessidade de explicar o mundo como uma conspiração e sem líderes ungidos em semi-deuses.” O mesmo vale para o Brasil.


14 comentários

  1. Palpiteiro
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 10:04 hs

    Farinha do mesmo saco. Trata-se de um peronista com embalagem sofisticada. A demagogia e o populismo estão no seu DNA.

  2. Juca
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 10:15 hs

    Bem feito para o Lula que foi fazer campanha para o candidato da situação.

  3. Doutor Prolegômeno
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 10:56 hs

    Na Argentina, todos os políticos hermanos merecem desconfiança. O cancro peronista, raiz de todos os males argentinos, permeia estes políticos todos, inclusive este que, há pouco tempo, inaugurou uma estátua do ditador na capital. Como o varguismo ainda é a raiz do bananismo populista nacional, com suas instituições obsoletas e anacrônicas que ainda vigoram, como a CLT.

  4. Do Interior....
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 11:03 hs

    Parabéns à Argentina!
    Agora falta o Brasil se livrar do bolivarianismo do FORO DE SÃO PAULO.

    Fora PT
    Fora Brasilzuela!

  5. Zabra Q Tize
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 11:12 hs

    Ele é parente muito próximo de um grande empresário da construção civil em Curitiba e passou o último verão em Guaratuba. Confiram o bizu.

  6. Parreiras Rodrigues
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 11:20 hs

    Desfalcada a quadrilha que chamam de Foro de São Paulo.

  7. BETO
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 12:50 hs

    Quem deve estar Puto com a derrota do candidato da Fascista Cristina é Lula e Dilma. Com a derrota do candidato seguidor do Sistema falido de Cristina, Lula, Dilma e outros Ditadores da América Latina que não gostam da palavra DEMOCRACIA, enfraquece e muito a força desses Ditadores para colocarem seu projeto jpá falido em pratica. Com a derrota do candidato fascista Argentino, quem ganhou foi a DEMOCRACIA. Mão esta longe de acontecer isso no Brasil.
    FORA FASCISTAS LULA, DILMA E QUADRILHA DO PT.

  8. Olho vivo
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 13:38 hs

    LÁ CONSEGUIRAM ACABAR COM DOZE ANOS DE CORRUPÇÃO TERRORISMO E ROUBALHEIRAS,AQUI AINDA TEM UNS ZERO A ESQUERDA QUE TEIMAM EM MANTER NO PODER,VAGABUNDOS DO MESMO NAIPE.

  9. Haroldo
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 16:24 hs

    A conferir.

  10. HAIMATLAND
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 17:13 hs

    COMEÇOU LÁ EMBAIXO E VAI SUBIR PARA O RESTO DA AMÉRICA DO SUL!

  11. Argueiro zego icic
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 17:25 hs

    Bem feito praquela outra maluca da Terra do Fogo!

    Só falta nós do povo aqui e agora tomá vergonha e exigir a renúncia da madamentirosa… ic ic ic

  12. zé povinho
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 20:26 hs

    Pelo jeito dos comentários muita gente ou não sabe o que está falando, ou está falando sobre o que não sabe. Mas depois que instalamos a era do Brahma da Silva todo mundo pensa que sabe alguma coisa. Comparar o Macri à Madame K e a sua Campora é prova de muita burrice e estupidez, os hermanos são infinitamente mais politizados do que nós. Os que pensam como o Gavião Bueno a respeito dos hermanos são tão estúpidos quanto ele, é muito melhor com o Macri, que não é perfeito do que continuar com o kirchnerismo, no caso argentino é melhor aposta no duvidoso do que ficar com a velha demagogia já conhecida.

  13. jose marcos
    segunda-feira, 23 de novembro de 2015 – 22:32 hs

    Eu acho que o Campana, ou quem escreveu o texto, nem sabe quem foi Simon Bolivar. Só porque o Gilmar Mendes solta suas pérolas la no Supremo, agora fica todo mundo pensando que Bolivariano é da Bolívia ou da Venezuela que usa indevidamente o nome em sua Republica, já que a Venezuela de Chaves ignora todos os princípios do Libertador Simon Bolivar.

  14. Eliana
    quarta-feira, 5 de setembro de 2018 – 10:16 hs

    E agora, o que tem a dizer? Vai fazer como os hipócritas brasileiros e colocar toda a culpa no anterior?

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